Trabalho

Celebrar 1º de maio começa por levar os trabalhadores a sério

Nos Estados Unidos, os trabalhadores precisam de muito mais do que outro feriado

01/05/2020 15:21

Os membros do Sindicato dos Trabalhadores Gregos usam máscaras e respeitam as diretrizes de distância social enquanto protestam em frente ao Parlamento grego. (Aris Messinis/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: Os membros do Sindicato dos Trabalhadores Gregos usam máscaras e respeitam as diretrizes de distância social enquanto protestam em frente ao Parlamento grego. (Aris Messinis/AFP via Getty Images)

 

O dia 1º de maio é um feriado oficial em 66 países, incluindo a maior parte da Europa. Além de alguns feriados religiosos e o início do novo ano, quase não há feriados que abranjam tantas nações. Com suas raízes nas antigas celebrações agrárias da primavera, o feriado oficial de 1º de maio é o Dia Internacional dos Trabalhadores, comemorando as extraordinárias contribuições dos trabalhadores e da classe trabalhadora. Nos países em que o dia de folga é oficial e em outras 100 nações, a comemoração é realizada com marchas, protestos ou greves.

Mas aqui nos Estados Unidos, a data é pouco conhecida além dos imigrantes cujos países de origem a honram, ou entre os ativistas trabalhistas mais comprometidos. No entanto, o primeiro dia de maio comemora as vidas de quatro organizadores do trabalho nos Estados Unidos que foram enforcados em Chicago depois de serem falsamente condenados por jogar uma bomba contra um grupo de policiais.

O que levou ao Massacre de Haymarket, como o evento ficou conhecido, foi uma demanda para encurtar a jornada de trabalho sem redução de salário. Em 1884, a Federação dos Negócios Organizados e dos Sindicatos dos Trabalhadores (precursora da Federação Americana do Trabalho) votou em sua convenção anual que, a partir de 1º de maio de 1886, a jornada de trabalho seria de oito horas. Assim, em 1º de maio de 1886, protestos pacíficos ocorreram em muitas cidades dos EUA, com centenas de milhares de pessoas deixando de executar suas funções.

Em Chicago, um segundo dia consecutivo de ação atraiu multidões para uma siderúrgica que era palco de uma disputa trabalhista em andamento. Quando a polícia atacou os manifestantes, dois trabalhadores foram mortos e dezenas ficaram feridos. Os organizadores, apressadamente, pediram às pessoas que fossem às ruas pelo terceiro dia na Praça Haymarket da cidade para protestar contra os assassinatos. Durante este protesto, uma bomba foi jogada na polícia. Na confusão que se seguiu, sete policiais e pelo menos quatro civis foram mortos, com dezenas de outros feridos.

Diagnosticando o problema como "um surto agudo de anarquia", o New York Times prescreveu a aplicação de "uma arma Gatling" [uma metralhadora antiga] seguida de "cânhamo, em doses criteriosas". Oito organizadores do protesto da Haymarket Square foram presos e, apesar de não haver evidências para conectá-los ao atentado - muitos nem estavam na praça no momento - quatro foram executados em agosto de 1886. Um quinto acusado cometeu suicídio antes de ser enforcado, e as condenações dos outros três foram revogadas e eles foram libertados da prisão. As acusações contra os ativistas obviamente foram inventadas, com o objetivo de conter a crescente agitação trabalhista em Chicago e no país em geral.

Menos de dez anos e várias greves maciças depois, o presidente Grover Cleveland declarou a primeira segunda-feira de setembro como o Dia do Trabalho, uma ação projetada explicitamente para separar a classe trabalhadora do país de seus colegas em todo o mundo, bem como dar a aparência de que o Partido Democrata preocupava-se com os trabalhadores enquanto reprimia brutalmente as greves.

