Editorial

1º de Maio: o Brasil será o que a rua conseguir que ele seja

Hoje a palavra organizar é sinônimo de resistir; se você estiver fora de um comitê contra o golpe você está fora da História

01/05/2016 00:00

A história apertou o passo no país e quem não entender isso será atropelado pela velocidade dos acontecimentos.
 
Esse é um tempo em que jornais de hoje falam de um mundo remoto de ontem; tempo em que a tergiversação colide com a transparência; tempo em que nenhum discurso faz mais sentido dissociado da tríade: ‘organização’, ‘resistência’ e  ‘rua’
 
As sirenes da história anunciam que há confrontos intensos adiante.
 
De um lado, os interesses da maioria da população; de outro, a coalizão da escória parlamentar com o rentismo e a classe média fascista.
 
No arremate desse enredo a mídia insufla a venezuelanização do Brasil.
 
A crispação de um ‘país aos cacos’ adestra o imaginário social na resignação diante do arrocho que viaja a bordo do golpe ‘saneador’.
 
A propaganda do jornalismo embarcado sonega o principal traço da encruzilhada brasileira: a ofensiva golpista não é uma consequência da crise; ela é a crise.
 
Derrotar o golpe é o requisito para mudar a correlação de forças e destravar as verdadeiras reformas de que a sociedade necessita.
 
A saber:  reforma política, para capacitar a democracia se impor ao mercado; reforma tributária, para buscar a fatia da riqueza sonegada à expansão da infraestrutura e dos serviços; reforma do sistema de comunicação, para permitir o debate plural dos desafios brasileiros –que são poucos, nem se resolvem sem ampla repactuação do desenvolvimento.
 
Quem rumina desalento diante da tarefa menospreza o salto histórico percorrido nos últimos meses.
 
Há exatamente um ano, por exemplo, um outro comício do dia do trabalhador organizado no mesmo Vale do Anhangabaú foi desdenhado pelo noticiário –e mesmo por uma parte da esquerda.
 
Foi tratado como mero evento retórico.
 
Um ano depois, a Presidenta da República está no palanque do 1º de Maio, ao lado de Lula e todo desdém terá desaparecido.
 
Lula, Dilma, Boulus, Vagner Freitas, Stédile  falam a voz de um Brasil onde as lideranças já não podem ficar ausentes das ruas porque é nas ruas que as coisas acontecem.
 
E as ruas do Brasil já não dormem mais.
 
Um ciclo de grandes mobilizações de massa está em curso no país.
 
São elas que vão definir o novo horizonte do desenvolvimento, da política e da esperança.
 
Respira-se a expectativa dos campos de batalha no amanhecer enevoado de um confronto sempre intuído mas subestimado.
 

A engrenagem capitalista puro-sangue escoiceia o chão do estábulo. Aguarda os cavalariços do golpe que vem lhe trazer a liberdade para matar.
 
A chance de que o embate resulte em uma sociedade melhor depende da determinação progressista de assumir a rédea das forças xucras do mercado, para finalmente domá-las a favor do povo e da nação brasileira.
 
O golpe tornou quase inevitável esse confronto que o ciclo do PT sempre adiou em favor de soluções acomodatícias e avanços incrementais.
 
A natureza ferozmente excludente da elite brasileira, porém, revelou-se irredutível.
 
Sempre foi.
 
Em seu discurso no 1º de Maio do ano passado, o próprio Lula lembrou que a primeira universidade brasileira só foi construída em 1920.
 
Quatro séculos depois do descobrimento.
 
 Em 1507,  em contrapartida, 15 anos depois de Colombo chegar à República Dominicana,  Santo Domingo já construía sua primeira universidade.
  

Tome-se o ritmo de implantação do metrô em São Paulo, em duas décadas de poder tucano.
 

Compare-se a extensão duas vezes maior da rede mexicana, ou a dianteira da argentina e a da chilena.
 
O padrão não mudou.

 
Lula criou 18 universidades em oito anos. A elite levou 420 anos para erguer a primeira e Fernando Henrique Cardoso não fez nenhuma.
 
Há lógica na assimetria.
 
