Sociedade e Cultura

Palestra organizada pelo CEDEM-UNESP debate o vazio da memória da Guerra do Ultramar de Portugal

Para o Doutor Miguel Cardina, os reflexos do colonialismo europeu são sentidos ainda hoje em todo o continente, principalmente em temas de imigração

03/10/2019 16:33

 

 
A Guerra do Ultramar, ou Guerra de Libertação (denominação utilizada pelas colônias africanas), é um importante marco na história portuguesa e das diversas colônias, já que mobilizou em seus cerca de 14 anos mais de 1.3 milhões de combatentes, entre eles 500 mil africanos incorporados às tropas portuguesas.

Esse conflito, em realidade diversos conflitos no continente africano entre 1961 e 1974, têm sido tratado revisto à través do trabalho do Doutor Miguel Cardina, que financiado pelo projeto Crome da realiza um trabalho de investigação sobre o colonialismo e posterior processo das independências.

A principal característica encontrada pelo pesquisador português é que a população local não conseguiu visualizar nem dimensionar o que representaram essa guerra tanto para a população local, como para os combatentes. Os principais motivos foram:

* A censura e o apagamento público da guerra devido ao controle da ditadura sobre a imprensa

* O papel limitado das oposições antifascistas

* A distância geográfica do conflito

* A narrativa colonialista portuguesa, algo pensado como não colonial

* A importância das descobertas na história de Portugal, fortalecidas durante o Estado Novo

* O silencio existencialista entre os que viveram a guerra, só falavam com entre eles sobre o conflito

Para o Cardina a Europa e Portugal precisam enfrentar de maneira decisiva e de frente aqueles legados que estão ainda muito vivos nas sociedade, “estão vivos de maneira peculiar, através do silenciamento, do não dito, o esquecimento, o rasurado. Não podemos pensar o racismo em Portugal sem ter em conta uma história de colonização profunda. E, portanto, os países europeus que foram potenciais coloniais devem fazer um trabalho de arqueologia do presente, refletindo o modo como se constituíram como sociedade, baseadas no privilégio, no colonialismo como experiência de desigualdade profunda e de opressão”.

IMIGRAÇÃO

Questionado sobre o papel da colonização dentro das políticas migratórias, o pesquisador ressalta a história do continente, “acho inacreditável que um continente, com a história colonial que têm a Europa, seja capaz de ter esse tratamento com os imigrantes do mediterrâneo”. Para Cardina o movimento migratório tem servido para o incremento da direita e de um discurso xenófobo, “é altamente preocupante porque se baseia em uma convicção completamente falsa de que a Europa ou está a ser invadida ou ser muito generosa com boa parte dos imigrantes. Os imigrantes estão na África e no Meio Oriente, e ficam mudando de país. Uma parte pequena tenta chegar à Europa e nesse processo que deve envergonhar a Europa como tal. O que está acontecendo no mediterrâneo é um processo absolutamente indigno não só da história da Europa, mas também dos valores que diz proclamar”.

BRASIL

Sobre o alinhamento político do governo brasileiro aos Estados Unidos, o professor ressaltou a necessidade de aprender com as experiências históricas das décadas de 60 e 70, que motivaram movimentos de independência ao colonialismo, “esses movimento tinham seus limites e concessão emancipatória, que tinha uma trazia uma reflexão muito aguda sobre a questão do imperialismo e o colonialismo. O que vemos hoje em dia é um processo diferente, mas onde existem forças de natureza imperial e que tem produzido constrangimentos fortíssimos nos contextos nacionais. Tanto na África, como na América Latina e na Europa”.

Miguel Cardina afirma que “neste contexto internacional que vivemos, muito diversificado em função do territórios, há dois elementos que devemos descobrir. Um deles é a aprendizagem com as experiências passadas, que significaram reflexões e combates fortes pela emancipação, e outra, associada a esta, que é redescobrir a possibilidade da esperança, e olhando para o que se passa no Brasil essa deve ser uma necessidade absoluta. Não quero dizer que devemos acreditar que o mundo vai ser melhor, é encontrar caminhos políticos e possibilidades concretas e materiais de transformar o existente”.

Para conhecer mais sobre o Centro de Documentação e Memória da UNESP (CEDEM), acesse https://www.cedem.unesp.br/



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