Sociedade e Cultura

Para além da pulsão de morte: a paz como utopia

 

20/09/2020 13:47

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Dedico este pequeno artigo a Sílvio Tendler, o documentarista das utopias iconoclastas, relançadas sem esmorecer durante os sonhos interrompidos do Brasil, dispondo-se sempre a atravessar conosco o pessimismo de desertos totalitários, desafiando-os com o novo, com a arte, com a cultura, com o humor e com o pensamento libertário.

Diante do seu pedido para que eu fale sobre Psicanálise Paz e Utopia no âmbito talvez dos Estados Gerais da Cultura, que ele encabeça desde agosto realizando encontros on line com o intuito de restabelecer o Ministério da Cultura no lugar que lhe é devido, de órgão de Estado, me pergunto como pode a psicanálise, aliada à arte, à cultura, à ciência, à afirmação da vida, ao sim dionisíaco à vida de que nos fala Niezsche, desenhar como possível, concretamente, isto é, sem ilusões, um pensamento sobre a paz? Na vigência de um presente tão dizimador no governo bolsonaro, tão destruidor de nossas vidas e de grandes conquistas, da Amazônia e do Pantanal que ardem nas chamas da cobiça e da irresponsabilidade neoliberal, de nossos sonhos de futuro, como poderia a psicanálise servir de ponte para lançar a ideia de uma paz conjectural e conjuntural, que não elide a ideia de conflito estrutural do sujeito na base das civilizações, que aceita o dissenso, a diferença, mas que faz questão do diálogo e sobre ele se assenta? Como pensar esta paz como objeto de desejo do sujeito e da comunidade planetária contra o fundo poderoso das pulsões de morte que nos habitam?

 É importante dizer desde o início que entendo a paz não apenas como um estado político de não-guerra, de paz civil, mas como um estado ativo e contínuo de resistência (pacífica e transgressiva) por parte dos cidadãos de uma sociedade democrática, principalmente sob a opressão de um Estado de Direito não pleno com um governo de extrema-direita. Resistência ativa à violência em todos os graus, à crueldade que vem indissociavelmente ligada à pulsão de morte, e às suas inúmeras formas de sofrer e fazer sofrer (racismos, discriminação. desigualdade social, guerras neocoloniais e seus milhões de refugiados, genocídios sem fim). Nestas formas de crueldade explícita ou insidiosa se especializou o momento neoliberal do capitalismo que já dura 50 anos, destruindo celeremente a humanidade e o planeta.

Este longo durar, da ditadura do dinheiro, destrói principalmente nossos valores éticos, e nos oferece em troca o conforto do consumismo que nos entorpece, e nos compra a alma por um pífio bem-estar que jamais será um bem-viver, que pressupõe um campo de valores éticos, empobrecendo-nos subjetivamente, tornando-nos banalizadores do mal ao permitirmos, sem fazer resistência, os avanços de uma ideologia global de mercado cada dia mais cruel, excludente das pessoas, expropriadora dos bens e riquezas dos povos. Uma mais-valia globalizada decorrente da loucura especulativa, como já nos adverte Milton Santos no início dos anos 2000.

Trocando em miúdos, esta PAZ que nos convoca ao melhor de nós mesmos como cidadãos planetários rapidamente mortais, pelo visto, apesar de toda a hiper tecnologia, e recém-descobertos como tal, fora de uma guerra mundial, e sim pela pandemia pelo corona vírus, é uma difícil conquista. Isso é uma utopia? Sim, é uma utopia. Não totalizante ou totalitária (projetista) como muitas outras, mas uma utopia do comum, que nasce enraizada na realidade do presente, revoltada contra os malfeitos da globalização financeira, da corrupção inenarrável das agências financeiras pilotando as megacorporações globalizadas que, através de sua produção fragmentada mundo afora, se apossam dos territórios pirateados pela ideologia do “dinheiro puro” (expressão de Milton Santos, em Por uma outra globalização, 2002). Este dinheiro que se torna cada vez mais um fim em si descarta o homem e o planeta do centro das preocupações para as periferias dos interesses, já que essa ideologia que move o mundo é um fundamentalismo financeiro, uma idolatria do dinheiro. Dela decorre a miséria, o sofrimento dos povos e a indiferença não só dos idólatras bilionários, mas também a do laço social corrompido pelo dinheiro e pelo consumismo, onde o acontecer do outro, sua vida, sua morte, não nos diz respeito.

