Sociedade e Cultura

Porque sou feminista - e socialista

O feminismo pelo qual eu luto não se aconchega no colo do capitalismo. Está enraizado no entendimento de que o capitalismo é o problema, e que um feminismo consolidado nos princípios democráticos, igualitários e anticapitalistas é a solução

20/03/2020 19:04

Movimento de libertação das mulheres em Washington, DC, em 26 de agosto de 1970. (Don Carl Steffen/Gamma-Rapho via Getty)

Créditos da foto: Movimento de libertação das mulheres em Washington, DC, em 26 de agosto de 1970. (Don Carl Steffen/Gamma-Rapho via Getty)

 

O feminismo e o capitalismo estão em crise. Não uma crise no sentido de que a constelação de normas, ideias e práticas que apoiam o capitalismo e o feminismo esteja em perigo de colapsar, mas sim uma crise no sentido de que chegamos a um ponto de inflexão.

A variante do capitalismo, chamada de neoliberalismo, aos olhos de muitos, perdeu legitimidade. Há um desgosto amplo com as instituições e os porta-bandeiras do status quo. As vozes centristas que têm moldado o senso comum nas últimas décadas – e que hoje insistem, em face de uma desigualdade enorme e à uma mudança climática catastrófica, que o único caminho a seguir é a preservação dos elementos principais do neoliberalismo – estão sendo forçadas a partilhar as ondas sonoras com populistas de esquerda e de direita que pensam o contrário.

O feminismo, por sua parte, está sendo decretado como ineficaz e cego, simultaneamente. O que por décadas as mulheres nos países ricos tiveram como os principais objetivos do feminismo – igualdade salarial, representação política e econômica igualitária, direito ao aborto – ou não foram alcançados ou estão sendo ameaçados.

Além disso, para um número crescente de mulheres, particularmente as pobres e mulheres da classe trabalhadora e as que vivem no Sul Global, esses objetivos parecem ser insuficientes ou não estão em sintonia com as realidades da vida diária. Para muitas, o feminismo tradicional parece um projeto moldado ao redor das necessidades e desejos de mulheres privilegiadas.

No entanto, crises significam oportunidades. Agora, nesse momento de incerteza política, há uma abertura – um remapeamento do possível. As pessoas estão buscando novas ideias e fazendo perguntas difíceis sobre a natureza e a direção do horizonte que buscamos.

Qual é o horizonte do feminismo? O capitalismo e o feminismo podem coexistir?

Para abordar essas questões produtivamente devemos lembrar que o feminismo não é um programa político pré-determinado. É uma luta política. Frequentemente esquecemos de elucidar esse fato, o que só resulta em confusão. Caracterizar o feminismo como uma luta política salienta o ponto óbvio, porém essencial, de que as mulheres possuem, frequentemente, visões políticas de mundo radicalmente diferentes.

Se pensarmos que o capitalismo é, com alguns ajustes aqui e ali, o sistema mais justo e interessante, o melhor jeito de organizar o planeta, nosso feminismo vai refletir essa visão de mundo. Essa luta feminista irá orbitar ao redor de objetivos que forneçam às mulheres oportunidades e recompensas dentro do capitalismo, iguais aos fornecidos aos homens. Esse feminismo vai lutar para realizar as condições que permitam que cada mulher encontre seu lugar no mercado de trabalho e para maximizar seu capital humano.

Mas também há aquelas de nós cujo feminismo é moldado por políticas anticapitalistas. Se pensarmos que o capitalismo está destruindo a vida do nosso planeta e evitando que a maioria da população tenha uma vida decente, quem dirá alcançar seu potencial total, nosso feminismo exigirá algo além de meros ajustes no status quo que, na prática, beneficiam em sua maioria, mulheres brancas possivelmente empresárias. Esse feminismo oferecerá uma visão da liberação além dos caminhos estreitos do trabalho pago e da representação político.

A liberação feminina está ganhando a sala principal, ou, ao menos, uma chance genuína de conseguir a sala principal? Ou acreditamos que a liberação das mulheres é a possibilidade de todas as pessoas terem justiça, dignidade e segurança?

