Sociedade e Cultura

É só o que falta: privatizar a nossa torcida por futebol

A eliminação do Red Bull no Paulistão corta as asas do discurso neoliberal que defende a transformação dos clubes em empresas, mais preocupadas com seus negócios do que com a formação esportiva

28/03/2019 11:04

O mascote do Red Bull diante de um estádio sem torcida. Torcer por quem? (Divulgação Red Bull Brasil)

Créditos da foto: O mascote do Red Bull diante de um estádio sem torcida. Torcer por quem? (Divulgação Red Bull Brasil)

 

Felizmente o time do Red Bull não seguiu adiante no Campeonato Paulista de Futebol. Parou nas quartas de final, eliminado pelo Santos.

E comemoro a desclassificação não apenas por ser torcedor do Peixe. Mas principalmente por ser torcedor de futebol.

Nada contra jogadores e comissão técnica redbulldianos. Tudo contra, aí sim, à ideologia que algo como um Red Bull representa para o futebol.

Já se ouve, e é verdade que não é de hoje, certos setores da imprensa esportiva exaltarem a privatização de clubes de futebol. Pedem que sejam gerenciados “como empresa”, por “executivos”, por “gestores técnicos, meritocráticos”, não por dirigentes eleitos pelos associados.

É o mesmo discurso de demonização da política e dos políticos migrado para o campo de futebol. É o ideário do neoliberalismo, da privataria. É o velho engodo: empresário é quem sabe gerenciar; dirigente de futebol é tudo cartola, traz os vícios da política.

É o discurso que traz o mito da “eficiência da iniciativa privada”, mito esse ancorado - no futebol, assim como na administração pública - no suposto combate ao suposto maior inimigo que é a corrupção. Não a verdadeira corrupção, qual seja, a da “eficiência da iniciativa privada” sustentada pelas práticas (legalizadas, inclusive) sanguessugas do erário; sim a corrupção banalizada, espetacularizada, comezinha.

Se o tal Red Bull – este ano sediado em Campinas, no próximo campeonato sabe-se lá onde – avança no Paulistão seria bem capaz de a lógica do clube empresa, nestes tempos de febeapá, ganhar força.

Já pensou? Era só o que faltava: deixarmos de torcer por nossas sociedades recreativas, pelas associações clubísticas que representam nossas cidades, nossas comunidades, nossos grupos sociais, nossas origens, para passarmos a empunhar bandeiras de marcas, de produtos.

Maior exemplo da bizarrice e do fracasso disso vem do vôlei e do basquete. Os torneios dessas modalidades são dominados por times montados por empresas. Há uma dificuldade gigantesca de enraizamento de equipes. De uma hora para outra elas somem ao bel prazer do patrocinador.

Os times que resistem, que formam atletas, cativam torcedores, são justamente os mantidos por clubes, como Minas, Pinheiros, Paulistano, ou mesmo os com destaque no futebol (Flamengo, Sampaio Correia), ou por projetos públicos de iniciação esportiva e de equipes de alto rendimento, como de São Caetano, Santo André, Bauru, Franca, Osasco, entre tantos outros. Entram e saem patrocinadores, e esses times sobrevivem. Porque representam gente, não mercadoria.

Wagner de Alcântara Aragão (@waasantista), jornalista e professor. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém a Rede Macuco, veículo de mídia independente (www.redemacuco.com.br)

Conteúdo Relacionado