Foi também a partir de um contexto de profunda injustiça social, perseguições, corrupção, assassinatos, intolerância religiosa e desejo de poder, no reino de Henrique VIII, na Inglaterra do início do século XVI, que Thomas Morus, chanceler do reino, sonhou e escreveu sua Utopia (1515). Esta palavra-território, material ou imaterial, faz muito sentido para aqueles que não vendem a alma ao diabo, ao fundamentalismo do rei ou do capital, para aqueles que sabem dizer não, e dão a vida por isso. A bolsa ou a vida! Aliás, este é o nome de um novo documentário de Silvio Tendler que sendo terminado, muito a calhar nestes tempos de pandemia e de irresponsabilidade total.

Sir Thomas Morus, chanceler da Inglaterra, foi decapitado por ordem do rei por não ceder de seu desejo de dizer não ao cisma com a igreja católica que ele, Henrique, realizou, criando a igreja anglicana, decorrente de seu casamento com Ana Bolena, sendo ele já casado.

Bem comparando, Morus é uma Antígona da Renascença, uma figura emblemática da ética, embora não tenha sido o único. Ele era católico fervoroso, um homem engajado com seus valores éticos e posicionamentos. Sendo um crítico do império de Henrique VIII e das monarquias europeias, ele decide escrever um livro, criando uma ordem alternativa: Utopia (1515), cuja estrutura eu indico abaixo para nos identificarmos a nosso bel-prazer e nos perguntarmos se Morus não foi o primeiro socialista da humanidade.

A Utopia se divide em dois livros: no primeiro, existe uma crítica à Inglaterra da época em que o autor vivia; no segundo, apresenta uma sociedade alternativa. No primeiro livro, Morus faz a crítica da época na qual os camponeses estavam sendo expulsos do campo para as cidades. Portanto, havia bandos de ladrões por todos os lados; uma justiça cega e cruel; uma realeza ávida de riquezas e sempre pronta para a guerra; perseguições religiosas; um povo oprimido pelo trabalho incessante para manter o exército, a corte e uma multidão de ociosos; a sede de dinheiro dos reis, dos nobres e dos grandes burgueses era a causa da miséria da maioria; aumentava cada vez mais o abismo entre as classes sociais, o que transformava os juízes em carrascos e as penas em castigos pavorosos. E não tinha nem capitalismo..., nosso judas preferido, com razão. Era o mercantilismo, um sistema econômico de transição entre o modo de produção feudal e o modo de produção capitalista. Mas havia o velho homem e sua pulsão de poder, de dominação e aniquilamento, máscara da pulsão de morte, aliada a uma indissociável crueldade.

Esses problemas, entretanto, não existiriam na segunda parte do livro, na "República de Utopia", lugar onde não se podia prejudicar ninguém em nome da religião; onde a intolerância e o fanatismo eram punidos com o exílio e a servidão; o povo podia escolher suas crenças e os vários cultos podiam coexistir em harmonia; desfrutava-se dos benefícios da paz (uma crítica a Henrique VIII, que travou diversas guerras por ganância ou por paixão pela glória militar e pela guerra, que, naquela época, servia para enriquecer os nobres e a burguesia); o parlamento zelava pelo bem do povo, pois descobrira que a propriedade individual e o dinheiro são incompatíveis com a felicidade. E muitos outros aspectos de impressionante atualidade! Vale a pena ler o livro.

Ou seja, a história da humanidade não é original. Só existe o novo fora dessa cadeia da repetição automática própria à pulsão de morte quando surgem as utopias, as transgressões da ordem estabelecida, o repúdio ao imperialismo deslavado como o feito pela Revolução Cubana em 1959, durante os 30 anos Gloriosos que uniram liberalismo e social-democracia, e, por aqui, os governos do PT que muito fizeram pelo povo brasileiro. Apenas alguns exemplos.

Considero importante constatar o destino denegrido da palavra utopia através dos cinco séculos passados desde então e refletir como a metafísica moderna, imbuída de vontade de poder e de ordem, da submissão do pensamento à razão filosófica, também supressora dos afetos e da liberdade, fez desaparecer a UTOPIA, ou retirou-lhe todo o fulgor ético e político, fazendo valer apenas o sentido de “sociedade ideal”, de “lugar que não existe”.... Ou seja, pensar em como ela foi sufocada, porque a utopia é rebelde, insurgente, ela quer transformar o que é ou está péssimo. E disso uma filosofia da ordem não quer saber. Nenhum governo totalitário tampouco.

