Sociedade e Cultura

São eles (os fascistas que sempre estiveram aqui, mas nós não víamos)

Sociólogos e cientistas políticos queimam os miolos para tentar entender de onde saiu toda essa gente que diz que votará na extrema direita, como se fosse uma coisa nova. Não é.

31/03/2019 10:02

Sede do partido VOX após resultado das eleições em Andaluzia (JC Toro)

Créditos da foto: Sede do partido VOX após resultado das eleições em Andaluzia (JC Toro)

 

Não são racistas, mas se deparam com um negro andado pela rua de noite, mudam de calçada. Não são homofóbicos, mas se irritam ao ver dois homens ou duas mulheres se beijando em público, porque eles “tampouco têm que ficar se exibindo, é uma falta de respeito aos outros”. Não são xenófobos, mas não conseguem colocar na cabeça porque há tanta gente mulata, cigana e sudaca colapsando os postos de saúde, e que ainda por cima, na hora do atendimento, passem na frente deles, os espanhóis, que contribuem a vida inteira. Não são machistas, mas acreditam que se as mulheres não trabalhassem todo santo dia fora de casa e estivessem mais atentas aos seus maridos e filhos, não haveria tantos divórcios ou fracassos escolares, ou tantos casos de gravidez terminando em aborto – embora, se a grávida é uma filha ou neta, enquanto ninguém saiba, melhor guardar as coisas em segredo. Não negam que as mulheres são maltratadas, mas muitas vezes essas são “coisas de casal”, pelas quais querem arruinar a vida dos honrados pais de família que somente perderam o controle em um dia ruim. Não são nem vermelhos nem azuis, nem machistas nem feministas, nem de esquerda nem de direita. Preferem se definir como apolíticos. Gente a favor da lei e da ordem, que se emociona quando escuta o hino e sente o sangue ferver quando encara os que querem desunir a Espanha.

Sociólogos e cientistas políticos queimam os miolos para tentar entender de onde saiu toda essa gente que diz que votará na extrema direita, como se fosse uma coisa nova. Não é. Basta revisarem seus grupos de whatsapp ou nas paellas de domingo com a família. São eles. Estavam aqui o tempo todo. O que mudou é que alguém disse a eles o que queriam ouvir, e compraram o discurso todo pela metade do preço, ou a metade do discurso pelo preço completo, para dar uma lição aos partidos de sempre, que só querem continuar roubando. Conheço um monte de gente assim. Por isso os identifico. Sem rigor sociológico nem político. Aceito que estou ampliando demais os critérios, mas aposto que, de uma forma ou de outra, me equivoco pouco.

*Publicado originalmente em elpais.com | Tradução de Victor Farinelli

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