Sociedade e Cultura

Para dar um passo a mais é preciso dizer não ao não

 

05/06/2020 17:12

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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Desde a época de Esopo, fabulista grego nascido no século VII a.C., percebe-se que é alingua de que se trata. É em alingua, qualquer que ela seja, que se recebe a primeira marca, uma palavra que equivoca. Em francês a palavra “ne” (não) anterior a um verbo se pronuncia de maneira equívoca com a palavra “noeud” (nó). E a palavra “pas” (não) que reitera a negação ou redobra a negação pode designar “um pas” (um passo). Para Lacan é da maneira que a linguagem é falada por alguém em sua singularidade que algo resultará em toda espécie de modos de dizer. Freud trabalha pela palavra, o que Lacan nomeia de “moterialisme” (equívoco entre materialismo e mot (palavra). É pela palavra e o equívoco em que reside a tomada do inconsciente. Não há outra maneira de sustentar o sintoma senão pela palavra.

Nos degraus do Panteão em 1970 Lacan se vê cercado por estudantes que lhe perguntam: Onde é que o senhor situa o proletário? E Lacan responde: O proletário não é simplesmente explorado, ele é aquele que foi despojado (usurpado) de sua função de saber. A pretensa libertação do escravo teve, como sempre, outros correlatos. Ela não é apenas progressiva. Ela é progressiva à custa de um despojamento (uma usurpação). A nova ênfase dada ao saber do explorado me parece estar profundamente motivada na estrutura. A questão é saber se isso não é algo totalmente sonhado.

Na sua origem o discurso tem a ver com tudo o que transcorreu na história. A relação senhor-escravo presente no pensamento hegeliano diz de um proletário que antes era o escravo. O escravo era o saber. Sócrates faz uma demonstração de sua tese a Mênon interrogando seu escravo sem ensinar os cálculos de uma superfície então já esquecidos. Sócrates o faz entrar em aporia para demonstrar a Mênon que a aporia é essencial para que se possa ter conhecimento, ciente de que não se sabe, terá ciência sem que ninguém lhe tenha ensinado mas sim interrogado, recuperando de si mesmo a ciência que em outro tempo possuía.

Lacan diz que só se mostra que o escravo sabe ao lhe fazer boas perguntas. A episteme se constituiu por uma interrogação, por uma depuração do saber. Não foi à toa que Sócrates em Diálogos de Platão tenha interpelado o escravo e demonstrado que este sabe – que sabe, por sinal, o que não sabe.

Ao fazer a equivocação homofônica de mênon, temos mais non (mas não). Ao dizer “mas não”, “não consigo respirar”, diz-se o não ao não para dar mais um passo, diz-se não ao negacionismo dos conservadores de extrema-direita que vem se propagando, que se transmite como um vírus que é próprio do discurso dos senhores, das classes dominantes. O ato da palavra recai entre o saber inconsciente e o dizer.

Em o Rinoceronte, peça de teatro do século XVII de Ionesco, em que se trata do disparate na política de governar há um personagem, “O Lógico”, que entra rápido em cena e diz: “Um rinoceronte, a toda velocidade, na calçada da frente!”

Mais adiante os personagens procuram “o Lógico”, o filósofo, enfim um lógico... Outro interroga: “Qual lógico?” E um dos personagens responde: “É um lógico que eu conheci e que me explicou... explicou que os rinocerontes asiáticos eram africanos e os rinocerontes africanos eram asiáticos.”

Ao final da peça Bérenger diz à Daisy: “Sabe, senhorita Daisy, o Lógico é rinoceronte!” E Daisy diz: “Eu sei, reconheci-o agora na rua, quando vinha vindo. Ele corria bem depressa...”

E Bérenger diante de uma sociedade em que todos se tornaram rinocerontes a partir de um dizer (do “Lógico”) que os lançou no delírio dos rinocerontes, se arrepende por não ter seguido todos eles, enquanto era tempo: “Devia ter seguido todos eles, enquanto era tempo. Agora é tarde demais! Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar.”

“Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina, minha carabina!” Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até o fim! Não me rendo!”

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência!

Ivanisa Teitelroit Martins é psicanalista, autora de 25 ensaios em psicanálise, apresentados em jornadas nacionais e internacionais, dois deles publicados: a “lógica do inconsciente no nó borromeu” e “sintoma como índice da estrutura significante”






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