Sociedade e Cultura

Pós-democracia, 'fake news' e muito ódio: falhamos como sociedade...

 

07/03/2019 15:26

 

 
Pequenos, frágeis e sem nenhuma condição de defesa do mundo externo. Nascemos assim. Porém, desde aquilo que Friedrich Engels (1820-1895), em seu A origem da família, da propriedade privada e do Estado, denominou Estado Selvagem, a espécie humana percebeu que, a despeito da sua vulnerabilidade, o caráter gregário é o componente mais importante para a sua manutenção. Com efeito, mesmo com uma história escrita a sangue, especialmente após duas grandes guerras, cá estamos nós, sobrevivendo, entre outros fatores, devido aos marcos civilizatórios que estabelecemos. Esses alicerces, edificados sobre uma base burguesa, formaram, a partir do século XVIII, o Contrato Social tão bem redigido por Jean Jacques Rosseau (1712-1778). Entregamos nosso direito à vingança – ou seria a justiça? – nas mãos de um ente maior, que estaria preparado para administrar sanções contra quem ousasse se desviar dos trilhos seguros que a civilização instaurou.

Descrevendo nesses termos, a lei, através dos instrumentos de regulação – e repressão – social, seria infalível. Contudo, ao mesmo tempo literal e simbólica, essa lei, tendo como principal agente promotor a figura do Estado, jamais foi totalmente cumprida. Em favor dos interesses econômicos de grandes grupos sociais, contínua e diariamente, ela é desrespeitada. Logo, essa desordem permanente, mascarada por uma ordem social, só poderia resultar em sistemáticas lesões sociais, das quais se destaca o aumento do desprezo pela vida. Alguns fatos vêm demonstrando como nossa sociedade seguiu por esse caminho tipicamente fascista: discursos de ódio contra minorias sociais, preocupação excessiva em regular a sexualidade alheia e uso das redes sociais para manifestar esses e outros comportamentos que configuram o avanço do autoritarismo. Há poucos dias, tivemos mais um exemplo desse processo que ameaça nossa civilização: postagens em redes sociais, celebrando a morte de Arthur Lula da Silva, neto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso a partir de uma farsa jurídica que o acusa de corrupção e lavagem de dinheiro, em uma intrincada rede de processos, que, para falar o mínimo, tem, na visão de juristas nacionais e internacionais, méritos obscuros e frágeis.

Que o atual presidente saiu vitorioso de uma campanha baseada em mentiras e ódio, divulgados por grupos de whatsapp não é nenhuma novidade. Após empossado, seus seguidores e ele mesmo, bem como alguns dos seus ministros, continuam a difundir falsas informações. Muito ódio também tem sido disseminado. Aqui, chamam a atenção postagens comemorando a morte de uma criança, vítima de meningite meningocócica, apenas por ser neto de Lula. O mais notável é ler postagens de pessoas que se identificam cristãs, atestando a razão da morte do pequeno Arthur, como punição divina pelos supostos atos de corrupção do avô. Uma demonstração do ódio contra Lula, sem dúvida. Muito mais que isso, porém.

Em nossa análise, a celebração em torno do falecimento do neto de Lula, através das redes sociais, possui significado para além de atingir o ex-presidente em sua integridade psicológica. Aponta para uma sociedade adoecida por vieses ideológicos que pregam o denuncismo sem provas, a justiça feita por si mesmo, a imposição das crenças religiosas e a perseguição às diferenças. Esse último aspecto é muito importante, haja vista ser um dos primeiros sintomas da perda de liberdade. Com efeito, quando perdemos o direito de, dentro dos marcos civilizatórios estabelecidos, exercer nossa singularidade, quando nossas diferenças e subjetividades são alvo de sarcasmo e intolerância, quando somos desrespeitados por termos posições diferentes da maioria, devemos estar certos do apodrecimento das instituições sociais. Nessa perspectiva, a democracia, signo maior do contrato social, ou está sob risco permanente, ou mesmo já morreu, ainda que esteja aparentemente viva e funcionando. Eis a conjuntura brasileira: sob uma roupagem democrática, violações são praticadas contra direitos fundamentais, ferindo de morte a soberania popular.

Reações de alegria frente à morte de uma criança indicam uma sociedade, que frutifica hoje tudo quanto foi semeado e regado por anos: os conglomerados midiáticos nacionais prepararam esse cenário. Ante mais esse evento grotesco, característico de pós-democracias, é preciso admitir que falhamos. Sim, falhamos por ser uma sociedade não leitora, falhamos por não ter educação minimamente libertadora, falhamos por permitir, muitas vezes em silêncio, discursos e práticas fascistas. Mas, falhamos principalmente quando não transgredimos os tácitos acordos nas entrelinhas de um contrato social, construído, para, na prática, ser cumprido apenas por nós, pobres, pretos, favelados, travestis, transexuais, enfim, minorias.

Não é somente o ódio que nos derrota. É nossa submissão, frente a situações de injustiça, a exemplo da prisão política de Lula. É nossa pouca revolta, quando vemos um cliente negro ser alvo de agressões racistas em um banco. O nome disso? Indiferença...

Armando Januário dos Santos: Sexólogo. Psicanalista em formação. Concluinte da graduação em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E- mail: armandopsicologia@yahoo.com.br 

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