Editorial

Nisso nós acreditamos

A construção da nova hegemonia para resistir ao fascismo e transformar a sociedade

08/03/2020 00:00

 

 

Um sentimento de urgência perpassa todos os círculos progressistas do país.

Tornou-se um imperativo irrecorrível construir um consenso sobre as dimensões históricas da crise atual, traduzi-lo em uma reaglutinação de forças, uma reordenação de projeto e uma reinvenção da prática política.

Hoje, é forçoso dizer, não estamos à altura dos impasses dramáticos vividos pela nação brasileira.

Nem nós, nem a classe dos detentores da riqueza – razão pela qual personagens mórbidos dos intestinos da história desprendem-se da borra malsã para invadir a vida política em exalações nauseantes.

Aquilo que nos ameaça é nada menos que o desmanche da nação.

A apreensão de Carta Maior com os impasses nacionais não é descabida, nem exagerada.

Qualquer que seja o ângulo pelo qual se avalie a encruzilhada do país avulta a percepção de um esgotamento de instrumentos políticos, do qual o cesarismo desmiolado que nos sobressalta é um reflexo e, ao mesmo tempo, um acelerador da falência múltipla das estruturas de mediação do conflito social na vida brasileira.

Um ciclo de desenvolvimento se esgotou. Como se esgotara em 1930 sob os tormentos da crise capitalista de 29; como no pós-guerra, de ampliada margem de manobra para o avanço industrial e de direitos universais; como na encruzilhada reformista dos anos 60 resolvida pelo golpe violento; como nos estrebuchos hiperinflacionários e de asfixia das contas externas dos anos 80.

Como em todos esses divisores, um novo ciclo precisa ser repactuado.

A tarefa amarra-se como sempre a determinações mais gerais do movimento histórico de acumulação capitalista, com tripla singularidade.

De um lado, a desordem decorrente de uma desregulação neoliberal --sobretudo dos mercados financeiros, desprovida de contrapontos políticos e institucionais para ser equacionada.

Associada a esta, mas com a força sobredeterminante de um processo inexorável, a gravidade e a abrangência inéditas da crise climática planetária.

Por fim, a espiral de uma nova revolução industrial impulsionada pela automação, a robótica, a informatização de mercados e sistemas que varre empregos sem que a produtividade adicionada disponha de contrapartida socializante, traduzida em novas formas de viver e de produzir com maior bem-estar social.



Essa encruzilhada ciclópica se entrelaça a um vácuo de liderança política devastador.

O bicho que habita esse socavão escuro e turbulento chama-se fascismo --em sua gravosa versão nacional entreguista entre nós.

O embate entre o governo e o Congresso pelo controle de verbas não adensa a geleia que dissolve o chão sob os nossos pés.

Disputa-se aí a mesma farofa; interesses se tocaiam pelo comando da mesma rapina.

As mesmas elites que financiam um Congresso teleguiado por bancos e plutocracias levaram ao Planalto a capatazia truculenta que constrange, oprime e envergonha a dignidade brasileira.

A ordem unida aos dois pelotões é impor, a toque de caixa, um projeto de radicalização neoliberal na sociedade.

Trata-se, em essência, de revogar o pacto constituinte de 1988 sem consulta à nação.

A essa investida às bases do país à revelia do seu povo –e contra ele, o jornalismo de banco dá o cínico epíteto de ‘reformas’, para as quais clama por celeridade contra o relógio da revolta popular.

A sofreguidão se justifica.

A imposição de um anacrônico absolutismo de mercado esmagou a sociedade e a economia onde foi instaurado.

Rebelado há quatro meses, o Chile é o exemplo mais próximo e pedagógico.

A nação, o povo, a soberania, a natureza e o patrimônio nacional foram pasteurizados como insumos de um capitalismo desregrado.

Vale dizer: impenetrável à justiça social; incompatível com a plenitude democrática e imiscível com o equilíbrio ambiental.

O que está em andamento por aqui pauta-se pela mesma lógica dissolutiva.

A falta de legitimidade desse projeto, que só se sustenta pela truculência crescente, evidencia e agiganta a crise de hegemonia vivida em nossa sociedade.

Quem governa esse assalto predador tem o domínio dos meios, mas não o consenso da sociedade.

Com um complicador histórico.

O estupro não se processaria se a trincheira progressista não padecesse igualmente da fragilidade política para agendar na sociedade a vontade de construir uma nova ordem alternativa à espiral bárbara.

A sirene alertou o campo progressista por duas vezes em decibéis de estridência pedagógica.

