Sociedade e Cultura

Um manifesto para psicopatas

Como as ideias de Ayn Rand se tornaram o marxismo da nova direita

27/08/2019 12:28

(Ilustração de Daniel Pudles)

Créditos da foto: (Ilustração de Daniel Pudles)

 
Tem chances de ser a corrente filosófica mais desagradável que o mundo do pós-guerra produziu. O egoísmo seria algo bom, o altruísmo mau, e a empatia e a compaixão seriam irracionais e destrutivas. Os pobres merecem morrer e os ricos merecem poder ilimitado. O ideário já foi testado e falhou espetacular e catastroficamente. No entanto, o sistema de crenças construído por Ayn Rand, morta em 1982, nunca foi tão popular ou influente.

Rand era russa, vinda de uma família próspera que emigrou para os Estados Unidos. Através de seus romances (como A revolta de Atlas, Atlas Shrugged no original) e sua obra de não ficção (como The Virtue of Selfishness), ela explica um sistema de ideias que chamou de Objetivismo. A principal teoria é que o único caminho moral é o mais puro interesse pessoal. Não devemos nada a ninguém, ela insiste, nem mesmo a membros de nossa família. Ela descrevia os pobres e desvalidos como "lixo" e "parasitas", e repreendia severamente aqueles que tentavam ajudá-los. Além da polícia, dos tribunais e das forças armadas, nada mais deveria estar a cargo do governo: nada de seguridade social, saúde ou educação públicas, nada de infraestrutura ou transporte público, nem serviço de bombeiros, regulamentação ou imposto de renda.

Publicado em 1957, A revolta de Atlas mostra os Estados Unidos debilitados pela intervenção do governo, um país onde milionários heroicos lutam contra uma nação de parasitas. Quando os milionários, que ela compara a Atlas segurando o mundo, retiram sua força de trabalho, o resultado é o colapso do país. Este é então resgatado por um dos heroicos plutocratas, John Galt, através de sua ganância e egoísmo não regulamentados.

Os pobres morrem como moscas, devido a programas do governo e a sua própria preguiça e irresponsabilidade. Aqueles que tentam ajudá-los são mortos por gás. Em uma passagem notória, ela defende que todos os passageiros de um trem cheio de fumaça envenenada mereciam seu destino. Um deles, por exemplo, era um professor que ensinava as crianças a brincar em equipe; a outra era uma mãe casada com um funcionário público, que cuidava dos filhos; e uma terceira era uma dona de casa "que acreditava ter o direito de eleger políticos, dos quais não sabia nada".

A filosofia de Rand é a filosofia do psicopata, uma fantasia misantrópica de crueldade, vingança e ganância. No entanto, como Gary Weiss mostra em seu livro Ayn Rand Nation (sem tradução e português), ela se tornou para a nova direita o que Karl Marx já foi para a esquerda: uma semideusa à frente de um culto milenarista[ii]. Quase um terço dos americanos, de acordo com uma pesquisa recente, leu A revolta de Atlas[iii], que vende milhares de exemplares todos os anos.

Ignorando o ateísmo evangélico de Rand, o movimento Tea Party deu a ela posição de destaque. Em toda manifestação do movimento há cartazes onde se lê "Quem é John Galt?" e "Rand tinha razão". Ayn Rand, argumenta Weiss, fornece a ideologia unificadora que “transforma uma raiva e infelicidade um pouco vagas em um senso de propósito”. Ela é promovida com entusiasmo pelos comunicadores Glenn Beck, Rush Limbaugh e Rick Santelli. E é uma espécie de guia espiritual dos republicanos no Congresso[iv].

Como todas as correntes filosóficas, o Objetivismo é absorvido também por pessoas que nunca o leram, mas ouviram falar. Acredito que se faça sentir também deste lado do Atlântico: nas novas exigências clamorosas pela remoção da faixa tributária para os muito ricos, por exemplo, ou entre os blogueiros debochados que escrevem para o Telegraph e o Spectator, que zombam da compaixão e da empatia, atacando os esforços para tornar o mundo um lugar melhor.

Não é difícil enxergar por que Rand atrai os bilionários. Ela lhes oferece algo que é crucial para todo movimento político de sucesso: um senso de vitimismo. Ela lhes diz que eles são parasitados pelos pobres ingratos e oprimidos por governos intrusivos e controladores.

