Editorial

A tragédia, a mídia e a lógica da senhora Watanabe

29/01/2013 21:50

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A incapacidade de pensar sobre um acontecimento, o que implica fazer perguntas antes de oferecer respostas, e enxergar o todo a salvo de enquadramentos binários, não é um apanágio exclusivo do olhar conservador.

A esquerda também tem contas a acertar no balcão do reducionismo.

Mas a tentativa de desfrute político da tragédia de Santa Maria por parte de alguns veículos e colunistas (leia o desabafo de Flávio Aguiar) remete a uma terceira dimensão do problema.

Evidencia o risco enfrentado pelos protagonistas de um ciclo histórico quanto a sua estrutura de reflexão encontra-se obstruída por um poder capaz de empobrecer o olhar da sociedade sobre ela mesma.

A tragédia reafirmou a asfixiante insuficiência da pauta utilitarista que hoje domina o debate nacional.

O oposicionismo obcecado tornou a mídia incapaz de reagir mesmo à 'dor indescritível', evocada pela Presidenta Dilma.

Mais que isso.

Perdeu-se a dimensão narrativa, política e histórica da palavra solidariedade.

Pasma diante de uma população inteira em choque, a narrativa esclerosada assina seu atestado de irrelevância em momentos em que somente a solidariedade pode devolver sentido à vida e a sociedade.

A tragédia de Santa Maria questiona normas e procedimentos de segurança em recintos de frequência pública.

'Para que não se repita',disseram Dilma e Tarso Genro, a lei e a fiscalização terão que mudar.

Mas a extensão do que deve mudar vai além das normas técnicas.

Ela argui também o despreparo de redações uniformizadas diante da tragédia.

Uma parte importante do jornalismo revelou-se incapaz de apontar as portas de saída.

De acudir a tempo feridas insuportáveis.

De arejar o horizonte irrespirável.

E de sacudir a própria catatonia quando eventos irredutíveis pela sua extensão, emergência e intensidade escapam à pauta previsível e polarizada.

Como reagiria essa mesma mídia aferrada à batalha do dia anterior, diante de um acontecimento de dimensões ainda mais devastadoras em perdas humanas?

E se ele perdurasse ao longo de dias?

Teria ela grandeza para enxergar a Nação?

Ou persistiria na gulosa contabilidade de pontos em causa própria ?

Seria um interlocutor relevante do desespero para transformá-lo em criatividade e superação?

Ou cuidaria apenas de direcioná-lo aos seus alvos fixos?

Analistas esfericamente imunes à dúvida, dotados de conclusões antecedentes, de pronto levaram o país e o governo ao cepo de sua especialidade.

Sentenciaram diante de 234 mortos a incapacidade nacional para aspirar a qualquer coisa que extrapole a ração servida aos vira-latas em meia cuia de queijo Palmira.

Coube ao editor de Carta Maior, o gaucho Marco Aurélio Weissheimer, em tocante texto de primeiro hora (leia nesta pág) desnudar a profundidade do ferimento que atingia a alma de sua gente e a de todo o país.

E ainda assim vislumbrar o ponto de luz por onde recomeçar.

Que autoridade tem para pautar o debate de outras urgências nacionais aqueles que enxergam do país sempre, e exclusivamente, a sua derrota preliminar e inapelável?

Não há retórica na pergunta. Há apreensão com lacunas que enfraquecem o discernimento da sociedade.

Equilibra-se o Brasil em um delicado meio fio do seu desenvolvimento.

Avançar requer a redefinição de prioridades.

Estas pressupõem o deslocamento correspondente de massas de recursos reclamados na ponta do investimento produtivo.

Cada novo ciclo na vida de uma Nação tem sua pauta de reflexão estratégica.

Dela depende a construção das grandes maiorias que ordenam o passo seguinte do desenvolvimento.

Não se faz isso sem a mediação de uma caixa de ressonância plural, crítica e democrática.

Que saiba fazer perguntas antes de oferecer respostas; e seja capaz de pensar sobre o que enxerga e de enxergar o todo, a salvo de enquadramentos redutores.

Exatamente o que foi sonegado de pronto no episódio de Santa Maria.

Não foi um tropeço diante do imprevisto devastador.

A ausência desse descortino pontua ardilosamente o noticiário econômico, por exemplo. Há meses.

Armadilhas se ocultam no interior de manchetes; espertezas reforçam a emboscada do espírito.

Um alarme desta semana no noticiário financeiro:

'A senhora Watanabe trocou o Brasil pela Turquia'.