Uma vez, na desconcertante incapacidade para arregimentar a rua e reagir à altura no impeachment fraudulento que retirou a Presidenta Dilma Rousseff do Palácio sem resistência.

Depois, no despreparo para prever e enfrentar o tsunami de fake news na derrota eleitoral para um personagem incapaz de se expressar em sentenças simples, num registro inerente ao repertório de crianças do fundamental 1.

Como reverter uma subalternidade paralisante nas condições adicionalmente adversas do quadro político atual?

Como sedimentar na sociedade brasileira hoje uma ampla hegemonia capaz de substituir a tirania dos mercados pela supremacia do bem comum?

Contribuir para responder a essas interrogações, inescrutáveis sem uma liderança política largamente enraizada na sociedade e dotada de elos ecumênicos com todas as expressões democráticas - é o propósito que encoraja Carta Maior a persistir e a renovar seu escopo editorial para o novo, difícil e instigante ciclo das lutas sociais que se desenha em nosso país e no nosso tempo.

Temos uma certeza: a única sensatez hoje é o desassombro para deter a marcha da barbárie, não apenas local, mas aqui bem representada.

Com essa certeza sedimentada em duas décadas de jornalismo crítico estamos repensando o repertório editorial de Carta Maior, seus propósitos, suas propostas e novas seções sintonizadas com a urgência dos dias que correm.

Novas colunas e colunistas vão analisar nuances pouco exploradas, mas ilustrativas da tentativa de sequestro da subjetividade brasileira pela atmosfera fascista ao redor.

É o caso da recente coluna semanal ‘Nem Freud explica’ que traz as reflexões de renomados psiquiatras e psicólogos da academia e de fora dela.

E o que dizer das colunas também recentes que estão tendo muito boa acolhida, com análises de ponta como as do jornalista Celso Japiassu que, em “ A Europa vista por dentro”, traz semanalmente análises sobre o Velho Continente? Ou o Diário de Bolso do jornalista José Roberto Torero?

É o caso também da 'Sua Voz na Conjuntura", pela Rádio Carta Maior, que desde o segundo semestre do ano passado busca incidir politicamente no momento conjuntural.

E é o caso ainda do novo espaço editorial aberto em apoio ao processo de revitalização do Fórum Social Mundial, cuja próxima edição planetária está agendada para janeiro de 2021 no México.

A série ‘Clássicos em Podcast’ é outra ferramenta da aposta na responsabilidade formadora e pedagógica de um veículo engajado na superação dessa encruzilhada histórica.

A escolha da obra e do intelectual apresentados aos nossos leitores nesta série mensal, que já inclui os podcasts de Herbert Marcuse, Hanna Arendt, Karl Marx, Theodor Adorno e Max Horkheimer, não poderia ser mais adequada a esse entendimento.

Antônio Gramsci é o marxista cuja reflexão inclui os ingredientes de ousadia e criatividade para transgredir os limites atuais do debate e da prática política no campo progressista e no diálogo com toda a sociedade.

Gramsci foi o intelectual que se debruçou com afinco no crucial tema da prática política adequada à construção de uma ampla liderança política e cultural das forças oprimidas, para erguer sua hegemonia mesmo em situação de radical subalternidade, como na Itália dominada pelo fascismo.

Não por acaso, o regime de Mussolini o condenou em 1928 a vinte anos de cárcere, em desumanas condições de interdição física, política e intelectual.

Em vão.

Gramsci protagonizou no cárcere aquilo que preconizava na luta social.

O pensador italiano produziu a maior parte de sua obra prisioneiro, num repto ao magistrado que o sentenciou com a frase símbolo do medo conservador às ideias que ontem --como aqui e agora-- afrontam a asfixia burguesa com a esperança em uma nova ordem ancorada no bem comum.

Estamos falando do pós-capitalismo, o que significa reabrir o debate sobre o socialismo que queremos e, sobretudo, da transição a esse passo seguinte história.



‘Por vinte anos’, disse o juiz diante de Gramsci, 'esse cérebro deve ser impedido de funcionar' .

O cérebro funcionou e ocupou com suas reflexões 33 Cadernos do Cárcere que discutimos neste mês de março, no capitulo da série mensal CLÁSSICOS em PODCAST, tendo como convidado o professor Álvaro Bianchi Mendez, diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

Boa audição - contamos com o seu engajamento na parceria ideológica e financeira indispensável à construção de uma hegemonia cultural e política de longo curso, sem a qual nenhuma transformação da ordem econômica e social será factível.

É nisso que acreditamos.

Joaquim Palhares, Saul Leblon e Carlos Tibúrcio.

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