Sociedade e Cultura

Suzano: um sintoma

O ocorrido lembra essa doentia necessidade humana: a satisfação dos nossos instintos, a partir do desmantelamento da comunidade da qual somos parte

14/03/2019 09:27

 

 
O que aconteceu em 13 de março de 2019 é fato que será lembrado durante muito tempo por grande parte da sociedade brasileira. Gulherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro, ambos ex-alunos da Escola Estadual Raul Brasil, na cidade de Suzano, Grande São Paulo, mataram oito pessoas, e, em seguida, se suicidaram. Esse último detalhe, inicialmente divulgado, foi reanalisado, e, segundo novas informações da polícia, um dos jovens atirou no outro para, em seguida, se suicidar.

Nesse primeiro instante, obviamente, os acontecimentos não se elucidaram por completo. Logo, muitas explicações surgem por parte das diversas mídias, tentando encontrar uma trilha de raciocínio plausível para tal matança: planejamento de cerca de 1 ano e meio, inspiração na chacina de Columbine[1] e até mesmo um pacto diabólico. Seguiremos, contudo, um curso diferente, por entender o ocorrido como uma manifestação de fenômeno social da mais alta relevância, merecedor de serena reflexão, a despeito da natural comoção despertada. Outrossim, as famílias das vítimas e dos atiradores, certamente em grande desespero, têm direito ao respeito e a avaliações éticas do acontecido.

Ante um cenário de notícias difundidas, muitas vezes sem a devida apuração, preferimos examinar o episódio sob um ponto de vista psicanalítico. Isso nos protegerá do sensacionalismo e da exploração da desgraça alheia como forma de atingir notoriedade. Nos dará também base sólida para a compreensão desse e de outros atentados similares contra a vida que poderão ocorrer no Brasil daqui por diante. Assim, convidamos aqueles que leem a Carta Maior, e constatam nela um veículo que privilegia o compromisso com a honestidade, a nos acompanhar.

Ao longo da sua vida, Sigmund Freud (1856-1939), fundador da psicanálise, comprovou que algo comanda as ações da espécie humana para além da consciência. Denominou essa dimensão da psique de inconsciente, o qual se manifesta em sonhos, atos falhos e chistes (piadas). A partir de então, e principalmente após 1920, o pai da psicanálise, formulou que temos um ímpeto para a destruição, uma pulsão de destruição, designada Thanatos, a personificação da morte na mitologia grega. Para Freud, a mente humana em sua dimensão mais irracional, caminha para a morte: lutamos para viver de forma racional e civilizada, mas somos, essencialmente, seres com grandes habilidades para provocar massacres. Podemos ter saído da condição de hominídeos vivendo em cavernas, porém, continuamos a recorrer aos nossos instintos mais primitivos para, em rastros animalescos, “resolver” nossos dramas mentais. De fato, se pensarmos nas duas grandes guerras do século passado, na situação caótica de países como a Síria e no verdadeiro estado de guerra urbana que matou mais de meio milhão de pessoas no Brasil nos últimos 11 anos, facilmente percebemos nossas toscas tendências nos empurrando à extinção.

O ocorrido em Suzano lembra essa doentia necessidade humana: a satisfação dos nossos instintos, a partir do desmantelamento da comunidade da qual somos parte. Percebemos também nessa dramática sequência, uma mensagem, possível de ser interpretada pela psicanálise, embora aparentemente inacessível à uma população diariamente conduzida aos descaminhos da ignorância: tanto os excessos em reprimir nossos impulsos, quanto a frenética corrida em satisfazê-los a qualquer custo – e, no nosso cotidiano, como bons atores, atuamos nessas duas cenas – são sintomas de grave desequilíbrio social. Somos motivados a viver em busca da satisfação imediata, mas também por vezes nos forçamos à abstenção de certos prazeres, com a esperança de, em um futuro próximo, atingir o pleno gozo.

Suzano, em nossa opinião, é mais um sintoma do contexto social adoecido em que estamos inseridxs. A evidência de suicídio de Guilherme e Luiz parece comprovar que, para além da irracional satisfação em matar, ambos ansiavam também a própria morte, como a chegada ao clímax da sua jornada. Aqui, o sintoma se apresenta como sucessor de ímpetos reprimidos, os quais exigiam ser satisfeitos. Ainda não sabemos a possível causa dessa suposta repressão, todavia, podemos supor que os dois jovens não suportaram o impacto de certas experiências. Aliás, somos uma geração incapaz de lidar com as próprias perdas. Incentivamos os mais jovens e a nós mesmos a esquecer as frustrações abusando do álcool, abusando das crenças religiosas e abusando das outras pessoas. Aprendemos a disseminar ódio contra as diferenças e o preço dessa falta de limites cobra seu custo.

Entre tamanha onda de infelicidade desmoronando sobre o Brasil – a ascensão do fascismo, Brumadinho, Mariana, Flamengo e agora Suzano – talvez seja esse o momento de profunda ponderação que estamos, há tempos, precisando realizar sobre qual o modelo de corpo social pretendido daqui por diante: o ódio com uma arma na mão ou o equilíbrio de nossas mãos, passeando, calmas, por entre as páginas de um livro...

Armando Januário dos Santos Sexólogo. Psicanalista em formação. Graduando em Psicologia. Professor de Língua Inglesa. E-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br

[1] Em 20 de abril de 1999, em Columbine, Colorado, Estados Unidos, dois jovens adentraram a Columbine High School, escola do Ensino Médio, com carros-bomba e armas de grosso calibre, matando 13 pessoas e ferindo outras 24.





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