Sociedade e Cultura

Sua tia não está sendo manipulada, ela é fascista mesmo

 

13/07/2020 12:32

 

 
Trago más notícias.

Lembra do finalzinho de 2018, quando você recebeu aquele videozinho “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”? Se você não assistiu dá um pulo lá e assiste se quiser entender melhor o que vou dizer aqui[1]. Se você já assistiu, puxa, aquilo foi um alento, não foi? Claro, naquele momento já tínhamos nos dado conta de que não há espaço vazio, e que todo o tempo que optamos por não desperdiçar debatendo algumas opiniões “esdrúxulas” de nosso familiares contribuiu para uma disseminação generalizada de coisas sem pé nem cabeça que ganharam o status de verdades inquestionáveis na boca de nossos parentes mais queridos.

Vai dizer que não apareceu um monte de parentes que você considerava pessoas tão pacatas, mas que de uma hora para outra tinham se tornado raivosos cientistas sociais, economistas, historiadores... Claro, a maioria deles adquiriu essas formações fazendo palavras cruzadas e assistindo televisão, mas isso não fazia mais diferença, porque já não importava mais de onde vinham as certezas, a única coisa que interessava é que as certezas estavam lá e ponto final.

Mas ainda bem que quando recebemos aquele vídeo nós ainda não sabíamos que já era tarde para nosso país, aquilo foi providencial para nos dar alguma esperança de que o nosso futuro poderia ser diferente. Ah, como nós éramos felizes e não sabíamos, não é mesmo? A ingenuidade é uma benção, não é? E graças a ela saímos por aí tentando virar votos até de postes, afinal estávamos convictos de que as pessoas só estavam sendo vítimas de uma manipulação. Por isso nenhuma dificuldade naquele processo foi capaz de nos abalar, afinal nada era maior do que a nossa obstinação por resolver a danada encalacrada que a nossa querida tia Judite tinha nos metido ao se colocar convicta e raivosamente como carne de canhão entre nós e os fascistas, em uma incursão suicida. Como ela não percebeu que desde 2016 o Brasil estava sendo alvo de uma guerra que finalmente entregaria o país de mão beijada aos milicianos? Ai tia Judite...

Bom, mas graças àquele vídeo nossa raiva pôde se transformar em compaixão e piedade, afinal de contas com os esclarecimentos do vídeo pudemos compreender que a tia Judite era só uma vítima passiva do fascismo, ela não era a vilã. É óbvio, como podíamos reservar para nossa querida titia a mesma raiva que alimentávamos contra os fascistas? Só se fôssemos pessoas muito cruéis e insensíveis. Nós realmente passamos a acreditar que podíamos ajudar a libertar nossa tia, desde que, evidentemente, cumpríssemos um requisito: delicadeza e empatia. Precisávamos dialogar com todo o cuidado para não fazer ela se sentir insultada ou passar a nos achar demasiadamente arrogantes e donos da verdade. Por isso precisávamos tentar trazê-la para a racionalidade gradualmente, deixando a oportunidade para que ela pudesse perceber sozinha que não havia argumentos para sustentar suas certezas. Ah, e tinha mais, também era preciso que estivéssemos atentos ao quanto ela resistiria às nossas posições, porque, caso ela desse qualquer sinal de incômodo, é porque ainda não estava pronta para mudar e ser libertada do fascismo. Em caso de qualquer resistência, era para nos afastarmos, senão a tia Judite podia ficar ainda mais radicalizada em sua posição.

A moral da história é que precisávamos ser guiados pela delicadeza e empatia, reconhecendo que discursos manipulativos tinham sido incutidos nela e que, por conta disso, o seu modo de ser tinha sido radicalmente transformado, tornando-a impermeável ao debate, à discussão e à reflexão crítica. Enfim, essas dicas nos faziam acreditar que nossa querida tia havia sido submetida a um tipo de possessão fascista digital que a tornou uma pessoa ignorante e incapaz de refletir. Agora ela era um corpo ocupado pelo espectro do fascismo, e que, se quiséssemos ter de volta nossa querida tia, precisaríamos dominar a astúcia dos exorcistas para retirar dela o fascismo e finalmente devolver ao corpo sua verdadeira alma.

            Tá tudo bem. Agora voltamos para 2020. Como está a situação por aí? A tia Judite foi “curada”? Pois é, não precisa dizer, eu sei. Vixi! O quê? Além de continuar fazendo o que já fazia, ela também passou agora a ir em carreatas com gente dançando com um caixão na cabeça debochando da pandemia? Lamento... É grave. Mas é claro que se você teve algum sucesso, dou-lhe os parabéns. Saiba que você foi contemplado com a sorte grande.

Mas aqui eu não quero falar das exceções. Vou me ater à regra, discutindo a condição de todos aqueles que não tiveram a sorte com sua tia, seu tio, madrinha, padrinho, irmãos, sobrinhos, cunhados, sogros, pais, filhos, enfim, com todos aqueles seres humanos que já vimos de meia. Entendam esse texto como um grande manifesto a todo o grande exército de fracassados na guerra contra o fascismo umbilical - esse fascismo que nasceu no berço do nosso lar e que muitas pessoas ainda estão perdidas sem saber o que fazer. A verdade é que precisamos de novos recursos para interpretar e agir em relação à tia Judite de cada um de nós. Mas vou enfatizar mais uma vez: você não vai gostar do que verá aqui. E é por isso que eu disse que trago más notícias. Se você está precisando de um “up existencial”, pula fora agora, enquanto você ainda não perdeu muito tempo e ainda não te deixei mais pra baixo. Vá assistir a uma série.

O quê? Você ainda está aqui? Tá bem, você é quem sabe. Vamos lá então. Mas depois não vai dizer que eu não avisei.

Mão na massa.

O primeiro ponto da longa caminhada que teremos neste texto (sim, ele é bem longo, e quando digo longo, é longo mesmo) é repensarmos porque fazemos tanta questão de tomar a tia Judite como uma vítima. Olha, sem dúvida é muito mais nobre acreditarmos que amamos a vítima e não o carrasco, não é? Agora, nós precisamos nos decidir se queremos compreender o fascismo espalhado por nossa sociedade ou se queremos só nos reconciliar com algum familiar. São coisas bem diferentes. Considerar a tia Judite uma vítima até pode nos auxiliar a continuarmos frequentando a casa dela e não nos envergonharmos por salivar com o cheiro daquele bolo de fubá com chá que tem o sabor da nossa infância. Mas infelizmente esse recurso não vai nos ajudar a compreender o fenômeno da fascistização da tia Judite. Entendeu? Não culpo você por suas escolhas, apenas não insista em alcançar um objetivo a partir do caminho errado, senão você corre o sério risco de não conseguir nem uma coisa nem outra e acabar caindo barranco abaixo.

Então vamos ver essa situação mais de perto. Se prestarmos atenção em nós mesmos, veremos que a premissa que nos permite tomar a tia Judite como uma vítima é a de que ela é ignorante, não é mesmo? Tá, tudo bem, você acha que ignorante é muito forte? Sem problemas. Retiro o que eu disse. Vou reformular: a premissa que nos permite tomar a tia Judite como vítima é a de que ela é uma “senhora do seu tempo” ou que ela não teve “oportunidade de estudar” ou, se nenhuma dessas se encaixar, então a melhor de todas: simplesmente porque ela é uma senhora “muito conservadora”. Está bem assim? Ótimo.

