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19/04/2020 11:48

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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“Eu gosto quando alvorece
Porque parece que está anoitecendo
E gosto quando anoitece, que só vendo
Porque penso que alvorece” (Aldir Blanc)

A pandemia se espalha por todo o planeta através de um vírus “invisível” de propagação veloz cuja origem é desconhecida e causa incertezas e dúvidas. Discursos em torno do vírus, da covid-19, circulam e se propagam velozmente. Da medicina, biologia, infectologia, epidemiologia à filosofia, da política à psicanálise, tentando cifrar e decifrar aquilo, algo de que não se sabe.

Freud em carta a Einstein em 1932: “E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das consequências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos imaginar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra”. Freud se referia ao tempo entre duas guerras mundiais. Se substituirmos a palavra guerra pela palavra vírus podemos repetir com Freud: “tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra o “vírus”.

Em Vivendo no fim dos tempos Zizek escreve que vivemos uma espécie de Unbehagen no capitalismo liberal em que o sistema capitalista global aproxima-se de um ponto zero apocalíptico. Seus “quatro cavaleiros do Apocalipse” _ hipérbole_ são a crise da ecologia, as consequências da revolução biogenética, a luta vindoura por matéria-prima, comida e água e o crescimento explosivo das divisões e exclusões sociais. Pergunta: “Quem articulará esse descontentamento?” E afirma: “Essa é a grande tarefa da esquerda”.

Para Badiou, que entende o papel da filosofia, como o voo de minerva ao crepúsculo (Hegel), a filosofia somente discorre sobre o evento após o acontecimento. Ao discorrer sobre Evento-Verdade Badiou propôs preservar o sentido da aposta e do risco, para não construir um pensamento do que “é”, para pensá-lo a partir do improvável, do indecidível, do acaso das paixões, das rupturas e das revoluções. E só então encontrar seu lugar no acaso, na incalculabilidade, em uma linguagem que sirva tanto para decifrar quanto para interpretar.

Já Lacan em seu aforismo enigmático nos convoca a cifrar e decifrar o inconsciente é a política, que nos insta a perguntar: que efeitos os significantes dos diferentes discursos terão sobre a subjetividade de nossa época diante da mutação do discurso do Mestre em discurso capitalista, associado ao discurso da ciência?

No debate contemporâneo, de tudo que li, foi do poeta e diretor do Centro de Estudos Sociais de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, que discerni uma direção. Ao recortar a queda do Muro de Berlim como um acontecimento que causou a dissociação entre os debates civilizatórios e os debates e processos políticos, pela imposição da (des)ordem capitalista vigente, haveria nesse momento uma nova articulação, em construção, entre processos políticos e processos civilizatórios, uma viragem epistemológica, cultural e ideológica que virá a sustentar as soluções políticas, econômicas e sociais.

Boaventura: “Nos últimos quarenta anos vivemos em quarentena, na quarentena política, cultural e ideológica de um capitalismo fechado sobre si próprio e a das discriminações raciais e sexuais sem as quais ele não pode subsistir. A quarentena provocada pela pandemia é afinal uma quarentena dentro de outra quarentena”. Superaremos.

E Freud desde 1932: “Quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo”.

Ivanisa Teitelroit Martins
Psicanalista, mestre em planejamento e políticas sociais pela London School of Economics, publicou artigos em revistas especializadas sobre a “lógica do inconsciente no nó borromeu” e “sintoma como índice da estrutura significante”

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