Trabalho

A pandemia provocou uma queda de 7% no emprego em todo o mundo

A Organização Internacional do Trabalho prevê que o mercado de trabalho europeu será um dos mais afetados no segundo trimestre de 2020

09/04/2020 12:52

Uma fila de desempregados com máscaras espera para solicitar o seguro-desemprego em Santiago do Chile (Francisco Castillo/Agencia UNO/D/DPA/Europa Press))

Créditos da foto: Uma fila de desempregados com máscaras espera para solicitar o seguro-desemprego em Santiago do Chile (Francisco Castillo/Agencia UNO/D/DPA/Europa Press))

 
O emprego sofrerá um grande impacto no mundo inteiro, por causa do coronavírus. a Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula o que ocorre na primavera do hemisfério norte, em que as horas trabalhadas vêm caindo cerca de 6,7% em todo o mundo. Segundo as cifras, isso equivale a 195 milhões de empregos de tempo completo. “É uma queda extraordinária”, diz o diretor geral da OIT, Guy Ryder, na apresentação do relatório. Não obstante, a agência de Nações Unidas avalia uma grande quantidade de medidas que estão sendo adotadas pelos governos para proteger os postos de trabalho e amortecer o impacto. “Devemos reconhecer que muitos governos estão fazendo o correto”, adicionou Ryder, que também destacou essa organização carece de uma “coordenação internacional”.

A OIT já não toma como referência o sucedido na Grande Recessão de 2008 para corrigir as consequências desta crise. Tampouco a chamada Crise do Petróleo, dos Anos 70, ou o choque simultâneo da demanda e da oferta mais aproximada aos nossos tempos atuais. Agora, o organismo com sede em Genebra (Suíça) se une a um cataclisma muito maior: a Segunda Guerra Mundial, que inclui o coro de vozes que usa as similitudes bélicas para dimensionar o efeito econômico da pandemia. “A crise mais severa desde a Segunda Guerra Mundial: as perdas de emprego estão crescendo rapidamente em todo o mundo”, apontam os técnicos da OIT, em sua última avaliação.

Diferentemente do relatório anterior, que também tratou exclusivamente do impacto do covid-19, este estudo não analisa as previsões de desemprego feitas em março. Então, no pior cenário, houve um possível aumento de 25 milhões de desempregados em todo o mundo no final do ano. Agora, no entanto, a organização admite que “existe um risco muito alto de que, no final do ano, os números superem significativamente a previsão inicial”.

Os cálculos da OIT estimam em 6,7% as horas que deixarão de ser trabalhadas em todo o mundo no segundo trimestre deste ano. Para estabelecer a equivalência e atingir 195 milhões em período integral, a organização liderada por Guy Ryder se baseia em uma jornada de 48 horas semanais. Também calcula 40 horas por semana, e então, o cálculo cresce para 230 milhões de empregos em período integral perdidos.

A análise regional da entidade dependente da ONU situa a Europa no centro do furacão, com 7,8% de horas trabalhadas, o equivalente a 15 milhões de empregos em período integral, se um dia de trabalho semanal de 40 horas. O impacto também será notável nos estados árabes, onde as horas trabalhadas cairão 8,1%, e na região da Ásia-Pacífico, onde a queda chegará a 7,2%.

Segundo dados da OIT, a decisão de congelar a economia já afeta 81% da força de trabalho do mundo, de uma maneira ou de outra, o que em números reais são cerca de 2,7 bilhões de trabalhadores. No entanto, para chegar a esse número, o ponto de partida é retirado do grupo de funcionários que vive nos países que forçaram ou aconselharam de alguma forma a interromper a atividade econômica para combater a pandemia.

Trabalhadores informais são os mais atingidos

Embora com menos dados do que o esperado, o relatório da OIT dedica uma parte substancial do relatório a uma análise qualitativa da situação dos cerca de 2 bilhões de trabalhadores informais em todo o mundo. “O impacto na geração de renda é especialmente difícil para funcionários desprotegidos e para os grupos mais vulneráveis %u20B%u20Bda economia informal”, destacam os técnicos da agência de Genebra. A maior parte desse grupo de trabalhadores está em economias de baixa ou média renda – América Latina, Ásia e África, fundamentalmente – e eles não têm acesso (ou, se têm, é muito limitado) a serviços de saúde e proteção social. Portanto, eles também não são alcançados por praticamente nenhum dos programas de mitigação de impacto para trabalhadores que possuem um contrato reconhecido pelo Estado.

“O covid-19 já está afetando dezenas de milhões de trabalhadores informais”, comenta o texto. Na Nigéria ou no Brasil, o número de funcionários da economia informal afetados pelo confinamento é “substantivo”, segundo a OIT. E na Índia, um país onde 90% das pessoas trabalha na economia informal, “cerca de 400 milhões de trabalhadores correm o risco de aumentar sua pobreza durante a crise, forçando muitos deles a retornar às áreas rurais”.

Para tentar aliviar essa situação, alguns desses países, como o Brasil – apesar de o governo de Jair Bolsonaro ter se caracterizado por subestimar a importância da pandemia – já implementaram esquemas de renda básica para garantir uma subsistência mínima para a população, especialmente aqueles que estão fora da seguridade social e de qualquer tipo de benefício social. No caso do gigante latino-americano, serão 115 euros por mês (praticamente metade do salário mínimo) para cerca de 60 milhões de pessoas. “Sem as políticas corretas, esses trabalhadores enfrentam um alto risco de cair na pobreza, e enfrentarão maiores desafios na recuperação de seus meios de subsistência durante a recuperação”, alerta a agência das Nações Unidas.

*Publicado originalmente em 'El País' | Tradução de Victor Farinelli

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