Trabalho

Lançamento do Desemprego Zero mostra divergências

Lançamento do Desemprego Zero mostra divergências

26/11/2003 00:00

Rio de Janeiro - O desemprego é apontado pelos brasileiros como o principal problema do país em todas as pesquisas de opinião pública realizadas nos últimos dois anos. Ainda assim, as principais organizações do movimento social não utilizaram, neste primeiro ano do governo Lula, a questão do desemprego como gancho para coordenar uma campanha nacional ou uma agenda de mobilizações que agregasse trabalhadores e excluídos em geral. Em 2003, ano em que os movimentos sociais experimentaram o inédito confronto com um governo do PT, outros temas, como a reforma da Previdência ou a reforma agrária, acabaram por se impor na agenda de lutas.
Essa realidade vai mudar em 2004, e a questão do desemprego promete ser - ao lado de temas como a reforma agrária e a política de biossegurança - uma importante esfera de debate e ação política para os movimentos sociais na construção de sua relação com o governo Lula. O pontapé inicial para isso foi dado nesta terça-feira (25) no Rio, com o lançamento nacional do movimento Desemprego Zero, que reúne entidades como a CUT, o MST, a Marcha Mundial de Mulheres e a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), entre outras.
O objetivo do movimento é pressionar o governo Lula para que este implemente uma política de promoção do pleno emprego no Brasil. Além de organizar suas bases para uma série de mobilizações em torno do tema ao longo do ano que vem, as entidades pretendem influenciar na elaboração dessa política, como deixou claro o coordenador do Desemprego Zero, José Carlos de Assis: “Queremos uma nova política em relação ao emprego e estamos dispostos a indicar quais serão essas políticas”, disse.
As lideranças presentes ao ato de lançamento do Desemprego Zero, no entanto, deram mostras de que o discurso dos movimentos sociais precisa ainda ser lapidado, pois a diversidade de abordagens é grande, e as divergências internas existem. Enquanto o MST prega a criação de um movimento nacional de desempregados, a CUT aponta como caminho para combater o desemprego a consolidação de algumas conquistas da agenda sindical, como a redução da jornada de trabalho. Os economistas, por sua vez, apostam numa série de medidas econômicas visando o controle de preços e a promoção de uma política de renda para os trabalhadores.
Imitando Roosevelt

Economista, o coordenador José Carlos de Assis - que trabalhou na equipe de Maria da Conceição Tavares - defende que o governo estabeleça um pacto com empresários e trabalhadores para garantir o controle dos preços. Ele sugere que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desempenhe papel semelhante ao do ex-presidente norte-americano Franklin Roosevelt, que nos anos 40, utilizando-se do déficit público, estabeleceu a política do New Deal para aumentar o nível de vida dos trabalhadores e impulsionar o crescimento econômico dos EUA.
Considerando a atual taxa de juros de 17,5% estabelecida pelo Banco Central como “excessivamente alta”, Assis criticou os fundamentos da atuação da equipe econômica do governo e disse esperar que o movimento Desemprego Zero possa ajudar numa esperada mudança de rumo: “O governo sabe que, enquanto o país tiver que produzir superávit para pagar juros para o sistema financeiro, não haverá a mínima condição de se acabar com o desemprego no Brasil”, afirmou.
CUT aposta nas frentes de trabalho

Segundo Radiovaldo Costa, diretor da Federação Única dos Petroleiros e representante da CUT no evento, a central sindical fará sua parte na luta contra o desemprego ao se esforçar, juntamente com o governo, para tornar realidade já no ano que vem algumas reivindicações da classe trabalhadora, como a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e a criação de frentes de trabalho em todo o Brasil.
As frentes de trabalho devem ser, num primeiro momento, o motor das mobilizações da CUT em torno do tema do emprego. Costa afirmou que o presidente da central, Luiz Marinho, está colaborando com Lula e o ministro do Trabalho, Jacques Wagner, na elaboração do plano de criação das frentes: “O governo vai criar um milhão de novos empregos”, disse.
A CUT espera que o governo atue junto aos empresários para que estes cumpram uma eventual redução da jornada de trabalho e não tentem torná-la inócua utilizando o velho estratagema das horas extras. As categorias que conquistaram o turno de seis horas, segundo Costa, são as mais prejudicadas: “Se os patrões respeitassem o turno de seis horas, o Rio de Janeiro teria, de cara, 5.000 novos postos de trabalho só no setor de petróleo”, disse.
O representante da CUT criticou a taxa de juros: “Só uma redução mais significativa pode gerar empregos”. Também não poupou empresários e banqueiros: “O país quer mudar, o presidente da República quer mudar. Será que os banqueiros e grandes empresários não vão querer dar sua cota de sacrifício, abrindo mão dessa taxa de juros que só beneficia a eles?”, indagou.
MST quer criar movimento de desempregados

Dirigente do MST, José Luís Patrolla citou as diversas vitórias obtidas pelo movimento ao longo dos últimos anos como justificativa para a proposta de criação de um movimento nacional de desempregados. O movimento, segundo ele, deve adotar uma agenda de lutas próprias já em 2004: “Só quem organiza desempregado no Brasil é o MST, e a maioria deles é desempregado rural. Os milhões de desempregados das cidades não têm um movimento próprio e, se tivessem, teriam grande poder de mobilização”, disse.
Dizendo que, para o MST, a correlação de forças com o governo Lula “é muito mais favorável” do que na época de Fernando Henrique Cardoso, Patrolla aposta no Desemprego Zero como marco da unificação dos movimentos sociais em torno do tema: “A questão do desemprego não está na pauta como a reforma agrária porque não tem um movimento organizado por trás”, acredita. O dirigente sem-terra anunciou que a discussão sobre o lançamento de uma campanha nacional pelo direito ao trabalho estará na pauta da próxima reunião da CMS, que se realizará em São Paulo no dia 1º de dezembro.
14 milhões de desempregados

Os números sobre o desemprego apresentados por José Carlos de Assis são impressionantes. De acordo com o Censo do IBGE, em 2000 - ano em que a economia do Brasil cresceu 4% -, cerca de 15% da população ativa se encontrava desempregada. Atualmente, de acordo com o economista, esta taxa deve estar num patamar de 17% a 18%: “Algo em torno de 14 milhões de brasileiros desempregados”, disse.
Segundo Assis, se somados os subempregados, os que exercem atividade ilegal, os marginais e os criminosos, temos um exército de 50 milhões de brasileiros. Outro dado alarmante é a alta taxa de desemprego (44%) entre os jovens de 16 a 24 anos: “Por isso aumenta o número de jovens trabalhando como sacoleiros, perueiros e camelôs, sendo oferecidos de bandeja para o crime organizado”.
Mais informações sobre o movimento Desemprego Zero em www.desempregozero.org.br.





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