Sociedade e Cultura

Pressões e sectarismo com a bênção papal para evitar o aborto livre na Argentina

As pressões do Vaticano, lideradas pelo Papa Francisco, através de uma campanha baseada em intimidações, ameaças, agressões e extorsões de grupos religiosos, conservadores ou misóginos foram determinantes para o resultado da votação da Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez no Senado argentino

12/08/2018 08:02

 

 
Por Rubén Armendáriz
 
As pressões do Vaticano, lideradas pelo Papa Francisco, através de uma campanha baseada em intimidações, ameaças, agressões e extorsões de grupos religiosos, conservadores ou misóginos foram determinantes para o resultado da votação da Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez no Senado argentino.

O mesmo sumo pontífice que, há dois anos, promoveu o perdão às mulheres que abortaram, desta vez o comparou com o nazismo. O que passou entre estes dois momentos? A aprovação do aborto legal, seguro e gratuito na Câmara dos Deputados, no dia 14 de junho. O Congresso passou da aprovação na câmara baixa à rejeição na alta sem dilações nem modificações. O que aconteceu entre estes dois momentos? É o que se pergunta a jornalista Luciana Peker, do diário Página/12.

E ela mesmo relata as muitas coisas que aconteceram nesse intervalo, começando pela detenção de militantes que pintaram frases a favor do aborto na cidade de Bahía Blanca, passando pelos ataques às casas de ativistas feministas, as ameaças de agressões e violência, via redes sociais, contra filhos das atrizes que participam de um coletivo a favor do aborto legal, as agressões físicas e insultos contra mulheres que usam os lenços verdes da Campanha pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito.

Também houve ligações telefônicas para desejar a morte de representantes políticos e seus familiares, perseguição a filhos e filhas de senadoras e deputadas nos colégios, a chantagem de não apoiar as campanhas eleitorais daqueles que votassem a favor do projeto, as suásticas pintadas nos lugares frequentados por apoiadores do projeto, ameaças a centros de saúde onde se realizam interrupções voluntárias da gravidez.

Outros casos registrados de ataques a apoiadores do projeto foram os casos de docentes que perderam seus empregos por abrirem o debate sobre o tema em colégios religiosos e o amedrontamento em faculdades, meios de comunicação e empresas privadas, para que expulsem aqueles que se expressavam a favor do aborto legal. Toda uma ofensiva anti direitos, anti vida e anti democracia, com o fim impor o fracasso institucional (não social) do direito das mulheres a decidir.

O projeto sequer voltará à Câmara, ao menos até 2019, ano de eleições. “O clamor de milhões de argentinos – em especial mulheres, de todas as idades – que encheram as ruas das cidades do país, foi adiado, e não se sabe ao certo quando haverá próxima chance. A postura do Papa Francisco incidiu decisivamente nos resultados que sepultaram a possibilidade de tirar da clandestinidade o corpo das mulheres e das gestantes”, comentou Peker.

Em novembro de 2016, em pleno Jubileu da Misericórdia, Francisco anunciou uma mudança histórica: concedeu aos sacerdotes a faculdade de absolver as mulheres que abortaram. Dois dias depois da aprovação do aborto legal entre os deputados, ele endureceu drasticamente a sua posição, e comparou o aborto com o nazismo, em um discurso no Vaticano.

Com palavras talvez direcionadas ao seu país de nascimento (embora seja chefe de Estado de outro), o Papa qualificou o aborto como um “homicídio de bebês” e o comparou com o holocausto: “todos se escandalizam pelo que os nazistas faziam em nome da pureza da raça. Hoje fazemos o mesmo, mas com luvas brancas”, disse, atropelando o direito das mulheres.

Para alguns deputados argentinos, que foram impedidos de entrar no recinto do Senado, esta mensagem do Papa foi uma forma de apoio, com a qual começaram a campanha de intimidações dentro do Senado, com a ajuda da transmissão por parte dos canais de televisão hegemônicos. Antes, a Igreja Católica havia pedido aos meios para que diminuísse o tom da defesa do aborto legal, dando menos ou nenhum espaço às jornalistas feministas e mais voz aos padres e representantes anti direitos.

O senador Ernesto Martínez, do Partido Radical, indicou que “estamos diante de um sectarismo insaciável. Não aceitam nada, nem preservativos, nem anticoncepcionais, querem um país feito a partir de suas crenças. Os evangélicos e católicos tentam impor seus dogmas, e sua legião de inconsequentes se encarregou de ameaçar e ofender os senadores desta nação”.

“O Código Penal argentino não são as escrituras de Moisés. Se querem fazer um Código Penal com o dogma religioso, que voltem a reescrever os dez mandamentos (...) Nosso voto é para enfrentar o ódio com que nos atacaram”. A menção se refere ao fato de que grupos religiosos pintaram uma suástica na entrada do clube que o senador Martínez costuma frequentar. Outra que também relatou uma série de agressões e ameaças sofridas foi a senadora Laura Machado, macrista, mas defensora da lei.

“Passei os dias me esquivando dos crucifixos”, contou o senador Pedro Gustavino, quem denunciou que chegaram a ofender a sua neta após ele antecipar o seu voto a favor do aborto legal, seguro e gratuito. Ele comparou a postura da Igreja em nome das duas vidas com a indiferença pela vida durante a ditadura militar. “Quando minha mãe se reunia com setores da Igreja para pedir por seu filho, diziam `algo ela fez´. Agora, os que pedem às mulheres que fechem as pernas são os mesmos que questionam a eficácia do preservativo no Século XXI”.

A senadora Nancy González enfatizou a necessidade da política laica: “sou católica, mas não votaram em mim por ser católica, e sim para legislar para todos”. Mas também foram vários os senadores que quiseram mostrar às mulheres como tem que ser a luta das mulheres, com discursos misóginos e reacionários.

Por sua parte, o senado Miguel Pichetto, chefe da bancada justicialista, também se referiu à Igreja, mas pediu uma autocrítica sobre porque não se avançou com o aborto legal durante o kirchnerismo: “devemos fazer uma autocrítica, pois não encaramos este tema, talvez por das posiciones dominantes, como a da Igreja”. E a ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner – hoje senadora – reconheceu que aprendeu sobre o feminismo com as jovens que foram às ruas, e assumiu que os setores nacionais, democráticos e populares devem incluir o feminismo entre as suas consignas.

A surdez diante da demanda social foi uma decisão política tomada abençoada pelo Vaticano.
 
Rubén Armendáriz é jornalista e cientista político uruguaio, analista do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)
www.estrategia.la



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