Sociedade e Cultura

Uma nova ordem

 

27/04/2020 14:57

 

 
“É urgente eliminarmos da mente humana a ingênua suposição de que seja possível sairmos da grave crise em que estamos mergulhados, usando o mesmo pensamento que a produziu.”
Albert Einstein

Quando procuramos um horizonte para o mundo após a grande tragédia humanitária que o COVID-19 está causando, ainda não conseguimos visualizar, de maneira segura, nenhum cenário para o “mundo globalizado” como conhecemos hoje.

Ainda não conhecemos suficiente as formas de manifestação, transmissão e ondas de propagação da doença e, ainda, a ciência não apresentou uma vacina eficaz para conter sua difusão. Para especialistas a projeção para a descoberta, experimentos e aplicação em massa de tal vacina poderá demorar entre 12 a 18 meses aproximadamente. Portanto, hoje mal sabemos até onde irá essa crise humanitária.

No momento estamos lendo/assistindo manifestações de preocupações e, em alguns casos, apontando que esta crise poderá remodelar o mundo e as ações humanas. Que este momento de reclusão coletiva possa reconfigurar valores humanitários e reconduzir a humanidade para um novo caminho ético de fraternidade e solidariedade.

UM ENCONTRO DE CRISES

Não precisamos ter bola de cristal para afirmar que quando o COVID-19 for controlado e ocorrer o retorno das atividades econômicas, sociais, políticas, dentre outras do universo coletivo, com certeza não encontraremos o mesmo mundo que o antecedeu, mas nada ocorrerá “naturalmente” para nos conduzir a um paraíso nas relações humanas. Essa não é uma assertiva de um pessimista, mas a conclusão realista de onde nos encontrávamos antes do COVID-19.

Em um futuro próximo o COVID-19 não poderá ser considerado como o precursor do desarranjo econômico que virá na pós pandemia. Na realidade, já estávamos mergulhados em uma crise econômica no ocidente e, com certeza, ele poderá sim, aprofundar o drama econômico anterior e levar a um colapso generalizado da “economia globalizada”. A crise atual pode nos apontar a dimensão real da economia mundial e, ainda mais, radicalizar contradições do presente e expor grandes desafios para a sociedade contemporânea.

Quando entramos no século XXI mergulhados nas chamadas políticas econômicas neoliberais, o ocidente parecia estar vivenciando o paraíso do mercado. Mas, a crise de 2008 apagou de forma decisiva os sonhos liberais e impôs de forma aguda uma nova realidade de “quebradeiras”, desempregos e retração nas economias centrais.

A consequência mais grave dessa crise foi, por um lado, uma concentração de riquezas, e por outro lado, a evolução das desigualdades sociais e o aumento da pobreza no ocidente. Portanto, dentro de uma visão panorâmica, problemas estruturais que já se manifestavam nos limites da produção capitalista se apresentaram de maneira dramática nos últimos anos:

O aprofundamento do desemprego estrutural pela introdução, cada vez mais acelerada, das novas tecnologias de informatização e robotização na produção econômica;

A convergência de capitais no “mundo das finanças”, transformando a especulação financeira alvo prioritário dos grandes investimentos;

A geração de uma superconcentração de riquezas, renda e propriedades nos últimos anos.

NO OLHO DO FURACÃO

A dimensão da crise econômica vindoura é uma incógnita, porém os sinais de um possível desastre são bem palpáveis.

Setores importantes da produção econômica nos grandes centros do capital estão totalmente paralisados e o que pode estar em funcionamento não será capaz de gerar riquezas suficiente para o “funcionamento normal” das economias modernas. Sonhar com a possibilidade de recuperação econômica em curto prazo, neste momento, é um delírio.

Com a paralisação das grandes produções econômicas de maneira abrupta, como está acontecendo em todas as nações no ocidente, a crise do desemprego poderá atingir números alarmantes e, em um futuro próximo, não haverá possibilidade de reintegração aos deserdados da produção.

O mercado financeiro mundial parou? Ainda existe, em meio a pandemia, a corrida de grandes “investidores” movimentando trilhões de dólares no oceano da lucratividade líquida da especulação financeira enquanto a “economia real” despenca?

Essas perguntas/ponderações podem indicar sintomas de uma possível depressão econômica internacional. Algumas respostas que podem estar diante dos nossos olhos e os seus elementos constitutivos, de uma possível depressão econômica, já estão colocados, restando saber quais serão as opções dos governos e elites econômicas mundiais. O que é certo: serão decisões no campo da política que moldarão as saídas para essa crise e elas poderão, ou não, ser destruidoras dos paradigmas estabelecidos.