O que há em comum entre a sua tia Judite e a minha? Vou arriscar: elas acreditam em coisas esdrúxulas e não há santo no céu ou na Terra que as faça reconsiderar essa certeza visceral. É isso? Acertei? Bom, por todo o respeito que eu tenho à sua tia Judite, vou me permitir ir ao dicionário e ver o que ele nos diz sobre a “ignorância”. Olha só o que achei no Michaelis:

1. Qualidade ou condição de quem é ignorante.

2. Estado daquele a quem falta conhecimento, saber ou instrução.

3. Ausência de conhecimento em relação a um domínio específico.

4. Condição de quem é ingênuo ou crédulo; simplicidade, singeleza.

5. Falta de delicadeza ou gentileza; estupidez, grosseria, incivilidade.

Viu como cabe bastante coisa dentro dessa palavrinha “ignorância”? Tem ignorância para todas as Judites, desde as mais delicadas e recatadas até as mais agressivas e histéricas, desde aquelas que vão nas manifestações fascistas verde-amareladas até aquelas que apenas fazem concordâncias silenciosas com os olhos vidrados nas últimas denúncias da televisão. Isso às vezes passa despercebido, mas você já se deu conta de que muitas vezes quando começamos falando do fascismo terminamos na ignorância ou quando começamos falando da ignorância terminamos no fascismo? Tenho certeza de que se você já pensou sobre o fascismo, você já teve essa experiência. Ela nos diz muito sobre nossos acertos, mas também sobre nossos erros no combate ao fascismo. Mas se você nunca pensou sobre o fascismo e nem sabe o que é isso direito, talvez você vai poder tirar daqui alguns elementos para a próxima vez que quiser descrever uma pessoa que não dá a mínima para o sofrimento individual que um sistema cobra para se manter funcionando.

Puxa, já cansei, e você? Bom, se decida. Se quiser desistir, o momento é agora. Ainda tem muita letra pela frente. Até já posso lhe adiantar onde quero chegar, pois o recado mais importante deste texto se resume a isto: há um gravíssimo perigo em associar o fascismo à ignorância. Mas como se dá essa sinistra relação entre ignorância e fascismo?

Quer saber?

Você se deu conta ali nas definições de ignorância que todas elas convergem para a “falta” de alguma coisa, principalmente para a falta de conhecimento? E você viu que várias vezes que se discute ignorância se termina no fascismo e vice-versa? Está aí a armadilha conceitual! Porque sabendo ou não sabendo, nós acabamos aceitando a premissa de que a ignorância está relacionada ao fascismo da seguinte maneira: assim como à ignorância “falta” alguma coisa, aos fascistas também lhes falta algo, então quando eles se juntam - fascistas e ignorância -, acabam se complementando. Como no vídeo, nós somos tentados a achar que o fascismo “preenche” essa falta deixada pela ignorância, como se ele, o fascismo, fosse um parasita que se aproveitasse dessa falta, dessa baixa imunidade, para ocupar a mente de pessoas como nossa querida tia Judite, enfiando nessas pessoas de bem o modo de ser fascista. Não é mais ou menos assim que a gente acha que é? Mas se isso fosse verdade, nós precisaríamos aceitar a consequência lógica dessa premissa: assumir que a ignorância (a falta de alguma coisa, no caso falta de conhecimento) abre as portas para o fascismo, é reconhecer uma relação de causa-efeito entre ignorância e fascismo, em que a primeira causa o segundo.

Quer que eu desenhe? A lógica que associa a ignorância ao fascismo é mais ou menos assim: já que a tia Judite é ignorante, ou seja, falta-lhe conhecimento, logo ela se torna um alvo para o fascismo. Desse modo, se a tia Judite, no momento “A”, agiu do modo fascista “X” é porque, como ela não tinha conhecimento, terminou sendo contaminada pelo fascismo. É isso? Mas vamos testar essa lógica dando um pulinho no século XX? Sim, você já sacou que vou falar de Hitler e do nazismo, não é? Eu sei que você já tá farto de Hitler, nazismo etc etc, mas não dá, eu preciso falar disso. Ah, eu vou usar fascismo como sinônimo de nazismo, tá? Não tô a fim de problematizar. Se você já souber a diferença, bom pra você, não fica querendo dar uma de intelectual chato pra cima de mim, ok?

Bom, se concordamos com a lógica ali de cima de que o fascismo é um parasita da ignorância, e que a ignorância é a falta de alguma coisa, então nós precisaríamos concordar que, caso os alemães não tivessem sido manipulados por Goebbels - o ministro da Propaganda nazista e inteligência por trás de histórias como aquelas de que o judeus cozinhavam utilizando sangue de crianças cristãs (só para ficarmos naquelas menos exóticas) -, então o nazismo não teria acontecido se as pessoas tivessem sido melhor informadas de que isso tudo era falso. Mas você acha que teria funcionado? Você acha que a causa do nazismo foi só ignorância? Só um parêntesis: você também tem a sensação de que as aulas sobre nazismo na escola teriam feito muito mais sentido se tivessem sido dadas depois das eleições de 2018? E só um segundo parêntesis: você já se deu conta de como nossa histórica recente contribuiu duplamente para que o nazismo recebesse reconhecimentos? Bom, uma primeira contribuição é direta, e não precisamos nem dizer como é, né? É o reconhecimento que os próprios fascistas brasileiros dão ao nazismo. Mas o mais terrível é que há também um segundo reconhecimento, esse indireto, de todos aqueles que, como nós, sentem vergonha de fazerem parte da nação onde foi possível renascer um fascismo verde-amarelado. Esse reconhecimento indireto se dá porque somos obrigados a reconhecer a superioridade em todos os âmbitos do terror nazista, até mesmo da sua superioridade em produzir mentiras e escolher seus ministros. Fecha parêntesis. Voltando. Onde paramos mesmo? Ah, lembrei, estávamos dizendo que a ignorância é entendida como uma falta por onde o fascismo entra e faz seu estrago e que, a partir disso, deveríamos questionar se a ignorância da tia Judite poderia ser considerada como causa do fascismo dela. É disso que estávamos falando? Certo. Mas por que, apesar de ajudar a nos reaproximar da tia Judite e do seu bolo de fubá, essa lógica nos afasta da compreensão da fascistização? Se você já chegou até aqui, se segura mais um pouco, porque agora vem pedreira.

Lá vai.

Se concordarmos que a ignorância é o recipiente vazio preenchido pelo fascismo, então precisaríamos concordar também que, de alguma forma, o esclarecimento seria capaz de transformar em vinho essa água do fascismo, não é mesmo? Vai dizer que sua pretensão não era essa mesmo, a de fazer um sim-sala-bim e ter sua tia de volta? A verdade é que lá em 2018 a gente pensava mais ou menos assim: a internet chegou nos smartphones de toda nossa família e nós não nos demos conta de que, enquanto estávamos fazendo nossas coisas, o recipiente deles estava sendo preenchido pelo esgoto fascista, mas agora que nós tínhamos descoberto isso seria só chegar lá e com a luz da razão transformar aquela água marrom em um elixir do esclarecimento, do amor à verdade e à sabedoria, não foi isso? Claro que foi. Aliás, foi graças a essa crença que não desistimos da tia Judite em 2018, eu tenho certeza. Mas e aí, me diga, como você explica que todo esse seu esforço de “desnazificação” da titia não tenha dado muito certo?

Emperrou na resposta? Sabe por que eu acho que você não consegue responder? Por causa da insistência em usar o termo “ignorância” sem debulhar a sua natureza, o seu sentido - guarde esse termo “sentido”, ele vai ser fundamental mais tarde. A definição de ignorância no dicionário nos empurra para a noção de falta de alguma coisa, é como se ela tivesse uma lógica quantitativa, tipo assim: quanto mais conhecimento tiver no nosso recipiente, menos chance do fascismo entrar. Não é assim? Mas olha só, sabe aqueles raros lapsos em que a máquina de fake news fascista precisou ser deixada de lado para que os milicianos pudessem se concentrar mais em alguns assuntos pessoais? Você notou que nesses raros momentos a tia Judite chegou a ficar uns quatro ou cinco dias só dando bom dia no grupo da família e mandando oração, sem nenhum outro vídeo, nenhum meme, nenhuma revelação bombástica de tramoias nacionais e internacionais? Pois é, eu sei que você até chegou a tentar aproveitar essa baixada de guarda do campo inimigo para avançar rumo à desnazificação da titia, mandando informações sérias para que ela pudesse repensar suas posições. Confessa, você não chegou a sentir que estava quase lá? Ela parecia mais receptiva, não é? Você também teve certeza de que no pior dos casos ela votaria nulo, não é? Você sonhou com a possibilidade de no natal poder ostentar postando foto no facebook com a legenda “nenhum fascista”, não é mesmo? É meu amigo… Lembra como seu sonho virou pesadelo? Bastou um único vídeo/áudio de um importante porta-voz de qualquer coisa revelando absurdidades para que tudo voltasse à estaca zero com sua tia, não foi assim? E aí, como explicar pelo viés quantitativo a fascistização da tia Judite? Como pode, mesmo com todo os galões de esclarecimento que você despejou dentro do recipiente dela, que uma simples gota de esgoto tenha sido suficiente para acabar com todo o seu trabalho? Não vamos entrar em discussões metafísicas de que uma gota de impureza é capaz de tornar impuro o oceano, mas uma gota de pureza não é capaz de purificar um copo de água impura. Aliás, é essa tentação mística que está nos nossos pressupostos de enfrentamento ao fascismo. No fundo nós achamos que o fascismo se combate com uma transubstancialização bem-sucedida que leve nossa tia da escuridão à luz, não é verdade? Mas quando vamos remontando nosso passado com a titia Judita, o que vai ficando evidente é que não há só uma variável quantitativa na ignorância da tia Judite (como se o fascismo dentro dela tivesse ocupado o espaço vazio deixado pela ausência de conhecimento), porque há também um elemento material e formal, isto é, a maneira como ela atribui valor ao conhecimento recebido.