Para que serve uma universidade se não faz sentido ter projeto de nação; se a industrialização será aquela que a ALCA rediviva permitir e se o pre-sal deve ser entregue à Chevron?
 
O que Lula estava querendo dizer ao povo do Anhangabaú, então, tinha muito a ver com algo que agora assume nitidez desconcertante nos ‘planos’ do golpismo.
 
O desenvolvimento brasileiro não pode depender de uma elite que dispensa ao destino da nação e à sorte do seu desenvolvimento o mesmo desdém  do colonizador pelos povos oprimidos.
 
Uma elite para a qual a soberania é um atentado ao mercado, e não um requisito de construção da democracia social.
 

Reinventar  a soberania no Brasil do século XXI, assim, implica vencer o golpe ,expandir a fronteira da democracia, universalizar direitos e faze-lo à revelia das elites e de seus centuriões.
 
A devastação do mundo do trabalho e a supressão da cidadania social é a lógica que move o golpismo e a sofreguidão dos que frequentam seu bazar de ministérios.
 
É como se uma gigantesca  engrenagem cuidasse de tomar de volta tudo aquilo que transgrediu os limites de uma democracia que deveria ser apenas formal e avançou em direção  a uma verdadeira democracia econômica e social nos últimos anos.
 
O que se pretende pôr no lugar é um paradigma de eficiência feito de desigualdade ascendente. A Constituição Cidadã de 1988 precisa ser retalhada. O que restou da esfera pública, privatizado. A riqueza estratégica do pre-sal e o impulso industrializante contido na exigência de conteúdo nacional, devolvidos ao mercado e à sede das petroleiras internacionais.
 
A ambição é regredir aquém do ciclo de redemocratização que subverteu  o capitalismo selvagemente antissocial da ditadura.
 
A petulância chega a tal ponto que na véspera deste 1º de Maio, Michel Temer afagou a bancada ruralista com uma promessa historicamente obscena.
 
Consumado o ato de força, o golpe revisará todos os decretos de desapropriação de glebas para reforma agrária e demarcações de áreas indígenas assinados por Dilma nos últimos meses.
 
O confronto é aberto e não admite mais  hesitações.
 
No 1ºde Maio de 2015, o presidente da CUT, Vagner Freitas chamou para a frente do palco dirigentes da Intersindical e da CBT; chamou Gilmar, do MST; chamou Boulos, do MTST, e outros tantos; e através deles convocou quase duas dezenas de organizações presentes.
 
Vagner apresentou ao Anhangabaú, então, a unidade simbólica da esquerda brasileira, fixada em  torno de uma linha vermelha a ser defendida com unhas e dentes: a fronteira dos direitos, contra a direita; a da democracia, contra o golpe.
 
Premonitória, sua iniciativa, já não basta mais para deter um golpe agora em marcha ostensiva para sua consumação.
 
A  defesa da agenda progressista hoje implica mobilizar a resistência popular com alternativas concretas de organização: comitês de resistência da vizinhança; comitês de resistência nos locais de trabalho; comitês profissionais e sindicais; comitês de amigos; comitês de mães de alunos; comitês por escola...
 
Mas, sobretudo, urge dotar essa capilaridade de uma prontidão articulada por uma efetiva coordenação da frente progressista nascida no palco do 1º de Maio de 2015.
 
Hoje para afrontar o golpe; amanhã para vencer uma nova disputa presidencial, essa rede da legalidade é a tarefa inadiável dos dias que correm.
 
Por uma razão muito forte: sem ela o próximo 1º de Maio talvez encontre o Vale do Anhangabaú cercado por tropas de um golpe vencedor.
 
É preciso dar consequência organizativa a esse risco: o Brasil será aquilo que a rua conseguir que ele seja.
 
Quando o extraordinário acontece na vida de uma nação é inútil reagir com as ferramentas da rotina.
 
Hoje a palavra organizar é sinônimo de resistir, assim como o substantivo ‘rua’ tornou-se equivalente ao verbo lutar.
 
As lideranças populares não podem desperdiçar o significado histórico dessa mutação: as ruas do Brasil já não dormem mais.