ESTADO E MERCADO

A partir deste momento a definição de papéis na vida econômica de uma nação terá alcance histórico para o futuro da humanidade e já alimentam o debate que persiste ainda no século XXI: o caminho da salvação está no Estado ou no Mercado?

A experiência histórica é riquíssima, mas ela por si só será incapaz de apontar soluções definitivas. Portanto, alguns pontos devemos elencar como passíveis de observação:

Por um lado, na História do capitalismo as grandes depressões foram causadas pela disputa desenfreada de mercados; crença, as vezes cega, que a competição entre mercados e Estados era salutar para o desenvolvimento das economias nacionais; a confiança absoluta de uma demanda interminável e, por último, que o liberalismo é a única possibilidade teórica capaz de superar, por si só, as “crises sistêmicas” da produção burguesa;

Por outro lado, uma idealização de um Estado “regenerador” dos desequilíbrios das economias de mercado.

O que está em curso é um processo de desaceleração da economia globalizada e isso pode gerar uma redução drástica de investimentos na produção econômica e um aprofundamento nas desigualdades sociais. Nesta relação de interdependência da economia atual não haverá medida convencional ou ortodoxa que poderá solucionar problemas advindos de uma depressão generalizada.

Os que persistem no modelo neoliberal não entenderam seu esgotamento e que a crise de 2008 impôs limites a sua consecução. Somente uma crença submissa poderia levar um governo a sua aplicação para solucionar os problemas que enfrentaremos a partir deste marco histórico.

Mas também os que creem no modelo keynesiano, baseado num estado emulador da economia a partir de uma política tributária mais horizontal, gerando demandas, estabilizando o mercado e os empregos, que foi capaz nos anos 50/60 do século passado criar um Estado do Bem Estar Social, estão carecendo de um apelo renovador. A volta a uma macroeconomia keynesiana e a uma política de Estado nos moldes do “Welfare State” (Estado do Bem Estar Social) no estágio atual da produção será impossível, pois agregar mão de obra de maneira suficiente para superar os números do desemprego e criar uma renda nacional nos padrões do estado arrecadador dos anos 50/60, na minha maneira de ver, se tornaram inviáveis no processo de produção econômica atual.

A mim não resta dúvida que o Estado terá um papel central para uma futura superação da crise, mas não modelado no dogma do passado. A cooperação internacional será central na busca de soluções e, no mesmo caminho, haverá uma necessidade de reconstruir, redefinir e empoderar instâncias multinacionais como a ONU, restaurando um ambiente confiável entre as nações. A cooperação entre nações poderá orientar uma reorganização da produção, as trocas internacionais e novos marcos regulatórios no mercado financeiro.

Mas não haverá solução se a comunidade política internacional não redimensionar a tributação do mercado financeiro e das grandes fortunas. Estabelecer uma nova política fiscal que sinalize, a médio prazo, uma reconfiguração na produção e distribuição de riquezas no mundo. Constituir elementos que estimulem, por parte dos setores público e privado, os investimentos na produção e na geração de empregos. Decisões dessa natureza terão importância fundamental na reconstituição da produção econômica, na geração de emprego e renda e na estabilização das relações econômicas multilaterais.

Também poderemos assistir um estreitamento desse nacionalismo populista tosco que é incapaz de reconhecer a alteridade, as manifestações da diversidade humana, que desorienta a percepção republicana e democrática desconstruindo o Estado de Direito, e, a todo dia, alimenta os sentimentos mais grosseiros da humanidade. Para esses a guerra, seja nacional ou mundial, poderá ser a solução final para as disputas no mercado mundial e, dessa forma, debelar a crise atual.

Os sonhos humanitários, fraternos e solidários de alguns, precisam se encontrar com as duras realidades constituídas ao longo da caminhada do capitalismo. São da natureza desse modo de produção a riqueza e a miséria, os que têm muito e os que nada têm, as regiões ricas e as abandonadas, os jatinhos e a sola do pé. Essa crise poderá nos mostrar a verdadeira face das elites mundiais.

Portanto, a pergunta que incomoda: as diferenças e os dramas da sociedade contemporânea serão curadas pelo COVID-19?

Newton L. Camargo é professor de História Contemporânea e História Econômica na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB Vitória da Conquista

Conteúdo Relacionado