Se você quiser que eu explique em termos quantitativos porque a lógica quantitativa não funcionar pra compreender o fascismo seria mais ou menos assim: há alguma coisa anterior que faz com que, para cada cinquenta mensagens esclarecidas daqui, baste apenas uma mensagem esdrúxula de lá para que seja feito um estrago danado no recipiente da nossa tia Judite. Mas olha o enrosco disso: se a gente insistir na ideia de que as pessoas agem de um modo X ou Y apenas em razão do conhecimento e recursos imediatamente disponíveis a elas no momento de sua ação, como a gente pode explicar essa “sensibilidade seletiva” de nossa querida titia que insiste aferradamente em valorizar determinadas informações em detrimento de outras? A verdade é que isso nos obriga a reconhecer que nossa tia não é apenas vítima passiva do contágio fascista, mas que, de algum modo, ela também exerce uma espécie de atividade nesse envolvimento com o fascismo, ou seja, que ela tem um “modo de ser” que a engaja nesse modo peculiar de conhecer e acumular conhecimentos que irão pautar as ações dela. Epa! Aqui chegamos na toca do lobo. Guardem esse termo “modo”, ele é o pulo do gato.

Olha só, vamos dar um passo atrás para podermos dar dois à frente: a ignorância é entendida como uma falta de conhecimento, ela pressupõe que a tia Judite age de um modo ou de outro conforme o nível de “preenchimento” do seu recipiente. Isso tudo deixa de fora da equação o “modo” como a tia Judite age diante da seleção do conhecimento que vai determinar o seu modo de agir. Deu pra entender o problemão? Não? Calma. Vamos dar os dois passos à frente: o que a gente tá tentando dizer é que não é o conhecimento ou a ignorância o que determina o modo de ser da tia Judite, mas - se segura - é justamente o contrário: é o modo de ser da tia Judite o que determina o conhecimento ou a ignorância dela. Se chocou? Vamos admitir que pelo menos é uma sugestão provocativa, não é? Se você chegou até aqui, mas já cansou, já pode ir. O recado foi dado. Daqui em diante só vou fazer variações do mesmo tema para que fique um pouco mais claro como a ignorância, fascismo e modo de ser se relacionam.

Não vai desistir? Você é quem sabe. Isso vai ficar mais arenoso ainda.

Vamos para o segundo round então.

A relação entre ignorância e fascismo precisa ser ultrapassada. As palavras são muito perigosas, a gente nunca pode se esquecer que a linguagem é um “pharmakon”, ou seja, que dependendo da dose ela pode ser um remédio ou um veneno. Assim, se quisermos entender o fascismo da tia Judite, a ignorância dela não deve ser entendida como uma espécie de recipiente vazio, uma porta por onde o fascismo entraria, mas, ao invés disso, como a própria forma do recipiente. Se quisermos aplicar a noção de ignorância ao fascismo, essa não decorre da falta de alguma coisa, mas da presença de um modo, de uma forma muito peculiar de relação com o mundo. Vai dizer que você é do tipo de gente que acha que a forma das coisas faz pouca diferença no final das contas? É? Então faz este experimento: deixa um balde à chuva e me diga se ele enche mais rápido ou mais devagar que uma garrafa? E por quê? É claro, não é? É justamente por causa da forma como a boca desses recipientes é desenhada. É por isso que se quisermos estabelecer uma relação entre ignorância e fascismo nós precisamos ressignificar o nosso próprio entendimento de ignorância, abandonando a ideia do dicionário que sugere uma falta de conhecimento para pensarmos nela como um modo de relação muito peculiar com o conhecimento, independentemente da quantificação desse conhecimento: a ignorância fascista pode se materializar com pouco ou com muito conhecimento.

Agora a gente inverteu tudo de cabeça pra baixo. Mas calma. Se quisermos dizer que no fascismo há uma relação entre a ignorância e a quantidade de conhecimento, a quantidade deve ser considerada uma consequência da ignorância, não sua causa, e o fascismo deve ser considerado a causa da ignorância, e não sua consequência. Tonteou com isso? É tipo assim: a tia Judite não é fascista porque é ignorante, mas o inverso: ela é ignorante porque fascista. É por isso que a tia Judite não é ignorante porque tem pouco conhecimento, mas o inverso: ela tem pouco conhecimento porque é ignorante. Para entender o fascismo dela, precisamos colocar a lógica de cabeça pra baixo: ela é fascista, portanto ignorante, portanto tem pouco conhecimento. Sacou?

“Tá e aí”, você já deve estar se perguntando. Calma. Tome uma água. Eu avisei que você já poderia ter parado. Se você escolheu continuar, é bom saber que ainda vamos mais longe, porque agora é que vem a saraivada: se a ignorância fascista não é falta de alguma coisa, mas a presença de um modo de ser, que modo de ser é esse? Lá vai: é a irreflexão absoluta. É uma incapacidade de pensar. “Como pode isso?!”. Pode. O pior é que pode. E não é uma metáfora ou retórica. Eu estou falando sério e literalmente. A sua tia Judite não pensa! É simples assim. Lamento dizer isso, mas é assim que é.

Está incrédulo? Você se ofendeu? Sabe o que é, é que existe uma diferença entre o que é “natural” e o que é “naturalizado”. Natural é o que está no fundamento de alguém acusar outra pessoa de ter cometido um pleonasmo ao dizer “descer pra baixo”, “subir pra cima”, “entrar pra dentro”, isso porque é natural que se desça pra baixo, suba pra cima, entre pra dentro. Simplesmente é impossível e antinatural entrar pra fora. Isso contrariaria as leis da física do universo conhecido por nós, sacou? Agora, quando a gente se choca diante da afirmação de que a tia Judite não pensa é porque a gente tomou por natural o pensamento, como se fosse tipo um processo biofisiológico. Pensar não é de ordem biofisiológica, é por isso que a gente tem uma noção “naturalizada” do pensamento. E isso pode parecer uma discussão irrelevante, mas ela é central para entendermos a fascistização da tia Judite. Uma das razões que atrapalha nossa compreensão é que nós nem sequer um dia nos perguntamos se ela pensa, tampouco sobre o que de fato é o pensamento. E se a gente não entende o que é o pensar e o pensamento, como nós vamos entender o modo de ser irreflexivo que é o casulo do fascismo? Se você já tá achando difícil enxergar isso tudo, se prepara porque vai piorar.

Olhá só, lembra que estamos insistindo que não podemos relacionar o fascismo à ignorância do dicionário porque lá ela está associada à falta, mas o fascismo não é a ausência de alguma coisa, e sim a presença de um modo de ser, certo? Pois é, claro que a ignorância pode estar relacionada ao fascismo, mas só como uma consequência dele, e não como sua causa. Ou seja, sua tia não se tornou fascista porque ela é ignorante, mas o inverso, ela se tornou ignorante porque é fascista. Claro que nem toda ignorância é fascista, e eu ainda tenho dúvidas se todo fascista é ignorante. Mas não entender essa sutileza nos faz sermos demasiadamente condescendentes com a ignorância e, indiretamente, com o próprio fascismo. Generalizar de antemão que a pessoa é fascista porque é ignorante, faz com que a gente tome toda pessoa ignorante como uma vítima de uma uma falta, de uma insuficiência que, caso fosse suprida, resolveria o problema. Desse nosso descuido é de onde nasce e se dissemina o fascismo. Você já viu filmes de zumbis? Sempre tem um pessoal que enxerga nos zumbis as pessoas que eles foram ou que poderiam ser, essas abstrações fazem elas ficarem paralisadas no momento em que estão prestes a serem atacadas por eles. Qual o resultado disso? O número de zumbis vai aumentando exponencialmente.

