Sociedade e Cultura

Quanto rende a barbárie?

 

10/09/2019 14:11

 

 

Onde o preto é bandido
O playboy queima índio e esbanja o prazer”
Sabotage, Mosquito, 2016

Já não há como ficar em cima do muro. O insuportável tem nome e sobrenome. Teve urna também. E a utopia da farda, a redenção da ordem, o reino de Salomão, nada disso salvou o país de coisa alguma, apenas nos deixou mais na cara as suas contradições. O que nos ensina muita coisa sobre essa terra tão bela e extensa, que já tem, como dizia Villa-Lobos em 1951, “a forma geográfica de um coração”. Primeiro, há um esquecimento de sua história, um esquecimento estratégico. Negar ter havido ditadura, por exemplo, é repetir a obrigação profissional do protagonista de 1984: incinerar os documentos e toda a verdade que pudesse desmoronar o poder estabelecido. Essa é uma coisa. A outra, lamentável, é que uma boa parte de nossa gente é racista, ainda que jamais admita: não gosta de negro, nem de pobre, nem de indígena. Pode até tolerá-los, mas à distância. Pode tê-los perto, mas à sua altura. Pode até gostar, se não lhe ofende o mérito. Essas coisas tem relação, claro, com nossa história, não são coisas gratuitas. A história de uma colônia escravocrata de exploração. Isso autoriza a se fazer dinheiro de nossas terras, a custa de suas matas, de suas etnias e de seus animais. Isso autoriza Estado mínimo para a proteção ambiental, para se vender como bananas nossas refinarias de petróleo, arrendar nosso solo, privatizar nossa aposentadoria e a se prestar muitos serviços sem a garantia de um único emprego. Estado mínimo então para o essencial? Estado máximo para a repressão das militâncias? Caveira para matar quem? Prisão antes de mais nada. Por sinal, está bem fácil prender: se acusa, se prende e se condena, depois se buscam as provas, até que se esquece daquele que foi privado de sua liberdade, lá dentro da penitenciária. É a lógica invertida das proposições básicas de um Estado de direito. Teria o povo cansado de leis e proteções e agora espere mando e vingança para um ódio que sequer sabe de onde vem? Mas quanta gente desse mesmo povo não bajula uma elite que esfola a juros o pequeno empresário e o pequeno empresário quanto já não repetiu ter o governo feito muito pelo trabalhador, nada por ele. Agora que trabalhem aos domingos! Mas em uma crise econômica que só se aprofunda, quem é o empresário, quem é o trabalhador, quem é que ainda tem dinheiro no caixa, quem já não deve o coro para o banco? Muito pobre esqueceu ter sido pobre quando votou em Aécio. Não o bastante, uma massa de verde amarelo foi para a rua, massa de uma classe confusa, que se fundiu ainda mais na última década, a classe média. É uma classe que se impressiona com as posses alheias, vive na disputa de suas vagas e de seus privilégios, teme muitas vezes perder para o outro, para o que tem menos ou muito pouco, mas paga pau para o rico, o rico que a explora e que a coloca dentro de seus sistemas privados de seguros e serviços, sem necessariamente garantir futuro aos seus filhos, a maior parte dos quais ocupa a universidade pública. Com o aparecimento nacional do medíocre deputado, surgiram patriotas em cada buraco de rato, restauradores morais de boteco, conservadores de nobres estirpes e obscuros valores tradicionais, nostálgicos da tortura, monomaníacos anticomunistas, cidadãos de bem ordeiros e psicopatas em nome de Deus. Dá medo porque os caras justamente tomaram o poder. E o fato de sentirmos medo também reverte no seu gozo, o gozo fascista. Assim como assusta o tipo de seu escárnio: de tudo se ri porque com nada se compromete. Assusta porque os caras não se colocam os limites: nem os da civilidade, nem os da natureza. E o Estado já não os pára. A verdade é que pouco se importam se pega fogo na Amazônia. Se asfaltassem tudo, construíssem shoppings do Mato-Grosso ao Pará, nada lamentariam, desde que os indígenas pudessem servi-los com roupas limpas e sapatos. A porteira da barbárie que se abriu estava lá desde sempre, apenas encostada: bastava ouvi-lo. Contra o tal “politicamente correto” testemunhamos o espetáculo do mais eticamente reprovável. O político da anti-política, militar sem disciplina, sempre foi coerente com sua estupidez a serviço de uma violência de classe. O fato de termos de escutar o repertório de suas aberrações, já nos colocou, sem dúvida, fora das fronteiras da democracia, porque apologia a torturador bastaria para retirá-lo do espaço público e do cargo público, obrigá-lo a se retratar e a devolver todo seu ordenado aos cofres da União. Isso, claro, em um Estado democrático de direito. Um desses bons memes das redes pôs, esses dias, a questão: e vocês achavam que quando falava em proteger a família se referia a sua família? É para a família deles próprios que governam, para a família dos pastores ricos, dos banqueiros ricos, dos brancos, ruralistas, grandes proprietários, governam para os ianques, para suas empresas e ações financeiras, não governam para nós, nós que precisamos de educação, de trabalho e posto de saúde, de garis e professores bem pagos. Governam para os outros, para aqueles que nem vemos: passam de carros blindados e vidros escuros, moram em condomínios fechados. Houve, claro, uma narrativa da imprensa que é cúmplice dessa catástrofe. À beira de um segundo turno tenso, William Bonner entrevistou o democrata Haddad de modo sumariamente fascista, mas antes já havia entrevistado o fascista de modo simpaticamente democrático. E aí percebemos que o fascismo não está apenas nos meios totalitários que se criam para justicar determinados fins: assim, por exemplo, a invenção do terror comunista justicaria o terrorismo de Estado em uma ditadura. O fascismo está também no método, publicitário ou informativo, e a sua edição é a alma do negócio. No caso de uma entrevista: a tática do corte, a neutralização do outro, o constrangimento de seus processos equívocos, a sova de informações adulteradas. Isso foi o que a imprensa fez, continua fazendo, para orientar nossos juízos, rir, xingar, comemorar. Agora não sabe em que pia lavar as mãos que estrangulam e estrangularam. The Intercept pode ajudá-la, em algumas de suas frentes, a desfazer o herói que produziram naquele combate à corrupção de fachada por meios corruptos, que predominantemente a Lava-Jato representou. O conteúdo de seu vazamento ganha uma urgência democrática e põe em absoluta suspeita o próprio judiciário. Mas queremos mesmo democracia, sabemos o que significa democracia, estamos preparados para exercitá-la e mantê-la no ambiente hostil de nossas desigualdades profundas e capitalismo coronelista? O que significa votar e manter o mandato de um governo, mas sobretudo o que significa dar lugar e poder aos invisíveis de uma sociedade, àqueles que são colocados sistematicamente à margem da boa refeição e dos bens culturais e correm sempre o risco de serem física e socialmente eliminados? Quem faz as regras nesta sociedade está disposto a respeitá-las? Ou na política tudo é possível e aceitamos o autorismo de quem fala mais alto, se refugia na rede social, culpabiliza seus fantasmas ideológicos pelo fracasso, vive a performance de um deboche sem fim, ao qual nenhuma crítica cola, porque nada cola, tudo é impermeável, vira cinza e terreno para uma barbárie rentável. O rosto de quem mais lucra com tudo isso podemos não ver, mas as vítimas se acumulam na paisagem incinerada de nossa necropolítica. Como rimou Sabotage: país da fome, no fundo de uma cela pensa um homem.

Jason de Lima e Silva é Professor de Filosofia do Centro de Ciências da Educação/UFSC

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