Sociedade e Cultura

Repetir, recordar, elaborar e... reparar

 

12/07/2020 13:39

 

 
:: Leia mais: Especial 'Nem Freud Explica...' (CLIQUE AQUI)

Sob este título Repetir, recordar, elaborar e... reparar, onde coloco repetir antes de elaborar, diferentemente do título do ensaio de 1914 onde Freud trabalha pela primeira vez a ideia de uma compulsão à repetição e de uma pulsão destrutiva que ele chamará de pulsão de morte em 1920, gostaria de destacar a repetição em nossa história brasileira de longos momentos de vergonha, às vezes séculos, que teimamos ainda em não rememorar, em não elaborar, chegando com isso ao estado de cinismo e despudor atual. Falta, em primeiro lugar, reconhecer e admitir alguns grandes obstáculos civilizatórios que não conseguimos atravessar, barrar ou resolver a contento, e que nos remetem irremediavelmente ao retrocesso fascista de hoje; para, em seguida, elaborar, fazendo um luto coletivo ou nacional desses agravos para não seguir repetindo e aprofundando o mesmo - a desigualdade, a injustiça social, uma democracia sempre à beira do golpe – um mesmo que é mortífero e mortal, e que chega agora a uma escala genocida. Talvez porque não realizamos até agora este processo nem estamos em vias de transmiti-lo às gerações seguintes, haja vista a “educação” que ora se propõe.

 Reparar é o novo que acrescento ao título do ensaio freudiano, para torná-la a última parte de um processo de luto coletivo, e que tento articular neste artigo ao ver o esforço incessante a cerca de duas a três décadas de movimentos sociais e coletivos que tomam para si o papel reparador que deveria ser do Estado, caminhando na justiça de transição entre a ditadura e a democracia. Certamente tivemos um Estado consciente das mazelas e reparador do que foi possível durante os governos do PT quando, por exemplo, foi instituída a política de cotas nas universidades e a Comissão da Verdade para rastrear, ouvir e indenizar simbólica e financeiramente as famílias das vítimas da ditadura militar, além de vários outros atos que nomearei mais adiante como etapas de um luto coletivo construtivo ou criador feito por um Estado democrático de direito, aliado à sociedade civil, que pode assumir, em sua quarta etapa, a reparação de algumas de nossas piores mazelas como a fome, a desigualdade social tocada a racismo de cor, de classe, e de gênero, proveniente de quatro séculos de escravização com sua abolição sem política de Estado, do massacre e do saque de terras dos indígenas desde sempre, o que nos permitiu ter alguma dignidade interna e inédita maioridade internacional.

Se eu fosse fiel a Freud, não poderia chamar isso de luto, pois no seu belo “Luto e melancolia” (1915) o eu se empobrece e se desliga temporariamente do mundo. Mas falo aqui sobre o luto coletivo a ser retomado ou refeito, já que chegamos a esse pior, de uma nação aviltada e espoliada há séculos por suas elites dominantes, e pelos donos dessas elites. Ou seja, o povo não tem mais o que perder, e o luto vira luta, vira transformação, um fazer justiça criador e vivo, e não um monumento aos mortos.

Esta tarefa a que me proponho é dolorosa e exige tempo e pensar. Pensar a tragédia brasileira social e política, e não um “pesadelo” do qual vamos logo despertar e voltar ao normal alienado e cúmplice de sempre. Talvez eu apenas introduza agora este processo. Para isso, recorro novamente aos nossos mestres gregos, mestres em nos mostrar nossa dimensão humana trágica e comum, destacando pontos cruciais.

A relação com a práxis sempre plural e transformadora, na qual o poeta trágico Sófocles se baseava para construir suas tragédias no século V a.C, era a de fazer emergir, a partir de uma técnica apurada, o conflito e o pensamento na incipiente democracia ateniense, até então mergulhada nas trevas do humano submetido à vontade dos deuses. Para isso ele trabalhava sempre na tensão entre pathos (sofrimento) e logos (saber), e tendo o real do desamparo e do acaso como referência para o existir humano. Ou seja, ele tinha os dois pés na verdade. Por isso Heidegger dizia que a tragédia grega era o maior acontecimento da verdade, onde o Ser se desvelava no Dasein, este ente especial que é o homem.