No entanto, a experiência da utopia já foi realizada e de forma exitosa muitas vezes, como a utopia do Estado de Bem-Estar Social durante “os 30 anos gloriosos” depois da Segunda Guerra, numa Europa destruída, onde se queria o quê? A reconstrução dos Estados de tal forma que se tentasse estabelecer a paz de forma mais duradoura, mas que sempre dependeria do equilíbrio de forças em questão. A ONU, fundada em 1948, é apenas um frágil dique contra os truculentos interesses financeiros e territoriais para a guerra entre Estados Soberano, sustentados pela pulsão de dominação e de crueldade. Ela precisaria ser reforçada com utopias, que propusessem uma mudança de mentalidade dos povos e Estados, de um pensamento novo, de uma outra globalização não perversa, como previu e escreveu o grande utopista-de- campo, Milton Santos. Não pude aqui, neste contexto, fazer justiça à amplidão de seu pensamento, comprometido com um mundo melhor, no qual, segundo sua utopia, “a humanidade será una...”.

Freud mostra no início de seu texto “Atualidade sobre a guerra e a morte”, de 1915, a desilusão que lhe causou a carnificina entre povos europeus durante a primeira guerra, aliados culturais da civilização. Mas reflete sobre esta ilusão dizendo com certa ironia que estes Estados nunca chegaram (a um patamar civilizatório) tal alto que fizessem pensar que eles não pudessem chegar tão baixo.... E que se quiséssemos ter paz duradoura teríamos que nos preparar para a guerra, fazendo-nos pensar que a paz é apenas um estado conjuntural, frágil, ferozmente mantido às custas da repressão da violência do Estado. Dizendo com isso que a violência é estrutural e primordial.

Em 1932, em “Por que a guerra?”, Freud responde a Einstein, pacifista, interessado em saber se haveria possibilidade de não haver mais guerras, que a Destruktion triëbe ( a pulsão de destruição freudiana) que o próprio Einstein traz à conversa é inextirpável, já que todo indivíduo e a civilização são constituídos por Eros e Tanatos, segundo a utopia freudiana em jogo na criação da psicanálise, na vigência da hipocrisia de uma sociedade puritana, moralista, e positivista, no século XIX, em Viena. Sua utopia: a de que haveria “uma outra cena”, um outro topos (o inconsciente) movido por forças pulsionais, lugares psíquicos, instâncias geradoras de conflitos que lutam entre si por satisfação, pensamentos inconscientes que nos manipulam, conflitos... sem garantia de erradicação de tais conflitos, mas com possibilidade de sua transformação, diminuindo assim os níveis de mal-estar. No sujeito e na civilização.

É essa utopia castrada que ele oferece a Einstein ao dizer que seria possível relativizar a destruição ou a repetição comandada por Tanatos por meios indiretos. Deixando-nos supor que as forças agregadoras de Eros poderiam fazer seu caminho, afirmando-se também como força titânica, independentemente da pulsão de morte, embora se mesclem, dependendo o resultado da potência de cada uma dessas forças em determinada conjuntura (ou jogo de forças). Estão sempre em jogo forças destrutivas e reativas (comandadas por Tanatos, como o ressentimento, o rancor, o ódio, crueldade) e forças agregadoras e ativas (Eros) como o amor, a solidariedade, a compaixão, nesta outra cena, neste teatro trágico do inconsciente onde “o homem não é mais senhor em sua própria casa”, estando sempre descentrado e dividido. Diz Freud que a cultura é obra de Eros, sendo responsável, através da sublimação que propõe de nossas pulsões agressivas, pela diminuição do mal-estar na civilização, combatendo por meios indiretos, como me referi anteriormente, o culto da violência e da morte.

Freud hesitou várias vezes em sua obra
, parecendo às vezes contradizer-se, após 1920, ano da publicação de “Para além do Princípio do prazer” (quando ele nomeia a força de destruição de pulsão de morte), sobre a quem atribuir a hegemonia do psiquismo: se a Eros ou a Tanatos. Acaba por ficar implícito na obra que o conflito dinâmico no sujeito (e na civilização), resultante da afirmação de cada uma das forças do dualismo pulsional, não tem vencedor a priori. Quem ganha? O princípio do prazer, regido por Eros, ou a compulsão a repetição, regido pelo princípio do Nirvana, ou simplesmente por sua força, a pulsão de morte?