Eu sei que é meio angustiante explicitar essa inversão. Mas se tomarmos a ignorância como causa do fascismo, nós vamos dedicar muito tempo tentando “curar” a ignorância e provavelmente no meio do processo vamos terminar sendo devorados pelo fascismo. É óbvio que, assim como ovo e galinha são indissociáveis, ignorância e fascismo também o são, mas nós precisamos estudar separadamente as propriedades do ovo e da ignorância para podermos compreender a galinha e o fascismo.

Você já deve estar se retorcendo perguntando “Nossa, que absurdo! Como poderia uma pessoa tão boa como a minha titia Judite ser comparada aos fascistas maus, aos zumbis… Céus! Quanta blasfêmia em um texto só?”. É colega, mas se você ainda não se chocou suficientemente, prepare-se: o bem e o mal são categorias que mais atrapalham do que ajudam nossas tentativas de compreensão dos fenômenos. Lamento dizer isso, mas infelizmente é totalmente possível que pessoas más não sejam fascistas, assim como, igualmente, que pessoas boas o sejam. É difícil imaginar isso, não é? Sabe por quê? Porque quando utilizamos essas categorias nós acabamos tentando torcer os fenômenos para que eles fiquem do nosso lado do cercadinho. E é justamente para isso que essas categorias servem e cumprem lindamente seu papel na vida prática, o problema é quando tentamos usá-las para contemplar os fenômenos. O bem e o mal são categorias que só servem para nós próprios nos situarmos em relação ao mundo, organizar nossa potência em relação ao que devemos perseguir e ao que devemos repelir. São essas categorias que nos permitem construir fronteiras, separar o “nós” do “eles”, o “direito” do “errado”, o sonho do pesadelo, o sucesso do fracasso, a vitória da derrota. Então o bem e o mal até podem nos ajudar a tomarmos decisões que mais nos apeteçam e que nos causem menos desgosto, mas decidir e compreender não estão necessariamente no mesmo plano. É por isso que se tentamos compreender tendo como fiel da balança o bem e o mal vamos acabar em saias justas que nos obrigarão a sair dela com justificativas que sempre começam pela expressão “...mas veja bem…”. Quer um exemplo? Tem aquele clássico: você sabia que Hitler era vegetariano? Se você odeia vegetarianos ou é um vegetariano nazista essa informação até pode soar harmônica, mas se você é um vegano hippie que vende cerveja artesanal certamente estaria em maus lençois, a menos que tenha dedicado muito tempo de sua vida até desencravar um argumento “sólido e inquestionável” para explicar essa relação sem perturbar seu cercadinho bem-mal.

Eu reconheço que tirar as categorias do bem e do mal nos coloca num perrengue danado, porque é muito mais fácil dividir o mundo assim: bem pra cá e mal pra lá; nós estamos no bem, eles estão no mal; logo não precisaríamos nos preocupar com a possibilidade de nós próprios cometermos atos monstruosos, já que esse tipo de conduta é coisa só “deles”. Infelizmente - eu sei que você odeia essa palavra -, mas o bem e o mal são “relativos”, mas é por isso que, se quisermos compreender, precisamos pensar além do bem e do mal.

Eita colegas, a tia Judite acabou ficando muito para trás, vamos voltar um pouco. Como íamos dizendo sobre ela, apesar de sua boa educação, gentileza e do maravilhoso gosto de infância que a casa dela tem, isso não a salvaguarda do fascismo. Eu sei que é doloroso pensar assim, mas enquanto não encararmos essa dura realidade vamos continuar combatendo o fascismo com armas inadequadas. É preciso compreender o fascismo a partir dele próprio, não do que gostaríamos que ele fosse. Mas como nós queremos compreender a fascistização da tia Judite, nós precisamos abordá-la como ela se materializa e se expressa, ou seja, como um “modo de ser”.

Bom, há muitos aspectos do modo de ser fascista, mas um deles é a relação peculiar com a verdade. É a natureza dessa relação que precisamos entender para compreender nossa tia Judite. Em outras palavras, é a natureza da ignorância fascista que precisamos abordar. Como nós já chamamos a tia Judite de fascista, não queremos ser ainda mais indelicados e arrogantes, por isso não vamos chamar ela também de animal, então vamos usar apenas o termo “sensorial” para qualificar essa peculiar relação que a tia Judite estabelece com a verdade. Pode ser assim?

Se você achava que o texto já estava quase no fim, lamento. Ainda tem muito chão pela frente colegas, estamos só na metade. Eu já disse lá atrás que ia vir pedreira, não é? Então não sei o que dizer agora, mas aí vem chumbo grosso de novo. Se tiver coragem, toma um fôlego e vamos lá tentar descobrir que diabos é uma relação “sensorial”com a verdade.

Bom, ao estabelecermos uma relação sensorial com a verdade, tudo aquilo que aparece é tomado como verdadeiro na exata proporção daquilo que parece ser. Falando assim não soa tão complexo, não é mesmo? Vou encher muito a paciência se enfiar aqui mais um exemplo? Saca só: você já viu a relação que os corvos estabelecem com os espantalhos? Sim, eu sei que você também só viu isso em filmes estadunidenses e que na verdade a coisa nem funciona exatamente assim, mas vamos fazer de conta, tá? Como funciona isso? O corvo não se aproxima da plantação porque o espantalho “parece” ser um homem. É simples assim. Não há nenhum plano muito sofisticado para que o agricultor alcance seus objetivos, ele só precisa saber como é o modo de relação do corvo com a verdade e pimba! E qual é o modo de relação do corvo com a verdade? Sensorial! Já tá se dando conta de onde estamos chegando? Não é uma questão de os corvos serem burros, eles simplesmente são o que são. Mas já que falamos em burrice para tratarmos do fascismo, acho ótimo a gente usar pelo menos um parágrafo para falarmos também da “inteligência”. Esse contraste entre burrice e inteligência é muito importante para compreendermos melhor como a ignorância fascista não é uma questão de falta de alguma coisa como conhecimento ou mesmo falta de inteligência. Quando entendemos que é o modo de ser fascista que produz a ignorância e não o contrário, então se torna perfeitamente compreensível como pessoas “inteligentes” podem agir e se portar da mesmíssima maneira que pessoas “burras”. Nesse sentido o modo de ser fascista é bastante cosmopolita, ele abrange pessoas de todos os cantos. E é essa régua que solapa as distinções meramente quantitativas o que torna muito mais eficaz para nós dedicarmos atenção à qualidade e natureza do modo de ser do fascismo - e não aos seus aspectos meramente quantitativos. Entendeu?

Para deixar mais claro, vamos voltar aos corvos. Certamente poderíamos dizer que dentre todos os corvos que se aproximam do espantalho, há corvos que são mais “inteligentes” do que outros, mas isso implica necessariamente que esses gênios da raça estabeleçam um modo de relação com a verdade diferente daquele que os corvos burros estabelecem? Vamos imaginar que entre todos os corvos haja um que seja engenheiro. Eu tenho certeza de que esse corvo teria um rol de competências extraordinariamente maior do que os demais para identificar se aquele espantalho que parece um homem de fato o é. Se ele tiver dado a sorte de ter alguma grana, ele até poderia ter investido na aquisição de ferramentas e equipamentos técnicos que pudessem auxiliá-lo a resolver esse problema. O primeiro passo que esse corvo poderia dar seria medir a silhueta do espantalho para saber se corresponde à média da silhueta dos homens. Se além de engenheiro ele também dominasse alta tecnologia, ele até mesmo poderia utilizar instrumentos mais sofisticados, tipo termômetros infravermelho, para mensurar a temperatura corporal do espantalho. Sem dúvida com esses recursos ele já poderia se antecipar em relação a todos os demais corvos descobrindo que aquilo que parecia ser um homem, na verdade era apenas um espantalho, você não acha?