Em Sófocles, o humano se movia pela primeira vez no desejo de diferenciação em relação ao divino, inclusive para contestar a opressão da vontade dos deuses e do Destino sobre o homem, e do homem sobre o outro homem. Este teatro continua sendo o maior clarão da arte desveladora do que é o homem, e agente transformador da realidade através de mimese criadora de Sófocles, artista crítico e questionador nos primórdios da fundação do Ocidente. Nunca houve clarão como esse! Ao lermos ou assistirmos às encenações de suas tragédias durante mais de 20 séculos, seu fulgor não cessa de nos enviar intensidades que recarregam nossos signos psíquicos de memória relativos à nossa humanidade desde sempre, às nossas grandes questões insolúveis, das quais o teatro trágico de Sófocles foi o primeiro palco e porta-voz. Volto assim a alguns aspectos que esbocei no artigo publicado em 5 de abril em Carta Maior (“Consumir é preciso, viver não é preciso”) para ir adiante na nossa tragédia planetária e especialmente brasileira.

A tragédia de Sófocles era, para Hölderlin, um fidelíssimo tradutor das intensidades gregas do grego antigo para o alemão, no início do século XIX, um teatro de luto coletivo para o povo na praça de Atenas, pois assim ele chamava a tragédia: “o espetáculo do luto”. Luto sobre as reais condições da existência humana na sua falta de garantias, do terror diante do acaso, da sua fragilidade diante da morte e do Destino, forças que separavam e diferenciavam o humano do divino, e que atravessam o herói, desvelando sua humanidade, sua impotência, e que o levam finalmente à perdição. Era também um teatro do início da resistência contra o aniquilamento do homem pela vontade onipotente dos deuses, além de um teatro de formação da consciência dos cidadãos de todas as idades para a construção de vínculos coletivos diante da miséria humana e de eventuais tiranos.

Essa função de atravessar o luto das perdas de todo tipo com o sujeito em análise, ou de pensar as rupturas civilizatórias de determinado tempo visando atingir o patamar de uma disposição à cultura, à arte, à alteridade é também função do psicanalista que tem como referência, na sua clínica e na sua escrita, a visão trágica da condição humana, pilar da criação da psicanálise por Freud. Só assim ele poderá ser um elo na transmissão simbólica da dívida que nos inscreve na lei da castração. Ou, se preferirmos dizer mais simplesmente, que nos inscreve no processo civilizatório, com seus interditos, barrando nossa onipotência de pretensos deuses disfarçada por artefatos tecnológicos de alta precisão e em tempo real que não nos livraram da mortandade planetária pelo coronavírus. No máximo, diminuíram temporariamente seus efeitos nos países onde os governantes reconhecem por suas palavras e atos sua castração simbólica, não se colocando acima de tudo e de todos, como no Brasil de Bolsonaro, que não quer saber da peste.

Aristóteles em sua Poética diz que a tragédia é mimesis-praxeôs, ou seja, uma imitação criativa da práxis (um dos nomes do real?) na encenação que o poeta trágico promovia a cerca do terror humano diante do acaso, da fragilidade e impotência humanas diante das forças avassaladoras do destino, ou do real. Numa leitura não metafísica (platônica), isto é, não excludente dos afetos que nos fazem humanos, certos autores contemporâneos, na esteira de Aristóteles, entendem a catarse como efeito trágico através do qual há uma purificação dos principais afetos envolvidos na tragédia da vida humana, no sentido de tornar purificados, ou bem visíveis para todos naquela democracia incipiente, os afetos que podem promover a interação e a coesão entre os cidadãos assim como a necessidade do sentir, do pensar e do agir coletivos. Eles eram: o terror que isso também pudesse lhe acontecer diante do acaso e da vontade onipotente dos deuses e a piedade pelo herói em sua perdição, mãe da solidariedade. Aliados ao nascimento de uma posição crítica em relação ao divino e à dominação do homem por outro ou da mulher pelo homem.

