Trabalho

No Catar, a Copa será em dezembro e com clima controlado no deserto

No país que jorra petróleo, Mundial será no fim do ano para driblar o verão. E o dinheiro comprará tecnologia para temperatura amena em pleno deserto

27/08/2018 17:41

Os operários são condenados ao trabalho forçado, enquanto Infantino se deixa seduzir e o xeque comanda o negócio (AF)

Créditos da foto: Os operários são condenados ao trabalho forçado, enquanto Infantino se deixa seduzir e o xeque comanda o negócio (AF)

 

No início, o Catar tinha tudo contra sua pretensão de sediar a Copa do Mundo de 2022. Temperaturas que superam os 40 graus nos meses de junho e julho, quando a Copa é realizada, nenhuma tradição na história do futebol e falta de infraestrutura de estádios. Mas os dirigentes do país do Golfo Pérsico, onde o petróleo jorra em abundância, decidiram que tudo isso podia ser superado.

Considerando viável a candidatura julgada há oito anos, a Fifa concordou em mudar a data da competição. Pela primeira vez, a Copa do Mundo será realizada em dezembro, quando as temperaturas extremas são mais clementes no Catar. Além disso, o xeque Mohammed bin Hamad bin Khalifa al-Thani, autoridade responsável pela candidatura do país, prometeu instalar tecnologia de ponta dentro dos estádios para conseguir temperaturas em torno de 20 graus.

O que o dinheiro não é capaz de fazer num país que tem a maior renda per capita do planeta e uma das maiores reservas de petróleo e gás natural? Anunciada em 2010, a candidatura do Catar – primeiro país do Oriente Médio a sediar uma Copa do Mundo – foi muito criticada no Ocidente. Houve até mesmo uma denúncia de corrupção. Em 27 de maio de 2015, promotores federais suíços abriram investigação sobre corrupção e lavagem de dinheiro para as copas de 2018 e 2022. No final, tanto a Rússia quanto o Catar foram confirmados como países-sede.

O país do Golfo Pérsico tem apenas 1,6 milhão de habitantes, mas o dinheiro do petróleo pôde garantir suas pretensões, ainda que tivesse de começar praticamente do zero a construção das infraestruturas para o evento mundial. Em 2016, um relatório da Anistia Internacional colocou as autoridades do pequeno país árabe na defensiva.

Assim como a Human Rights Watch, a Anistia confirmou o que qualificou de trabalho escravo de imigrantes chegados ao país em busca de postos na construção dos estádios. Mais de cem operários estrangeiros que participavam da construção do Khalifa International Stadium teriam sofrido abusos em seus direitos, segundo um relatório da Anistia publicado em 31 de março de 2016.

A ONG fez uma investigação de um ano e interrogou 234 operários originários sobretudo de Bangladesh, Índia e Nepal. Segundo o relatório, 228 trabalhadores afirmaram que seus salários eram inferiores ao que havia sido acertado antes de chegarem ao país. Eles tiveram de se submeter à nova realidade por terem se endividado em mais de 4 mil dólares para se deslocar até o Golfo.

Outros contaram estar sem receber salário e descreveram os alojamentos como sórdidos: 9 metros quadrados para oito pessoas em camas superpostas. Pior que tudo, a maioria dos trabalhadores teve seus passaportes confiscados, em violação das leis do país. Sete trabalhadores que queriam voltar ao Nepal para ajudar suas famílias por ocasião do terremoto de abril de 2015 ficaram, por isso, impedidos.

A Anistia Internacional considera essas práticas como trabalho forçado. A ONG acusou a Fifa e seu presidente, o ítalo-suíço Gianni Infantino, de “falta de iniciativa significativa”. Como era de se esperar, o Comitê Supremo do Catar, encarregado de supervisionar a organização da Copa de 2022, denunciou o relatório da Anistia como portador de informações que “projetam uma imagem falsa”.

Isso não impediu que a imprensa francesa desse grande divulgação ao relatório. No Le Monde Diplomatique, uma reportagem de junho de 2016 tinha um título contundente : “Escravos do século XXI no Catar”. A reportagem, assim como outros documentários da tevê francesa, revelava práticas nada recomendáveis para a reputação do país proprietário do clube francês Paris Saint-Germain e do grand magasin Printemps. Citava, inclusive, muitos casos de mortes por fadiga extrema e por trabalho sob temperaturas elevadas.

Investidores do Catar detêm, ainda, hotéis de luxo em Paris e na Côte d’Azur. O país do Golfo possui várias participações minoritárias em diversas grandes empresas francesas, além de participação acionária no banco inglês Barclays e no Credit Suisse.

Até a Copa de 2022, o rico Catar tem de superar ainda alguns problemas sérios no campo político. Isolado pela associação de países árabes formada por Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Iêmen e os Emirados, que há um ano romperam relações diplomáticas com o emirado, o Catar vai ter de provar que não financia organizações terroristas como o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e a Irmandade Muçulmana, além de grupos terroristas ligados ao Irã.

*Publicado originalmente na Carta Capital

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