Sociedade e Cultura

Trabalho socialmente necessário

 

10/05/2020 14:07

''Você não pode prosperar se não estiver vivo'' - comício da National Nurses United, Oakland, Califórnia

Créditos da foto: ''Você não pode prosperar se não estiver vivo'' - comício da National Nurses United, Oakland, Califórnia

 

À medida que a pandemia desenvolve sua fúria, percebemos que o “trabalho necessário” não é Wall Street e seu mercado de ações ou a fabricação de carros, mas a saúde e o bem-estar da sociedade. Ou seja, o trabalho central da sociedade acaba sendo o que as feministas socialistas chamam de "reprodução social". Essas são as funções necessárias para sustentar a vida humana, sejam elas realizadas dentro ou fora de casa, sejam pagas ou não. Na maioria das vezes, isso é considerado "trabalho de mulheres" e, se for pago, geralmente é mal remunerado.

Em meio à pandemia, as mulheres estão super-representadas entre os trabalhadores considerados “essenciais” - 52% em comparação, mesmo sendo 47% na força de trabalho como um todo. Dos 19 milhões de profissionais de saúde dos EUA, quatro em cada cinco são mulheres. No extremo inferior da escala salarial da indústria, existem 5,8 milhões que trabalham por menos de US$ 30.000 por ano, com poucos benefícios. Desses, metade são pessoas negras ou pardas, 83% do total são mulheres. Surpreendentemente, os Centros de Controle de Doenças descobriram que 73% dos profissionais de saúde que foram infectados com o novo coronavírus são mulheres.

Com os governadores da maioria dos estados emitindo ordens de “ficar em casa”, vemos como esses trabalhadores de linha de frente são “vulneráveis”. Seja em supermercados, casas de repouso ou hospitais, nenhum desses locais de trabalho foi projetado para emergências. Ao contrário, a forma mais recente e cruel do capitalismo, o neoliberalismo, fez com que qualquer capacidade excedente desses lugares fosse cortada. Não há estoque extra em suas despensas ou depósitos e não há excesso de pessoal se alguém adoecer. Em vez disso, espera-se que a equipe trabalhe mais e faça a diferença. A bem da verdade, esse modelo just-in-time foi inventado para descobrir onde havia folga e forçar sua eliminação.

Mesmo agora, no auge da pandemia, enquanto os hospitais lutam para receber aqueles que estão doentes demais para ficarem em casa com o vírus, a gerência está demitindo centenas de profissionais de saúde. Como observou Trump, quando perguntado por que ele aboliu a equipe de pesquisa que estava prevendo a próxima pandemia, como empresário, ele não gostou da ideia de pessoas apenas ficarem por aí.

Os hospitais não estão preparados para emergências, porque não é daí que eles obtêm seus lucros. John Fox, CEO do maior complexo hospitalar do Metro Detroit - Beaumont Health - anunciou, no auge da epidemia, que está perdendo US$ 100 milhões por mês. Isto é principalmente o resultado de ter que reagendar cirurgias lucrativas e outros procedimentos ambulatoriais. Rentabilidade, não a saúde da comunidade, é a última linha do balnaço!

A falta de preparação leva a complicações graves. É por isso que enfermeiras de todo o país organizaram protestos inovadores - de festas de confecção de aventais [de saco de lixo], conferências de imprensa, comícios socialmente distantes a caravanas de carros - contra a falta de equipamento de proteção individual (EPI). Com um número entre um quarto e um terço da equipe do hospital em quarentena com suspeita de estarem infectados, essas ações reclamam por uma quantidade segura obrigatória de pessoal e que os hospitais coordenem os recursos em vez de competirem.

Incêndio descontrolado nas casas de repouso

No caso dos 15.000 lares de idosos do país, com 1,5 milhão de residentes, a equipe é composta por 88% de mulheres, muitas das quais são afro-americanas ou imigrantes. Como a maioria ganha menos de US$ 30.000 por ano, muitas fazem horas extras em mais de uma instalação.

