Trabalho

As companhias aéreas e as gigantes do petróleo estão à beira do abismo - e nenhum governo deveria salvá-las

Esta crise é uma chance de reconstruir uma economia voltada para o bem da humanidade. Vamos salvar a natureza, não quem a destrói

01/05/2020 13:19

''Os governos têm a indústria do petróleo nas mãos - centenas de milhões de barris invendáveis, para ser preciso - da mesma forma que tinham os bancos nas mãos em 2008'' (BEAWIHARTA/REUTERS)

Créditos da foto: ''Os governos têm a indústria do petróleo nas mãos - centenas de milhões de barris invendáveis, para ser preciso - da mesma forma que tinham os bancos nas mãos em 2008'' (BEAWIHARTA/REUTERS)

 
Não Ressuscitem. Uma etiqueta assim deveria ser colada nos portões das indústrias de petróleo e automobilísticas e das companhias aéreas. Os governos devem dar apoio financeiro aos trabalhadores das empresas enquanto remodelam a economia para oferecer novos empregos em diferentes setores. E só deveriam apoiar os setores que ajudarão a garantir a sobrevivência da humanidade e do conjunto da biodiversidade.

Eles deveriam comprar as indústrias poluentes e adequá-las a tecnologias limpas ou fazer o que tanto pregam, mas nunca realmente fazem: deixar o mercado decidir. Em outras palavras, permitir que essas empresas quebrem.

Esta é a nossa segunda grande chance de fazer as coisas de maneira diferente. Pode ser a nossa última. A primeira, em 2008, foi solenemente desperdiçada. Enormes quantias de dinheiro público foram gastas na reconstrução da velha e imunda economia, enquanto se garantia que a riqueza permaneceria nas mãos dos ricos. Hoje, muitos governos parecem determinados a repetir esse erro catastrófico.

O "livre mercado" sempre foi produto de política pública. Com leis antitruste fracas, alguns gigantes sobrevivem enquanto todo o resto quebra. Se as indústrias sujas fossem rigorosamente reguladas, as limpas floresceriam. Caso contrário, vencem os espertos. Mas a dependência corporativa de políticas públicas no mundo capitalista poucas vezes foi maior do que é hoje. Muitas indústrias importantes dependem hoje inteiramente do estado para sobreviver. Os governos têm a indústria do petróleo nas mãos – centenas de milhões de barris invendáveis, para ser preciso – da mesma forma que tinham os bancos nas mãos em 2008. Na ocasião, falharam em usar seu poder para erradicar as práticas socialmente destrutivas do setor e reconstruí-lo voltado para as necessidades humanas. E cometem o mesmo erro hoje.

O Banco da Inglaterra decidiu comprar dívidas de empresas petrolíferas como BP, Shell e Total. O governo emprestou à easyJet 600 milhões de libras, embora, há poucas semanas, a empresa tenha torrado 171 milhões de libras em dividendos: o lucro é privado, o risco é socializado. Nos EUA, o primeiro plano de resgate inclui 25 bilhões de dólares para companhias aéreas. Em suma, o plano de resgate consiste em extrair o máximo possível de petróleo em reservas estratégicas e suspender as leis antipoluição, enquanto se congela a produção de energia renovável. Vários países europeus estão tentando salvar suas companhias aéreas e fabricantes de automóveis.

Não acredite quando disserem que fazem isso por nós. Uma pesquisa recente da Ipsos em 14 países sugere que, em média, 65% das pessoas querem que as mudanças climáticas sejam priorizadas na recuperação econômica. Em todos os países, os eleitores devem lutar para convencer os governos a agir pelo interesse público, não pelo das empresas e dos bilionários que os financiam e os pressionam através de lobistas. O desafio democrático permanente é romper os laços entre os políticos e os setores econômicos que eles deveriam regular ou, nesse caso, fechar.

Mesmo quando os legisladores tentam expressar essas preocupações, seus esforços costumam ser fracos e ingênuos. A recente carta ao governo de um grupo interpartidário de parlamentares, pedindo que as companhias aéreas só sejam socorridas se "forem mais longe no enfrentamento da crise climática" poderia ter sido escrita em 1990. Viagens aéreas são inerentemente poluentes. Não existem medidas realistas que possam, mesmo em médio prazo, fazer uma diferença significativa. Hoje sabemos que os esquemas de compensação de carbono defendidos pelos parlamentares são inúteis: todos os setores econômicos precisam maximizar os cortes de gases de efeito estufa, então transferir a responsabilidade de um setor para outro não resolve nada. A única reforma significativa é diminuir os voos. Qualquer coisa que impeça a contração da indústria da aviação está, portanto, impedindo a redução de seus impactos.

A crise atual nos permite um vislumbre de quanto precisamos fazer para mudar nossa trajetória desastrosa. Apesar das vastas mudanças em nossas vidas, as emissões globais de dióxido de carbono devem ser reduzidas em apenas 5,5% este ano. Um relatório da ONU mostra que, para ter uma chance razoável de evitar 1,5°C ou mais de aquecimento global, precisaremos reduzir as emissões em 7,6% ao ano na próxima década. Em outras palavras, o confinamento expõe os limites da ação individual. Viajar menos ajuda, mas não o suficiente. Para fazer os cortes necessários, precisamos de mudanças estruturais. Isso significa uma política industrial inteiramente nova, criada e guiada pelo governo.

Governos como o do Reino Unido devem abandonar seus planos de construção de estradas. Em vez de expandir os aeroportos, deveriam publicar planos para reduzir as permissões de pouso. Deveriam se comprometer com uma política explícita de superação dos combustíveis fósseis.

Durante a pandemia, muitos de nós descobrimos quantas de nossas viagens são desnecessárias. Os governos podem aproveitar o momento para criar planos para reduzir a necessidade de deslocamento, enquanto investem em caminhadas, ciclismo e – quando o distanciamento físico for menos necessário – transporte público. Isso significa calçadas mais largas, melhores ciclovias, ônibus como serviço e não como fonte de lucro. Devem investir pesadamente em energia verde, e ainda mais na redução da demanda de energia – por exemplo, por meio de isolamento térmico, melhor aquecimento e iluminação. A pandemia expõe a necessidade de uma melhor ocupação dos bairros, com menos espaço público para os carros e mais para as pessoas. Também mostra como precisamos do tipo de segurança que uma economia desregulada e pouco taxada não pode oferecer.

Em outras palavras, vamos fazer o que muitos já pediam bem antes do desastre: um New Deal Verde. Mas, por favor, vamos parar de descrevê-lo como um pacote de estímulo econômico. Estimulamos demais o consumo ao longo do século passado, e por isso enfrentamos um desastre ambiental. Vamos chamá-lo de pacote de sobrevivência, cujo objetivo é fornecer renda, distribuir riqueza e evitar catástrofes, sem estimular o crescimento econômico perpétuo. Vamos salvar as pessoas, não as corporações. Resgatar a natureza, não quem a destrói. Não desperdicemos nossa segunda chance.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles




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