Bom, aqui fica evidente que de fato há uma grande diferença entre corvos burros e inteligentes, a questão é saber ao que se resume essa diferença. Se atentarmos para o nosso exemplo, vamos perceber que os critérios que tendemos a usar para distinguir aqueles que são inteligentes daqueles que são burros é a capacidade diferencial que cada um desses detêm para manejar técnicas. E assim nós veremos que manejar técnicas pressupõe apenas o acúmulo de conhecimentos adequados. Vocês estão se dando conta que toda essa volta que estamos dando em torno da burrice e da inteligência está nos levando de volta àquela definição de “ignorância” que está no dicionário? O que utilizamos para distinguir burrice de inteligência faz da ignorância do dicionário um sinônimo de burrice. Mas olha só que louco, se burrice é sinônimo de ignorância, então nós teríamos que poder dizer que a tia Judite, tanto é ignorante, como é burra, não é mesmo? Para algumas de nossas tias Judites isso até pode ser verdadeiro, mas não é uma regra - aliás, está até bem próximo de ser uma exceção. Isso quer dizer que a “inteligência” não necessariamente resolve o problema da ignorância, aliás, estamos dizendo que uma pessoa inteligente pode ser tão ignorante quanto uma pessoa burra. Mas então aquela ideia do dicionário de que ignorância era falta de conhecimento cai por terra. Que curioso, não é? Ou seja, assim como nossa tia Judite pode ser, ao mesmo tempo, “inteligente” e ignorante, a extraordinária capacidade cognitiva e técnica dos corvos engenheiros não modifica o modo de relação que eles estabelecem com os espantalhos. Mas como isso é possível?

A resposta é que, mesmo com domínio mais hightech, o modo de relação dos corvos engenheiros com a verdade é tão sensorial quanto o de qualquer outro corvo, apenas mais preciso e eficiente, porque eles colocam as técnicas a serviço da maximização das propriedades de seus próprios sentidos (visão, audição, tato...). Provavelmente um corvo engenheiro inteligente chegaria a conclusões muito próximas daquelas que um corvo burro e ciborgue - uma ave metade corvo, metade máquina - também chegaria. É bem provável que corvos engenheiros tivessem conseguido detectar que a mamadeira de piroca - aquela que circulou no finalzinho de 2018 no zap revelando que o PT estaria distribuindo em escolas e creches essa mamadeira para crianças de dois ou três anos para sensibilizá-las com o órgão sexual masculino desde cedo para que elas mais facilmente pudessem ser transformadas em homossexuais o que as tornariam presas mais fáceis para pedófilos como Fernando Haddad que teria estuprado uma criança com a conivência de todos aqueles que aparelharam o Ministério da Educação como parte de um projeto gramscista, globalista, metacapitalista e comunista do Foro de São Paulo de expansão do islamismo no ocidente tudo isso apoiado por governos narcoterroristas brasileiros financiados pelos maiores escândalos de corrupção da humanidade, ufa! - não era verdadeira.

Eita, mas onde isso tudo nos leva? Vamos por partes. Apesar de corvos poderem ser mais inteligentes ou mais burros do que a tia Judite, isso não quer dizer que eles sejam mais capazes de pensar do que ela. É por essa razão que aquele seu tiozão jornalista, advogado, dentista, psicólogo, médico - engenheiro eu já falei, não vou sacanear de novo senão vão dizer que é perseguição - que você sempre admirou tanto por sua inteligência, já que ele precisou estudar muito e ficar muitas madrugadas sem dormir para “chegar onde chegou”, tenha compartilhado naquele domingo aquilo no grupo do zap da família. Caraca, então quer dizer que ele é burro? Claro que não. Mas mesmo com toda a inteligência dele, ele foi capaz de agir do mesmo modo como qualquer outra pessoa burra também agiria. A diferença é que, por tudo que ele representa no coração da titia Judite, ele acabou sendo um grande responsável por ter legitimado para ela que aquele vídeo era verdadeiro, afinal ela certamente pensaria “Se até ele está compartilhando isso, não é possível que não seja verdadeiro!”. E, entre seu tiozão, cidadão de bem de uma família linda, um empresário de sucesso, e você, um comunista pé-rapado, não é preciso dizer pra quem a tia Judite ia jogar as fichas dela, não é mesmo?

Bom, as coisas ficaram meio dispersas, eu sei, tá uma balbúrdia de ignorância, fascismo, inteligência, burrice, tiozão, corvo, Judite, tudo junto. Tá, calma. Vamos tentar limpar isso. Passinhos de bebê agora. A gente tá tentando mostrar que, se entendemos o fascismo como um modo de ser que pode se expressar independentemente de uma maior ou menor quantidade de conhecimento, não necessariamente a inteligência e a burrice vão andar em sentidos opostos nas demonstrações fascistas. Então se quisermos continuar utilizar o termo ignorância para nos referirmos ao fascismo, precisamos reconhecer que a ignorância fascista não pode ser entendida como aquela do dicionário, porque ela não é a falta de alguma coisa, mas justamente a materialização de um modo de ser fascista. Aí é que entrou o seu tiozão na parada. Mesmo ele tendo conhecimentos e recursos técnicos e cognitivos suficientes para saber que algo era claramente falso ou tendencioso, isso não necessariamente o impediu de ter compartilhado o que compartilhou. É como se um corvo engenheiro chegasse na frente da silhueta na plantação, pegasse seus aparatos, medisse e concluísse que não era um espantalho, mas que dessa vez era um fazendeiro mesmo, armado de espingarda calibre 12 e tudo, mas o corvo dissesse: “Aí galera, tá limpo, é aquele espantalho idiota de sempre, simbora tocar o terror!”.

Vai dizer que quando você questionou seu tiozão, ele não respondeu simplesmente que foi por “zoeira”? Aí certamente você deve ter pensado também o que pensou do corvo que sacaneou os outros ali atrás “Ah, deve ser sadismo, crueldade, insensibilidade, falta de empatia, maldade”. Não! Não é nada de maldade, é simplesmente o modo de ser deles - do tio, do corvo e da Judite. Então não chame isso de ignorância, chame simplesmente de fascismo. Ou se você tiver muito apego à ignorância, especifique muito bem que não é a ignorância do dicionário, mas a ignorância fascista, que no fim das contas é só fascismo.

Vai dizer que seu tio não disse que é você que não tem senso de humor? Ele tentou lhe convencer que você não entende que ele só gosta de tensionar os limites do politicamente correto imposto pelo patrulhamento ideológico? No fim das contas, para a tia Judite ele é até mesmo um benfeitor porque só age por um ideal transcendente: libertar o universo da opressão feminazista. Viu!? De novo: não é maldade. Viu só como não rola usar categorias de bem e mal? Além de não ser mau, o tiozão também é inteligente. Colega, você já percebeu a encalacrada de tentar associar a causa do fascismo à ignorância ou à maldade? Isso tudo é consequência, não é causa. Se você insistir nisso vai acabar sempre dando com os burros na água.