Uma vez que geralmente as faltas por doença não são remuneradas e. tampouco, têm seguro de saúde adequado, quando ficam doentes precisam decidir entre ficar em casa sem salário ou ir ao trabalho e possivelmente infectar pacientes já vulneráveis. Com menos acesso a EPIs do que os trabalhadores do hospital, quando voltam para casa, elas, quase sempre, têm menos para se isolar. Como a linha de produção sem gorduras determina operar com recursos humanos insuficientes, a gerência geralmente os incentiva a ir trabalhar. Embora os governos locais regulem essas instalações, sob o neoliberalismo a regulação foi relaxada. Isso ocorre através de menos inspeções no local e, quando ocorrem inspeções, a gerência é, frequentemente, informada com antecedência.

Em Detroit, onde todos os residentes e funcionários do lar de idosos foram testados, 25% testaram positivo, sendo metade assintomática. Em 20 de abril, havia 124 mortes registradas. Particularmente, as casas de repouso de Nova York e Nova Jersey ficaram tão sobrecarregadas que os corpos foram empilhados em garagens. Os relatórios estão concluindo que pelo menos 20% de todos os mortos pela Covid-19 eram pacientes e funcionários de casas de repouso.

Talvez agora que a família de pacientes tenha levantado a questão de como a equipe de enfermagem é mal remunerada, haja maior conscientização de que a força de trabalho, predominantemente feminina, precisa não apenas de melhores salários, mas de condições de trabalho seguras e uma extensa política de licença médica remunerada para iniciantes.

Dificuldades para ficar em casa

Oito em cada dez trabalhadores de assistência domiciliar são mulheres. Muitas foram demitidas, mas não se qualificam para o auxílio desemprego. Muitas mulheres solteiras e com filhos enfrentam não apenas insegurança financeira, mas também uma carga maior de cuidados em casa.

Além das tarefas domésticas habituais, isso inclui trabalhar com os filhos nos trabalhos escolares. Com as escolas fechadas e a maioria das creches reduzidas, as mães assumem a maior parte dos cuidados infantis em um momento em que as crianças perderam o acesso a amigos e professores. Isso é particularmente difícil para mulheres com necessidades especiais ou mulheres cujos filhos têm essa condição. Também é um problema para as mulheres quando o aprendizado em sala de aula está ocorrendo on-line, mas não há internet em casa.

Claramente, a pressão sobre as mulheres para cuidar física e emocionalmente dos membros da família aumentou.

Segurança em casa?

As mulheres nunca foram "seguras" dentro de suas casas. Pelo contrário, este espaço sempre foi um local de abuso, para mulheres e frequentemente para seus filhos. Segundo o jornal The Guardian (28 de março), o abuso doméstico na província de Hubei triplicou em fevereiro e, à medida que o vírus se espalhou por vários países europeus, aumentou de 20 a 50%.

Todo membro da família está sofrendo o trauma de uma pandemia: pelo isolamento dos amigos e parentes, pela programação diária, pela exigência de compartilhar continuamente o espaço e pelo medo do futuro desconhecido. Sob estresse, uma certa porção de homens ataca suas parceiras. Com as escolas fechadas, é provável que a violência contra crianças, principalmente crianças menores de cinco anos, aumente. Ao mesmo tempo, mulheres e crianças têm menos oportunidade de se afastar da explosão ou de contar a alguém o que está acontecendo.

Sabendo que o comportamento abusivo aumenta em momentos de emergência, as linhas diretas de abuso doméstico divulgaram sua disposição de ajudar. Eles descobriram que há menos telefonemas, mas mais mensagens de texto e uso de e-mail. No entanto, o acesso de algumas mulheres a telefones celulares terminou porque os planos de telefonia celular são desconectados quando as despesas domésticas precisam ser cortadas. Por fim, a capacidade dos abrigos de fornecer às mulheres e crianças um lar alternativo é reduzida neste momento.

As soluções para a pandemia não podem ser um retorno à "normalidade", mas uma reconstrução da solidariedade social. Significa não apenas o programa Saúde para Todos, mas também considerar a habitação e a educação como direitos. Significa desenvolver redes sociais que diminuam a solidão que os indivíduos enfrentam e aumentem sua capacidade de fazer escolhas apropriadas. Significa priorizar o trabalho reprodutivo da sociedade, dando maior importância ao atendimento das necessidades das pessoas do que à produção de mercadorias.

*Publicado originalmente em Solidarity-us.org | Tradução de César Locatelli

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