É mais difícil ver o que estas ideias têm a oferecer aos membros comuns do Tea Party, que sofreriam graves restrições com o desaparecimento do governo. Mas tal é o grau de desinformação que satura esse movimento e tão prevalente é nos EUA a Síndrome de Willy Loman (o abismo entre a realidade e as expectativas) que milhões se oferecem, com alegria, para ser capachos de bilionários. Eu me pergunto quantos continuariam a rezar no altar de Ayn Rand se soubessem que, no final da vida, ela se inscreveu tanto no Medicare quanto no Seguro Social. Ela havia vociferado contra os dois programas, pois representavam tudo o que ela desprezava no estado intrusivo. Seu sistema de crenças, no entanto, não foi páreo para as realidades da idade e da doença.

Mas eles têm uma razão ainda mais forte para rejeitar sua filosofia: como o documentário de Adam Curtis mostrou, o membro mais devotado de seu círculo íntimo era Alan Greenspan. Entre os ensaios que escreveu para Ayn Rand estavam aqueles publicados em um livro que ele coeditou com ela chamadoCapitalism: the Unknown Ideal[v]. No livro, o leitor encontrará, explicada com crueza, a filosofia que ele levou ao governo. Não há necessidade de regulamentação dos negócios – mesmo para a construção civil ou a indústria farmacêutica – ele defende, uma vez que “a 'ganância' do empresário ou, mais apropriadamente, sua busca pelo lucro... é a proteção inigualável do consumidor”[vi]. Quanto aos banqueiros, sua necessidade de conquistar a confiança de seus clientes garante que agirão com honra e integridade. O capitalismo não regulamentado, ele sustenta, é um "sistema superlativamente moral".

Uma vez no governo, Greenspan aplicou a filosofia de sua guru ao pé da letra, fazendo lobby para cortar impostos dos ricos e para revogar as leis que limitavam a atuação dos bancos, recusando-se a regular os empréstimos predatórios e as negociações de derivativos que mais tarde derrubaram o sistema. Muito disso já é documentado, mas Weiss mostra que, nos EUA, Greenspan conseguiu maquiar essa história.

Apesar dos muitos anos que passou ao lado de Ayn Rand, e de já ter admitido que foi Rand quem o convenceu de que "o capitalismo não é apenas eficiente e prático, mas também moral"[vii], ele só a menciona em suas memórias para sugerir que foi uma indiscrição juvenil e, ao que parece, esta é hoje a versão oficial. Weiss apresenta evidências convincentes de que Greenspan continua sendo até hoje seu discípulo leal, tendo renegado a admissão parcial de fracasso que fizera no Congresso.

Mergulhada em sua filosofia, a nova direita dos dois lados do Atlântico continua a exigir o encolhimento do estado, mesmo que os estragos causados por essa política sejam visíveis em toda parte. Os pobres afundam, enquanto os ultra-ricos sobrevivem e prosperam. Ayn Rand, sem dúvida, aprovaria.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Clarisse Meireles

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[ii] Gary Weiss, 2012. Ayn Rand Nation: The Hidden Struggle for America’s Soul. St. Martin’s Press, New York.

[iii] Trata-se de uma pesquisa da Zogby, realizada no final de 2010, citada por Gary Weiss.

[iv] Para dar um de muitos exemplos, Paul Ryan, ex-líder do Partido Republicano no Congresso dos EUA, diz que “a razão pela qual me envolvi no serviço público, se eu tivesse que creditar um pensador, uma pessoa, seria Ayn Rand”. O que é um pouco irônico, tendo em vista o fato de Rand detestar a ideia de serviço público. Citado por Gary Weiss.

[v] Ayn Rand, Nathaniel Branden, Alan Greenspan and Robert Hessen (Eds), 1967. Capitalism: The Unknown Ideal. Signet, New York.

[vi] Alan Greenspan, Agosto de 1963. The Assault on Integrity. Publicado pela primeira vez em The Objectivist Newsletter, e mais tarde em Capitalism: The Unknown Ideal.

[vii] Em artigo de Soma Golden no New York Times, de julho de 1974, citado por Gary Weiss.



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