Agora já chegamos ao topo da montanha e poderemos começar a descer, então se você já chegou até aqui, não vai mais ter opção, você vai ter que ficar até o fim, senão vai ter desperdiçado seu tempo. Não vou repetir que o fascismo se materializa e se expressa como um modo de relação sensorial com a verdade, certo? Agora o que isso tem a ver com a tia Judite? Essa é a parte quente da discussão. Muito bem, sabe o tiozão bem-sucedido do zap? Como pode ele, mesmo sendo tão inteligente, ter compartilhado algo que ele até sabia que não era verdadeiro - ou ao menos sabia que tinha fortes evidências de que podia não ser verdadeiro, ou simplesmente de ele nem ter se preocupado em saber se era ou não verdadeiro? Está claro meus amigos: o modo de relação que ele estabelece com a verdade também é sensorial, tanto quanto os corvos - os burros e os inteligentes. Isso quer dizer que para o seu tiozão a verdade corresponde exclusivamente às propriedades da coisa, elas não têm nenhuma relação com ele. Ou seja, o fato de uma mensagem que ele compartilha ser falsa não implica que ele próprio, enquanto sujeito, seja falso ou qualquer coisa do tipo. A mensagem que ele compartilha é falsa, mas ele próprio continua sendo o mesmo médico cidadão de bem, inteligente e bem-sucedido de sempre - principalmente para a sua tia Judite, já que a cada mensagem que ele compartilha mais ela admira a linda família que ele dá tanto duro para manter. Para seu tiozão - e para a tia Judite também - ele no máximo é só o intermediário entre as falsidade daquilo que ele compartilha e os outros, é um comportamento puramente técnico, por isso inofensivo. Se a mensagem é falsa ou não, azar da mensagem, azar de quem produziu a mensagem e azar de quem recebeu a mensagem, o tiozão “só repassou”. A lógica dele é a de que, como há tanto fake na rede, se não fosse ele, a mensagem chegaria de qualquer jeito até o zap da família pelos dedos de outros. Por isso que se a gente se esforçar para compreender o ponto de vista dele até vamos descobrir que, no fundo, pensando bem, ele até foi gentil adiantando o serviço. Ele não é incrível? É um verdadeiro leão incansável que não pensa duas vezes em se sacrificar pela família. Por isso é ele quem está no coração da tia Judite e que você só terá direito às meias no testamento dela.

A verdade é que o que causa tanta repulsa na tia Judite e em seu tio é que você é um arrogante, moralista, politiqueiro e fanático de uma seita de defensores de bandidos que fica dando bola demais para besteiras. Eles nunca lhe disseram isso - por isso não sei se eu deveria revelar -, mas quando você vai dormir mais cedo no reveillon na casa de praia dela, eles sempre repactuam a compaixão que têm por você porque no fundo eles sabem que você é frustrado e um pouco invejoso do sucesso deles. Ai, falei demais… Desculpa, minha boca é um túmulo. Só lhe contei isso porque lhe estimo muito, ok?

Mas voltando. Essa sua obsessão por detalhes e coisas banais irrita seus tios porque isso não contribui em nada para uma relação sensorial com a verdade. A verdade sensorial é bruta, tá ali e pronto. Basta você ter os recursos adequados e pronto, não precisa ficar escarafunchando. No fundo, essa relação sensorial com a verdade toma o mundo todo como uma coleção de coisas banais. É óbvio, isso não poderia ser diferente. Uma relação sensorial com a verdade faz com que, por exemplo, abraçar pessoas, postes ou espantalhos possa ser exatamente a mesma coisa, desde que as dimensões, pressão e temperatura sejam idênticas. E sabe o que torna isso possível? A certeza. No fundo isso que sua tia Judite e seu tiozão chamam de verdade nada mais é do que o dicionário chama de “certeza”. Quer ver? Olha só o que diz o dicionário:

1. Caráter ou virtude do que é certo, daquilo que não suscita dúvida.

2. Conhecimento exato; convicção.

3. Aquilo que não suscita dúvida.

4. Afirmação categórica; intimativa:

5. Convicção plena, depois de superados os questionamentos e as dúvidas, que sustenta uma verdade ou uma opinião.

Não parece para você também que essas definições se encaixam perfeitamente naquilo que devemos compreender por verdade? Pois é, mas nem sempre foi assim. Essa sinonímia entre certeza e verdade nem sempre existiu, aliás, é algo muito mais recente do que a gente imagina. Antes a verdade remetia a “desvelar”, tirar o véu. Calma. Não é desse jeito troglodita como você costuma fazer as coisas. Não é como arrancar um pano de cima da mesa e pronto; é mais como um processo, como um movimento de tirar várias camadas de uma cebola, uma depois da outra, em um movimento que nunca chega à coisa em si, nunca chega àquilo que a coisa é de uma vez por todas. Ao invés disso, é um movimento de dar novos sentidos às coisas. Lembra que falei da importância do “sentido”? Essa discussão tá chegando, espera um pouquinho.

Enfim, o significado de verdade foi se tornando sinônimo de certeza à medida que a própria noção de pensamento foi sendo suplantada pela de cognição. Enquanto o pensamento busca o sentido, a cognição calcula as propriedades. Se você quiser saber quanto é 1 1 ou fugir de uma casa pegando fogo, é bom que suas faculdades cognitivas estejam bem preservadas, mas se a situação for a de se deparar com a pergunta “Para que esse número deve ser utilizado?” ou “Quem eu devo salvar em um incêndio?”, aí a coisa muda de figura.

Não há nenhum problema com o modo cognitivo de relação com o mundo em si mesmo, cada modo de ser cumpre um papel em determinado contexto, mas é que o polo cognitivo acabou dominando o polo reflexivo, fazendo com que tudo aquilo que não dissesse respeito à ordem da certeza e da cognição fosse ignorado - e aí sim surgiu um problemão. No fim do dia, tudo se tornou igualmente sem valor e, portanto, sem sentido, apenas importando sua quantidade, seu tamanho, seu peso, sua velocidade - tudo variáveis que podemos medir, comparar com outroas e ter certeza sobre a relação entre elas. Claro, não poderia ser diferente, como poderíamos medir o sentido do carinho que temos por cada um de nossos irmãos para decidirmos qual deles salvar em um incêndio? Ou de que modo a matemática poderia nos ajudar a definir quais dos nossos quatro amigos deveriam ser salvos se só pudéssemos salvar a metade deles? Viu? Qual é a temperatura do sentido? Quanto de sentido a mais tem em abraçar um poste ou a sua mãe? A gente pode pensar sobre o sentido, o sentido pode nos fazer pensar, mas a gente não pode medi-lo, pesá-lo, nem mesmo convertê-lo em uma equação matemática. Em resumo, a gente até pode raciocinar cognitivamente sobre o espantalho, mas pensar sobre ele exigiria que nos fizéssemos perguntas que estão para além da cognição: por que o espantalho dá medo? por que o medo assusta? por que o susto incomoda? Tá certo. Eu sei que seu tio tem todas essas respostas na ponta da língua, mas a diferença é que o pensamento inverte a hierarquia entre dúvida e certeza. O seu tio parte da dúvida para chegar à certeza, é isso o que faz ele se sentir sempre tão inteligente diante de sua tia Judite que fica de boca aberta quando ele “pede a palavra”. Mas quando alguém pensa, é porque está justamente fazendo o inverso: partindo certeza em direção à pergunta. Sacou? Pergunte pra ele se ele já se perguntou por que as perguntas são perguntadas e você vai ver que ele vai rir. Na real ele vai achar que você não soube fazer a pergunta e vai lhe chamar de burro. Pra ele e pra sua tia Judite, ou as perguntas já têm respostas, ou elas não foram bem feitas. Faça um teste para comprovar isso: vá fazendo perguntas para ele, e a cada resposta faça uma nova pergunta, logo, logo você verá que ele lhe mandará para aquele lugar. No fundo ele não suporta perguntas, ele odeia perguntas. A verdade é que ele se esforça tanto para ser tão inteligente justamente porque no fundo o maior desejo dele é viver em um mundo onde só existam respostas e que perguntar fosse um crime hediondo. Nesse mundo a dúvida não existiria e tudo o que é, é com deveria ser.

Chegamos juntos até aqui?

Mais um passo então rumo às “conclusões”.

Como a sua tia Judite não pensa, ela é fascista, e é por conta disso que ela é ignorante daquela maneira peculiar que só os fascistas podem ser, independentemente de serem burros ou inteligentes. Como eles não pensam, para eles as coisas não têm sentido algum, tudo é igualmente banal, apenas em dimensões, pesos e temperaturas diferentes. Assim como os corvos engenheiros só conseguem diferenciar espantalhos de homens em razão de suas propriedades particulares, para o seu tiozão tanto faz compartilhar uma mensagem falsa ou verdadeira.