'Senhora Watanabe' é o código com o qual o mercado japonês identifica o investidor miúdo – donas de casa, casais aposentados, viúvas.

Pequenos poupadores, enfim.

São personagens intrinsecamente conservadores; realizam aplicações óbvias, mas no conjunto acabam tendo um peso significativo, deslocando massas de recursos pelo planeta, através de fundos e outras modalidades de investimentos.

Uma das aplicações preferidas das 'senhoras Watanabes' até recentemente eram papéis brasileiros.

Por razões óbvias.

Até meados de 2012 a taxa de juro do Brasil brilhava no topo do campeonato mundial.

O Japão patina há mais de uma década em crise. Debate-se emparedado entre a subserviência aos EUA e a competitividade do gigantesco vizinho chinês.

As taxas de juros no Japão são negativas; a economia se arrasta; não consegue escapar da areia movediça da deflação.

Nem com taxas de juros de 0,7% ao ano.

Mas a senhora Watanabe não perde tempo.

Toma empréstimos em ienes a juros quase negativos; aplica-os em títulos e ações nos pastos de engorda do dinheiro especulativo em todo o planeta.

Tem a companhia de um séquito de miúdos e graúdos nessa operação.

Com a reversão da curva dos juros no Brasil de Dilma – e a taxação do dinheiro arisco – a legião desiludiu-se com a praça brasileira.

'A senhora Watanabe trocou o Brasil pela Turquia'. Mas também pelo México, a Polônia...

Um empréstimo tomado em iene investido em títulos turcos faturou um ganho de 30% em 2012.

O tsunami de Watanabes à Turquia valorizou a lira - e rendeu um plus de outros 20% aos especuladores na reconversão cambial de regresso à origem.

No Brasil, deu-se o oposto.

A mesma aplicação da senhora Watanabe aqui renderia 9,8%.

No comparativo das Bolsas, idem.

Na mexicana, a senhora Watanabe obteve um ganho de 23% em dólares no ano passado; na colombiana, 22%; na Bovespa, seu passeio teria custado uma perda de 10% em dólares.

A diáspora dos Watanabes é narrada como sintoma de perda de confiança no país.

É o oposto. É sintoma de soberania de uma política econômica feita para ser um escudo na defesa de empregos, indústrias, salários, receita e investimento público.

Mas serve como 'evidência' de fracasso do 'intervencionismo desenvolvimentista' do governo Dilma.

O 'prejupizo' é notificado em cores vivas. Com o manejo de símbolos contundentes. E fontes de prestígio.

O 'Financial Times', por exemplo.

Que disparou um petardo contra a Petrobrás nesta 2ª feira:

'A Ecopetrol, a petroleira da amigável Colômbia, tornou-se a maior companhia do ramo na América Latina; maior que a Petrobras', afirma o jornal inglês.

Como assim?

Assim, explica o FT: 'políticas amigáveis' aos negócios atraíram os investimentos (...) as ações da Ecopetrol registraram uma valorização de mais de 50% (...) seu valor de mercado (na Bolsa) n sexta-feira bateu em US$$ 129,5 bilhões. O da Petrobras é de US$$ 126,8 bi.

Isso tudo apesar de a brasileira ter uma produção três vezes maior do que a colombiana;ademais das reservas do pré-sal, que projetam o Brasil entre os seis maiores produtores de óleo na próxima década.

Coube ao diretor-executivo da Ecopetrol, Javier Gutiérrez, em entrevista ao próprio jornal inglês, matizar as coisas:

'Não se pode comparar; a Petrobras é uma gigante... O valor de mercado é simplesmente um reflexo da confiança que o mercado deposita na Colômbia em geral, e na Ecopetrol em particular'.

A nuance fica escondia no corpo do texto.

Nuances tem pouco espaço no jornalismo das manchetes binárias.

O repto conservador ao governo do PT pede cores fortes.

E argumentos rígidos.

Diz o bem-informado jornal Valor Econômico que a visão de Aécio Neves, por exemplo, é que "o Brasil precisa abrir-se mais aos mercados e que o modelo de integração em vigor traz resultados pífios."

A tentativa de desfrute político da tragédia de Santa Maria não foi um ponto fora da curva.

O empobrecimento do olhar jornalístico sobre o país desenha uma curva ascendente; revela a extensa capilaridade de um endurecimento narrativo deformador.

Uma incapacidade de assimilação da vida nacional em toda a sua extensão.

Mesmo quando se depara diante da dor que fala a todos nós.


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