Com exceção de 1º de maio de 2006, o “Dia sem Imigrante” - provavelmente a maior greve de trabalhadores nos Estados Unidos em décadas - o Dia Internacional dos Trabalhadores mal é registrado aqui. Isso não é surpreendente: apesar dos aplausos para os profissionais de saúde, que estão sendo mortos por seus empregadores por não equipá-los com proteção individual, os trabalhadores e a classe trabalhadora não são valorizados nos Estados Unidos.

A podridão de nossa democracia reside na indignação com que a elite política despreza as contribuições diárias dos trabalhadores, remunerados e não remunerados. De donas de casa e mães, consideradas insignificantes, exceto pelo feriado, não-remunerado e não oficial, chamado Dia das Mães, ao trabalho imoral nas prisões, aos trabalhadores agrícolas labutando em condições semelhantes a de escravos, em campos que se estendem da Louisiana, no sul profundo, até a chique Califórnia e os verdejantes pomares de maçãs do Empire State [apelido do estado de Nova York], dezenas de milhões tinham sido explorados e não pagos por um longo tempo, antes que um recorde de 26,5 milhões de americanos registrassem pedidos de auxílio desemprego por causa da pandemia.

Os trabalhadores da Amazon estão sendo demitidos por defenderem suas próprias necessidades de proteção à saúde. Enfermeiras, com a formação adequada, estão sendo demitidas por irem trabalhar com um saco de lixo cobrindo seus uniformes hospitalares e postarem as fotos nas mídias sociais em seu tempo livre, sugerindo que seu equipamento de proteção é tão bom quanto sacos de lixo.

Além disso, há a série ultrajante de resgates federais projetados para engordar os bolsos enormes de CEOs e acionistas, enquanto intencionalmente privam os trabalhadores de salários, assistência médica, alimentação, aluguel, aquecimento e qualquer maldita dignidade. As reflexões de Mitch McConnell - que ele não tem intenção de ajudar os governos locais e estaduais a aliviar a dor esmagadora de milhões de pessoas demitidas, porque o mercado livre não produzirá equipamentos ou testes ou fará porcaria nenhuma para impedir a devastação - deixando claro que os resgates também foram projetados para ser um porrete, destruindo intencionalmente as pensões dos trabalhadores públicos em nome da austeridade pós-Covid.

As políticas federais aprovadas recentemente, começando com o corte de impostos de 2017 para os ricos e terminando com os resgates corporativos da pandemia, empanturram os super-ricos sugando a força vital dos trabalhadores. A falta de teto, a retomada de carros e a fome são a recompensa por todo o lucro que os trabalhadores obtiveram para os plutocratas no Vale do Silício e em Wall Street. Pensar no Dia do Trabalho pode dar uma sensação de revolta nos Estados Unidos, onde os trabalhadores precisam muito mais do que outro feriado. Embora, para ficar claro, muitos trabalhadores do país não tenham feriados, dias de folga, férias, tampouco planos de saúde, casas ou aposentadorias.

O número de trabalhadores desempregados está atingindo os níveis de Grande Depressão. Enquanto isso, o índice de miséria humana tem sido, há tempos, uma reminiscência do início da década de 1930 - se bem que isso pareça menos óbvio para as pessoas alegres no programa Market Place da National Public Radio. Eles, de alguma forma - até a Covid - sempre publicaram que a economia estava indo bem e Wall Street estava em alta, ignorando décadas de enorme subemprego, salários afundando; aumento do número de falências pessoais devido a problemas de saúde; aumento da dívida no cartão de crédito; aumento de viciados em opioides; e aumento das taxas de suicídio.

O número que deveria estar subindo é aquele que documenta as greves e o número de trabalhadores em greve nos últimos dois anos. Os lacaios corporativos nomeados por Trump praticamente destruíram o Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB), a agência criada para proteger os direitos dos trabalhadores. Depois de suspender, em nome da Covid, as eleições para sindicalização, quando os trabalhadores estavam desesperados para se sindicalizar, e depois restaurá-las, cinicamente, para realizar as chamadas eleições de ‘decertificação’ (o processo pelo qual os trabalhadores podem votar para excluir um sindicato), o NLRB não deixou escolha real aos trabalhadores nos Estados Unidos, além de agir como se tivessem um sindicato efetivo. Isso significa criar apoio da maioria absoluta e sair do trabalho, a menos e até que suas demandas sejam atendidas.