Fascismo e pensamento são inconciliáveis, já que o pensamento é como um caçador de borboletas, em que cada uma delas é um sentido colorido. O fascismo detesta o pensamento justamente porque pensar desencrava sempre novos sentidos, tirando leite de pedra, assim todas as certezas sempre acabam passíveis de serem desafiadas. Diante do pensamento, nenhuma certeza está a salvo. Entendeu o ódio dos fascistas à arte? O que há de artístico na arte é justamente aquilo que não aparece no que aparece. Mas para o fascismo aquilo que não aparece não existe - ou se existe não precisaria existir, já que não está sendo útil pra nada. Ah a “utilidade”… Enquanto o pensamento reflexivo é crítico, a cognição fascista é utilitária. Enquanto a reflexão não pode existir sem o sentido, o fascismo não pode existir sem a utilidade. Provavelmente sua tia Judite e o seu tiozão são exímios em “resolver problemas”, não é mesmo? Por acaso o seu tio também tem a frase “Missão dada, missão cumprida!” bordada no avental que ele usa para assar churrasco aos domingos?

Deu pra entender por que é o fascismo que está na base da ignorância e não a ignorância que está na base do fascismo? E deu pra entender por que essa ignorância fascista não é aquela do dicionário, mas um modo de ser? É bom que tenha ficado mais claro, porque já chegamos no sprint final, os últimos cem metros antes de poder lhe libertar. Mas antes, você sabe que só você chegou até aqui, certo? Pode colocar “we are de champions” do Queen para tocar aí, você merece. Sério. Se você suportou, deve ser porque estamos sintonizados. Espero não decepcionar na saída. Mas se decepcionar, eu já tinha avisado pra você pular do barco muito antes, você é que insistiu. Bom… Só mais uma coisa, você acha que estou enrolando muito? Desculpa. Será que eu me apeguei mais a você do que você a mim… Deixa pra lá. Vou continuar.

Bom, você e eu sabemos que a moral de tudo isso é dizer que o fascismo é um “modo de ser”, e ele não depende da quantidade de conhecimento, há fascistas burros e inteligentes, analfabetos e com pós-doutorado. No fundo é bem fácil encontrar fascistas diplomados, já que, à medida que os diplomas vão se acumulando na parede, a humildade vai diminuindo. Mas não se esqueça, por favor, se há uma confluência entre fascismo e ignorância, é porque a ignorância é uma consequência do fascismo - e não o contrário. Certo, isso já está superado. Agora é o ponto: se já dissemos que o fascismo é um “modo de ser” que surge da irreflexão e da incapacidade de pensar, o que produz esse modo irreflexivo? Certamente ele não cai do céu, nem é genético, nem biológico, nem cerebral, nem qualquer uma das explicações fabulosas que a tia Judite adora ler naqueles livros que ela compra na passada por Guarulhos rumo a Miami... Mas onde estávamos? Ah sim! Nós queríamos descobrir de onde raios vem a irreflexão. Ué, vem da sociedade. Ficou sem graça assim, não é? Eu devia ter feito mais mistério para não parecer uma resposta tão batida. Mas a irreflexão vem da sociedade, é essa a resposta. Você queria mais mistério? Deve ser porque estou ficando cansado ou já gastei minha criatividade. Me desculpe. Mas será que se os Beatles ainda estivessem na estrada eles ainda seriam o que foram? O tempo vai tirando a aura das coisas e você já está muito tempo nesse texto, talvez se tivesse parado quando eu avisei não ia estar se decepcionando agora.Bom, se a irreflexão vem da sociedade, então o fascismo não é um acidente, mas uma consequência lógica e imediata da nossa sociedade! Eu disse que as notícias não eram boas, e agora você vai entender o porquê.

Se o modo de ser do fascismo é causado pela irreflexão derivada de como nossa sociedade está organizada, então a excepcionalidade não foi o nazismo ter se espalhado por toda a Europa, mas, ao invés disso, o surpreendente é que ele não tenha dominado o mundo inteiro. Ou seja, o excepcional não é que a sociedade dê apoio a movimentos fascistas no Brasil e no mundo em pleno século XXI, o inacreditável é que ainda existam algumas pessoas que se contraponham e resistam. Entendeu a bomba que eu estou jogando no seu colo?

Mas no fundo essa minha mensagem pode ser considerada como super positiva, saca só: você não precisa ficar triste porque sua tia, tio, amigo ou mesmo toda sua família seja fascista; ao contrário, vá até a janela, abra os braços e sorria se você ainda tiver algum vizinho de porta, de prédio, de condomínio, de rua, de bairro, de cidade, de estado, de país ou de planeta que ainda não erga o braços para a saudação “Heil Hitler”. Não duvide da minha índole, eu jamais seria sarcástico com você. Pondere junto comigo e você concordará: se a nossa sociedade é uma máquina de produzir e reproduzir o modo de ser irreflexivo através de seus aparelhos familiares, escolares, religiosos, universitários - meu deus, como eu gostaria que fosse verdade os delírios deles sobre as universidades brasileiras -, aparelhos midiáticos, culturais etc etc, como diabos você pretenderia que não houvesse fascistas caminhando por aí de verde-amarelo? Cristo! Será que você não vê que isso contraria as leis da física! Esse papo de direitos fundamentais, Estado Democrático de Direito, devido processo legal, igualdade, fraternidade, solidariedade, faça-me o favor! Nada disso encaixa, não dá liga, não adianta insistir. É como brincar de Lego, cada peça encaixa onde pode encaixar, não adianta forçar. Se você não pensa, todas essas coisas que dependem de um sentido para produzirem efeitos se tornam “sem sentido”. Entende agora por que eles debocham tanto dos direitos fundamentais da Constituição de 88? Pra eles realmente aquilo tudo soa como poesia, e só nós sabemos como eles odeiam poesia - e por isso odeiam você também. Na real, quando você vem com essas coisas eles lhe tiram pra poeta - e eu já disse como eles odeiam você e como eles também odeiam os poetas, ou seja, eles odeiam você ao quadrado. E se você não quiser aceitar isso, vai ficar pelo resto da vida tentando beber água com uma peneira. Já dei más notícias o suficiente? Não me faça a sacanagem de parar aqui, agora falta pouco. Ali em cima eu menti que estava acabando, mas agora é verdade.

Você deve estar se perguntando “Tá, e daí? Eu vim até aqui só pra saber o que eu faço com a minha tia Judite e você já está me falando até da Constituição!”. Certo, você quer mesmo saber o que eu acho que você deve fazer com sua tia Judite?



Estou brincando.

Eu vou lhe devolver a sua pergunta. Depois de tudo isso que eu te obriguei a caminhar, você já sabe que para mim o problema com sua tia não é ela ser manipulável ou ignorante, mas justamente o de ela ser fascista e, por consequência disso, manipulável e ignorante. Você ainda acredita em algo como uma “desnazificação”? Eu sei que você está dizendo “Ah, mas hoje na Alemanha se você fizer a saudação nazista…”. Certo colega, lembra que a linguagem é um “pharmakon”, que pode ser remédio ou veneno? Pois é, o papel aceita qualquer coisa, se você quiser dizer que o fascismo é consequência da falta de conhecimento, você pode dizer, assim como você também pode falar em desnazificação ou o que quer que seja. Mas a situação é a seguinte, isso que chamam de desnazificação não passa de repressão aos fascistas. E o tio Freud já ficou sem voz de tanto gritar que reprimir não é curar, e todos nós sabemos das consequências dessa confusão, uma hora explode. Ou seja, aquilo que um modo de vida levanta, só um outro modo de vida pode derrubar. Uma desnazificação passaria pela desconstrução dos fatores de produção constitutivos e constituintes do modo de ser nazifascista que estrutura a subjetividade contemporânea. E como você deve saber, mesmo que isso se realizasse, as consequências não seriam para essa geração, nem para a próxima. Sua tia Judite e provavelmente você também já estariam no céu. Eu não estou dizendo que não há a possibilidade de acontecer alguma coisa dramática o suficiente na vida da sua tia Judite que quebre individualmente o seu modo de ser, fazendo-a colocar em questão seu modo de ser, tornando-a uma pessoa completamente diferente. É possível? É, claro que é. Nós temos vários exemplos, até nós mesmos podemos eventualmente ser um desses sortudos azarados que pela tristeza ou alegria de um encontro qualquer, mudamos completamente. Mas, lamentavelmente, uma andorinha não faz verão, e eu garanto que você vai se cansar de argumentar antes que sua tia Judite comece a pensar. Não adianta, é como esperar chover pra cima. Se sua tia não for fascista, se ela simplesmente tivesse se “enganado”, seria só você dar a ela os elementos faltantes no quebra-cabeça para que ela se desse conta. Caso contrário meu amigo, se você precisar insistir demais, saiba que você até pode gastar toda sua energia, mas quem vai fazer mesmo o trabalho é o tempo - até porque, no pior dos casos, os humanos têm a sorte de que ninguém ainda descobriu a fórmula de viver para sempre. É claro que também há os acasos em que os encontros inesperados podem provocar rupturas, mas o pior é que, mesmo diante de uma situação-limite, sinceramente eu acho que é mais fácil que a sua tia se torne ainda mais convicta, confiante e orgulhosa em seu próprio modo de ser irreflexivo do que comece a pensar. Desculpe se lhe pareço pessimista. É que, no fim das contas, os dramas muitas vezes acabam não promovendo mudanças, mas só ressentimento - esse afeto que funciona como um verniz que não acrescenta coisas novas, mas só imortaliza as que já estão lá.