Ou seja, essa leitura contemporânea da Poética, relativa à catarse como purificação - para o cidadão ver e aprender (theorein) coletivamente - nos serve de muito atualmente, pois não se refere à purgação de sentimentos ou intensidades desprazerosas das quais teríamos que nos livrar pelo bem da Razão (interpretação da catarse que permaneceu na leitura médica e psicanalítica, e na boca do povo), ou da banalização ou negação destas mortes em massa que estamos vivendo sem direito a “espetáculo do luto”. Que não é choro nem velas, mas rigor implacável no combate ao genocídio.

As estratégias fascistas nos tiram qualquer possibilidade de sentir e pensar, e, portanto, de elaborar este trauma coletivamente, ao questionarmos nossa memória sobre o acúmulo de mazelas não elaboradas que nos levaram a esse quadro tenebroso, sempre buscando soluções. Estamos alugados diariamente às politicagens, aos desmandos, às baixarias, aos crimes contra o povo e as contradições em massa, assombrados pelo perigo de um novo golpe! E a mídia (golpista) tradicional que brinca de servir a dois senhores (ao povo e aos canalhas no poder), mostrando imagens infernais de semi-sepultos, não só porque não há inscrição de seus nomes, só cruzes, e solidão, sem luto familiar, mas porque não há luto coletivo que seria explicitado no desejo de governar do presidente e assim controlar a pandemia, dando morte política aos cidadãos.

Imagens que chocam nos jornais, mas não fazem pensar pela insuportável repetição, pela massificação e banalização do que deveria ser vivido como uma obscenidade, mas que é relativizado pelo entremeio com fatos sem gravidade, enlameados com a atual conjuntura política. Nela, o presidente da república finge estar positivo para o coronavirus para fazer propaganda da cloroquina e lembrar que ele é “atleta”, e que é mais forte do que o vírus, do que a morte, e que devemos dar nossas vidas (como ele finge dat) pelo país. Isto é completamente fascista! (ver “Consumir é preciso, Carta Maior, 5 de abril). Além de não conseguir nomear um ministro de Saúde que não nos deixe à deriva como numa nau dos loucos, nem da Educação, que não seja um pastor sádico, mas que deveria sim tratar de educar nossos filhos e netos, de todos os brasileiros, com a verdade e a memória de nossa história triste para que ISTO NÃO POSSA JAMAIS SE REPETIR!

Continuando os possíveis motivos de um luto coletivo que não há: a falta de postura de estadista por parte do Tirano do Planalto que em nenhum momento conseguiu emitir sequer uma palavra de solidariedade às famílias, pois isso seria conceder realidade à pandemia que ele tanto nega de forma insólita. Ou talvez porque, como eu disse anteriormente baseada na encenação de uma tragédia, um luto coletivo promove coesão, ensina democracia pelos afetos comuns de terror e compaixão, desamparo e dor, pela arte e pelo pensamento que desperta, construindo o poder coletivo de resistência do povo para repelir seus Tiranos. No meio desta balbúrdia da pequena política na grande crise política do Brasil não temos serenidade nem tempo para fazermos isso, nem pensar!

Justamente isso, o imperativo de gozo de destruição do presidente é que não pensemos! Que não sintamos a dor do outro! Que morram uns 150000! Que não nos unamos! Infelizmente essa tática faz um aproveitamento político da pandemia que nos encerra, nos confina, restando-nos as lives que muitas vezes são apenas manifestações de auto-visibilidade e não de pensamento em comum mesmo que online, permitindo trocas, participação, mobilização para solucionar este horror.

Como temos visto, essa tragédia mundial da pandemia do coronavirus atinge diferencialmente estruturas sociais, que se tornaram cada vez mais desiguais com a perversão do capitalismo para a financeirização, principalmente em países como o Brasil. Foi desvelado de forma traumática e planetária aquilo que já sabíamos, mas que fingíamos não saber acometidos por uma covardia cômoda, passando por cima para variar : os mais pobres morrem mais, já que a morte não é apenas um fato biológico que nos acomete, mas é uma perda sempre, e um trauma nestas circunstâncias, um nó que une efeitos simbólicos, imaginários, culturais, juntando desigualdades profundas e imperdoáveis..

Mas onde quero chegar finalmente nesta afirmação de que não existe um luto coletivo e sugerindo que ele é obstaculizado pelas forças fascistas no poder, pináculo de todas as nossas tragédias?