No entanto, neste Primeiro de Maio - além de imaginar imagens esperançadas de trabalhadores de todo o país entrando em greve por tudo o que lhes foi tirado -, precisamos sonhar mais alto do que garantir equipamentos de proteção individual, seguro contra acidentes ou pagamento dos dias parados por doença durante uma pandemia.

Precisamos iniciar planos de greve para o que realmente precisamos: o Medicare for All ( Sistema Universal de Saúde) e um Green New Deal (Novo Acordo Verde) agressivamente pró-sindicato, que garanta que todos os trabalhadores do atual setor de combustíveis fósseis possam manter seus contratos sindicais atuais, ao mesmo tempo em que permita, aos trabalhadores "essenciais", nos setores de baixa emissão de carbono (trabalhadores de assistência domiciliar e de assistência à infância, aqueles que colhem e entregam nossos alimentos etc.), alcançar novos acordos coletivos tão bons quanto os do setor de energia.

Precisamos planejar greves neste outono, em 2021, 2022 e até 2024, em que garantias de solidariedade são assinadas por dezenas de milhões de trabalhadores: “Nenhum de nós volta ao trabalho até que todos consigamos assistência médica gratuita no local de trabalho, licença médica [remunerada] garantida nacionalmente, férias [remuneradas], uma sociedade justa e uma democracia em funcionamento".

Toda greve que tive o prazer de ajudar a liderar envolveu variações de promessas de solidariedade, que são literais, declarações assinadas, compromissos públicos organizados área de trabalho por área de trabalho, turno por turno, para que os trabalhadores pudessem enfrentar, antecipadamente, as difíceis decisões de ficar mais tempo um para o outro e, portanto, para todos nós. Não se pode contar com a Suprema Corte no futuro próximo e o judiciário federal pertence a McConnell e Trump. Como vimos de Illinois a Wisconsin, o sistema eleitoral está falido a tal ponto que, sim, haverá algo chamado de eleição em novembro - mas não será justa ou livre. Será reprimida e roubada.

As greves são a única ferramenta que resta na cesta. Até encontrarmos o caminho para greves maciças, o país que conhecíamos, por mais problemático que fosse, estará liquidado. Realizar greves altamente eficazes - o que precisamos para restaurar esse país - é difícil como o inferno, mas todos podem aprender. Além disso, a ação conjunta supera facilmente a fome, a falta de moradia e uma vida inteira de dívidas ilegítimas empilhadas sobre nós por pessoas que lucram com a morte dos trabalhadores.

Neste Primeiro de Maio, comprometa-se a aprender sobre greves, sobre o que é necessário para criar greves majoritárias, como as que foram recentemente realizadas pelos educadores de Los Angeles, Chicago e Virgínia Ocidental. Elas tiveram quase 100% de participação, e um trabalho preparatório sério foi feito para criar amplo apoio da comunidade antes que a maioria absoluta saísse do trabalho.

Neste Primeiro de Maio, converse com alguém com quem você trabalha, com quem você mora, com seu vizinho. Comece um grupo de livros sobre como realizar uma greve efetiva. Comece a formar grupos para apoiar ativamente os trabalhadores que estarão em greve. Via Skype ou Zoom, da calçada à varanda da frente, comprometa-se em saber que, com a ausência dos tribunais, com a imprensa sob ataque, com as eleições destruídas de Wisconsin como um presságio da próxima eleição presidencial, a única salvação que cada um de nós tem é um ao outro.

Jane McAlevey é correspondente de greves do The Nation. Organizadora, escritora e acadêmica, atualmente é bolsista sênior de política da Universidade da Califórnia, no Centro de Trabalho de Berkeley. Seu livro mais recente, A Collective Bargain, Unions, Organizing & the Fight for Democracy, já está disponível na HarperCollins.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de César Locatelli

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