A maioria das visões sobre a liberação feminina partilham premissas importantes. Concordamos amplamente que todas as mulheres deveriam ter acesso a comida, e dependendo da sua política, algum padrão de saúde e educação. Também concordamos que todas as mulheres deveriam ter proteção igualitária contra abusos e violência perante a lei.

Mas rapidamente chegamos a um ponto de divergência. Além do fato de que nossas respostas à pergunta sobre “O que a liberação feminina significa para mim?” sugerem projetos políticos distintos. Não há um horizonte feminista. Nossas várias definições de liberação feminina, formadas com lágrimas e triunfos ao longo do tempo, enraizadas em décadas de teoria e prática, apontam o caminho em direção à horizontes diferentes.

O projeto feminista dominante das últimas décadas nos encorajou a esquecer esse fato. Proponentes do feminismo tradicional trabalharam duro para transformar os vários feminismos do mundo, cada um enraizado em uma visão política de mundo diferente e em uma diferente visão da liberação feminina, em uma única versão do feminismo que se alinha com as preocupações e inclinações do nosso sistema lucrativo.

Essa versão do feminismo define a liberação das mulheres como igualdade com os homens na hierarquia do poder. Faz pouco para desafiar, quem dirá desmantelar, essa hierarquia. Ao invés, o feminismo tradicional está em sua maior parte preocupado com distribuição, focado em dar lugar às mulheres na alta sociedade, ao invés de se esforçar por ganhos que ajudariam todas as mulheres, como assistência médica para uma única pagante, moradia segura, ensino superior público gratuito, salário mínimo decente e acesso universal à creche.

Isso não significa que versões do feminismo pró-capitalismo não são autenticas ou não possuem valor. Os mercados podem empoderar mulheres, e ganhos feministas reais foram conquistados dentro do capitalismo. Esses ganhos não foram um resultado do capitalismo obviamente, mas foram conquistados seguindo as batalhas dentro do capitalismo.

No entanto, recentemente, ao falhar em desafiar as conduções desagregadoras do capitalismo, versões dominantes do feminismo oferecem uma visão reprimida da liberação feminina. Nesse momento, deveríamos aproveitar essa abertura política e lutar por um feminismo que não louve nosso sistema lucrativo auto-destrutivo.

O feminismo pelo qual eu luto não se aconchega no colo do capitalismo. Está enraizado no entendimento de que o capitalismo é o problema, e que um feminismo consolidado nos princípios democráticos, igualitários e anticapitalistas é a solução – é a resposta para a opressão de mulheres, crianças e homens, a resposta à destruição do nosso ar e dos nossos oceanos e selvas, e é a resposta ao silenciamento da nossa criatividade e da nossa solidariedade.

Não se confunda, meu feminismo quer que as mulheres ganhem salários iguais e sentem nos salões do poder. mas também quer muito mais que isso – exige liberação das estruturas econômicas e políticas que evitam que a grande maioria das pessoas tenha uma boa vida.

Meu feminismo acredita que esse objetivo somente pode ser alcançado por meio da luta anticapitalista. É um feminismo que abraça movimentos sindicalistas e campanhas por salários decentes, esforços para reconhecer e recompensar o trabalho reprodutivo não remunerado, movimentos que construam uma transição justa para a energia verde, que luta contra o racismo e pelos direitos LGBTs e que abraça esforços para “descomoditizar” as necessidades da vida.

Talvez você não goste da minha versão do feminismo. Talvez você tenha sua própria visão da liberação feminina que parece diferente. Você pode não ter uma visão política de mundo cristalizada. Está tudo bem.

Desenvolver feminismos poderosos e robustos exige que escutemos outras mulheres (jovens e talvez alguns homens) sobre suas esperanças e sonhos, valores e medos, prioridades e lutas. Escutar sem julgar ou ofender.

O feminismo não é um mapa para a utopia que um dia alcançaremos e viveremos felizes para sempre. É uma batalha secular pela liberação. Eu estarei lutando e você deveria também.

*Publicado originalmente em 'Jacobin Magazine' | Tradução de Isabela Palhares

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