Este não saber, este jogo (de forças) que está sempre sendo feito ou jogado, é nosso perigo e talvez a possibilidade de uma meia redenção pela sublimação. Se os jogos já tivessem sido feitos e ganhos a priori, por alguma hegemonia absoluta de Eros ou de Tanatos, não precisaria haver psicanálise, nem arte, nem cinema, nem literatura, nem ciência. Não haveria aposta na paz. Só o deixar rolar da violência e da guerra, a pura repetição ordenada por Tanatos.

Mesmo com essas boas notícias (!), eu gostaria de ir mais longe nessa busca para fazer da paz como utopia planetária possível, desejável e necessária um talvez. Afirmando com isso a potência do talvez, do indecidível, que vai se decidindo pelo caminho, não sem angústia. Para isso, vou me fiar em Jacques Derrida, filósofo da desconstrução como ética, como justiça, e grande estudioso e crítico da psicanálise, herdeiro da ética de Emmanuel Lévinas. Este grande pensador da alteridade parte da ideia de que a Ética, e não a Ontologia, é a Filosofia primeira. E que é no face-a-face humano que irrompe todo sentido. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre responsável e lhe vem à ideia o Infinito.

Está impressa na obra de Lévinas a memória do Holocausto. Traz consigo, portanto, a inquietação de um século marcado pela dominação do homem sobre o outro homem, com toda a crueldade. Nas palavras dele, "Século que, em trinta anos, conheceu duas guerras mundiais, os totalitarismos de direita e de esquerda, hitlerismo, stalinismo, Hiroshima, o goulag, os horrores dos campos de extermínio nazistas e do Camboja, o genocídio armênio...Século que finda na obsessão do retorno de tudo o que estes nomes bárbaros significam. Sofrimento e mal foram impostos de maneira deliberada, mas que nenhuma razão limitava na exasperação da razão tornada política e desligada de toda a ética".

Já estamos chegando lá outra vez?

Com esta matriz ética poderosa, transmitida a Derrida por Levinas, gostaria de finalizar esta pequena introdução da paz como utopia possível num para além da pulsão de morte referindo-me a uma palestra de Derrida, em que eu me encontrava presente, na Sorbonne, em julho de 2000, na abertura dos Estados Gerais da Psicanálise. Jamais esquecerei. Foi um acontecimento total. Com uma fala cadenciada por um sopro forte, o filósofo intima os 700 psicanalistas presentes, vindos de várias partes do mundo, a não tecerem mais álibis e a se comprometerem com os destinos da psicanálise no mundo, tentando diminuir sua crueldade. Nada mais próprio à psicanálise do que a crueldade, diz ele. E que seria preciso ir além do território empírico da pulsão de morte, pois Freud tinha se contentado com uma “economia do possível”, onde ele inscreveu seus dois dualismos. Traz a ideia de se caminhar na direção de uma não-economia, de uma aneconomia, de uma ética que delineia no horizonte sem fronteiras de nosso tempo as figuras dos Incondicionais impossíveis: o perdão, o dom, a justiça, o talvez, a hospitalidade, a amizade, a vinda incondicional do outro, os indecidíveis (A bolsa ou a vida?), a utopia, acrescentaria eu. Onde o im-possível não é negativo, mas aponta para um outro eu, ético, que seria capaz de perdoar o que não é possível perdoar, de fazer dom sem esperar de fato retribuição, de desejar e lutar pela paz toda vez que o mesmo retornar (a guerra). Escolhas incondicionais.

Glaucia Dunley é psicanalista, médica (UFRJ), mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ), Doutora em Comunicação e Cultura (UFRJ), pós-doutoramento em Comunicação e em Teoria Social (UFRJ). Autora de vários livros, entre eles: O silêncio da Acrópole - Freud e o trágico – uma ficção psicanalítica (Forense Universitária, 2001); A festa tecnológica – o trágico e a crítica da cultura informacional ( Escuta/Fiocruz,2005); Superações do pós-moderno - crítica e clínica da cultura (Estação Utopia, 2013), Psychanalyse et utopie (EUE, 2019)

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