É colega… O que fazer com a tia Judite, então? Eu estou me enrolando pra dizer de uma vez, mas a verdade é que só sobra a repressão mesmo... A repressão é o único recurso a curto prazo que nós dispomos contra os fascistas. E atente bem para isso: não é com delicadeza e empatia. A repressão precisa ser efetivada com os mesmos meios e na mesma intensidade. É, estou dizendo exatamente isso que você entendeu. Mas como estamos falando por enquanto da tia Judite e suas peripécias no grupo do zap da família, a repressão contra ela se dá não deixando sem resposta as mensagens, áudios, vídeos que ela manda. Cada afirmação fascista tem que ter seu caráter fascistóide explicitado. Se for falsa, é preciso atacar com a informação correta, se for suposição, é preciso confrontar com uma afirmação contrária. Não pode haver espaço para a propagação. Eles não podem se sentir à vontade. É preciso colocar os fascistas em seus devidos lugares. Eu sei que é difícil ser duro com a tia Judite, afinal ela é tão querida e ingênua, não é mesmo? Só não esqueça que os fascistas são exímios espadachins na arte da hipocrisia e do fingimento. Aliás, sabia que eles dão o nome de “etiqueta” e “classe” à essa sua arte? Mas não se engane, é um perigo mortal se aproximar deles demasiadamente desprevenido.

Resumo: os fascistas precisam ser reprimidos. Ponto. Entendeu? “Ah, mas se ela não for fascista, se ela só tenha se equivocado, se ela simplesmente não sabia?”. Se for isso, garanto que ela vai ser a primeira a lhe agradecer por você não deixar ela passar vexame por aí dançando com um caixão na cabeça e debochando da pandemia. Sacou? É simples. A repressão até ajuda a separar o joio do trigo. Nós não podemos esquecer da história e acabarmos cometendo os mesmos erros dos nossos bisavós: eles se iludiram achando que a repressão curava. Não cura. Nós temos que ter bastante consciência de que a repressão é só um recurso desesperado. Ela não cumpre o papel que nos fizeram acreditar que ela cumpriria: “desnazificar”. Não rola colega. Quando você joga uma pedra no escuro, você não mata os ratos, simplesmente faz eles se espalharem bem depressa. Isso pode até salvar o seu queijo por uns dias, mas quando menos esperar você vai ver fezes espalhadas por cantos que antes os ratos não frequentavam. Nunca se esqueça de que Eichmann foi capturado na Argentina e de que outros nazistas fizeram um estrago danado em Curitiba.

Então a verdade é que a tia Judite precisa ser reprimida, mas nós sabemos como a psique humana funciona, então diante da repressão e da impossibilidade de se manifestar, a tia Judite não vai se aguentar muito tempo, e logo sintomas vão começar a aparecer. Ela vai precisar encontrar uma válvula de escape. Nós já vimos essa história. Lembra em 2018 depois daquela brigalhada danada que fez ninguém mais ter coragem de dar um pio no zap da família? Pois é, para onde foi todo aquele ódio? É assim que começaram a surgir os subgrupos dos escorraçados. “Escorraçados de todo o mundo, uni-vos!”. Aquilo ali não é o fim da história, mas é o seu recomeço meus amigos. É nesses subgrupos que eles se juntam para cultuar, celebrar e reafirmar a criação de um facho uno e indivisível, um lugar onde finalmente não haja nenhum comunista pentelho ameaçando eles com a exigência do pensamento. Fascistas fogem do pensamento assim como os vampiros da cruz. O problema é que, inevitavelmente, é lá nesse submundo que serão chocados os ovos das serpentes que irão picar a próxima geração, assim como nós estamos sendo picados agora. Depois da euforia de sua ascensão, todos os fascistas vão se reunindo novamente nos esgotos - hoje digitais - para suportarem as dores de mais uma derrota. E o ciclo da história se reinicia de novo aguardando a chegada de um novo messias que novamente celebre e dote de orgulho o império da irreflexão. Infelizmente Bertolt Brecht estava certo: “A cadela do fascismo está sempre no cio”.

 Bueno, hoje somos nós que estamos com o desafio de derrotar as serpentes que eclodiram dos ovos que nossos bisavós não esmagaram. E é dos ovos deixados pelas serpentes de hoje que nascerá a picada que receberão nossos netos e bisnetos amanhã. Mas não adianta chorarmos os erros de nossos antepassados, a obrigação agora é assumirmos que temos uma responsabilidade com presente e, sobretudo, com o futuro. No presente, tudo o que nos resta, infelizmente, é apenas reprimir intransigente, contundente e obstinadamente quaisquer fagulhas do fascismo - especialmente as fagulhas, já que, como são covardes, primeiro os fascistas lançam as faíscas, depois o combustível. Mas para o futuro, nosso inimigo não é outro senão também o de sempre, aquele que está, aliás, no fundamento do fascismo: a irreflexão.

Para não estragar suas expectativas, nem alongar ainda mais esse debate, não vou entrar em algumas sugestões de o que seria central para isso, afinal eu também preciso ouvir um pouco. Vamos marcar uma conversa? Mas só para adiantarmos o nosso papo, eu não usei até aqui nem a palavra ética, nem política, mas no fundo é a incapacidade de pensar sobre o sentido ético e político dos fenômenos o que une a tia Judite, o tiozão e os corvos inteligentes ou burros. A nossa atitude natural é tentar nos aproximarmos cognitivamente da ética e da política, isso pode servir para muitas coisas, mas sem dúvida não vai nos ajudar a compreender o buraco em que estamos metidos. Então é isso. Vou ficando por aqui.

Ah, já ia esquecendo. Já que na finaleira falamos em ética e política, vale uma advertência muito importante para nos protegermos nesses tempos de pandemia: nós dissemos que, lamentavelmente, para reprimirmos o fascismo, nós precisamos combatê-lo com os mesmos meios e na mesma intensidade, correto? Agora você vê que isso nos rebaixa ao nível dos fascistas, não é? Somos obrigados a combater machado com machado. No caso da tia Judite, somos obrigados a combater as certezas da escuridão com as certezas do esclarecimento. Apesar destas últimas serem muito melhores do que aquelas, ainda assim elas são “certezas”, e isso também pode nos afastar do pensamento, já que acabamos nos despreocupando com a verdade. O risco disso é que o fascismo é como um vírus, e ao nos colocarmos demasiadamente próximo dele, podemos ser infectados. Não podemos esquecer que a capacidade de contágio e propagação do fascismo é muito maior do que a possibilidade efetiva de o eliminarmos de uma vez por todas. Fique alerta, cuidado para não ser infectado porque senão você pode morrer ou, pior do que isso, você mesmo pode se tornar um foco de contágio e sair por aí com uma vacina na mão contaminando os outros.

André Guerra - Psicólogo, Doutor e Mestre em Psicologia Social e Institucional
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[1] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-sua-tia-nao-e-fascista-ela-esta-sendo-manipulada/






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