Gostaria de propor que não temos lutos coletivos pela pandemia porque nos acostumamos a não elaborar nosso passado, nossas opressões e submissões, para fazermos nossos lutos históricos. Apenas isso poderia ser de alguma valia para barrar a barbárie que retorna sempre que deixamos emergir as forças propícias a ela, entre as quais a negação dos fatos, o racismo, e a não elaboração de traumas coletivos anteriores. Mais do que qualquer “crise” econômica.

Gostaria de poder mostrar a importância de se elaborar todos esses traumas que, não sendo nomeados, reconhecidos e elaborados, reparados, continuarão a transbordar na repetição do mesmo, nesta sociedade sob a hegemonia de Tanatos, da pulsão de morte e de sua crueldade indissociável. Este governo é o melhor exemplo disso. Entretanto, esse jogo de forças não se refere ou se contextualiza apenas no Brasil. Para a psicanálise, a pulsão de poder e a crueldade indissociável a ela são o próprio do homem desde tempos imemoriais. Mas é do humano também à disposição à cultura, alimentada por Eros, na sua luta contra a hegemonia de Tanatos.

Temos muito bons exemplos mundo afora de como tentar fazer esses lutos coletivos. Isso é possível, mesmo com toda a dificuldade, foi o que eu pretendi dizer. Exemplos de países ou governos que assumiram suas atrocidades e disseram: ISTO NÃO PODE SE REPETIR. Caso paradigmático é o da Alemanha que fez seu luto e elaborou durante gerações seus traumas pelo Holocausto infligido não apenas ao povo judeu na Segunda Guerra. E respondem hoje com políticas de reparação, tal como eu interpreto a abertura para o acolhimento de refugiados das guerras na África e no Oriente Médio.

Nós também vínhamos no caminho dessa reparação, na minha interpretação do que seria a parte final de um luto coletivo ou nacional, como proposto no início do artigo. E este luto se confunde, no bom sentido, com os mecanismos instituintes de reparação das agressões e aniquilamento do povo e das instituições democráticas durante os anos totalitários das duas ditaduras e de uma democracia desde sempre dirigida à elite dominante.

Disso é exemplo maior a Constituinte, que uniu várias parcelas da sociedade civil à classe política, com o protagonismo de Ulisses Guimarães, culminando com a Constituição Cidadã de 1988, na qual muitas injustiças foram reparadas e novas perspectivas de renovação social foram introduzidas, além de criar perspectivas jurídicas de libertação da nossa subserviência às potências econômicas do Primeiro Mundo.

Com os governos do PT, tivemos uma lista gigantesca de novas ações sociais includentes e de desenvolvimento econômico democrático, inspiradas naquilo que a Constituição de 1988 nos legou, dando ao povo aquilo que ele tem direito. Todos os programas sociais, como a política de cotas raciais para estudantes universitários, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, estruturação do SUS, criação de universidades federais, de escolas técnicas, programas de financiamento à universidades particulares (PROUNI e FIES), a emergência de uma nova classe média que estava abaixo da linha de pobreza, políticas ambientais que lograram o respeito do mundo, a transposição do rio São Francisco, combate à corrupção pelo fortalecimento do Ministério Público e da Polícia Federal, a Comissão da Verdade, o novo desempenho mundial na política externa protagonizando a criação dos BRICS, e assim combatendo a hegemonia da ALCA na América Latina, fortalecendo o MERCOSU, lançando a ideia do acordo nuclear com o Irã, ou seja, aumentando a importância geopolítica brasileira num mundo que deveria ser multilateral...UFA!

Hoje, não temos mais um Estado reparador, que protagonize a justiça de transição para sair de vez terror dos anos de chumbo e da injustiça estrutural presente na formação da sociedade brasileira. Bem ao contrário... Estávamos realizando este luto criador para fazer nascer um novo país, luto no qual se incluíam as reparações das injustiças acumuladas por séculos feitas a grandes parcelas de nossa população. Este luto criador foi interrompido, desde o golpe de 2016, e atingimos agora o patamar da barbárie com este governo fascista que dá a morte em massa ao povo brasileiro.

Glaucia Dunley é pscicanalista e escritora, médica, mestre em Teoria Psicanalítica, doutoramento e pós-doutoramento em Comunicação e Cultura (UFRJ)



Conteúdo Relacionado