Editorial

O paradoxo espanhol: indignação X restauração

16/10/2011 23:23

O tempo das grandes mobilizações está de volta. As multidões acodem às ruas para dizer que as políticas convencionais não respondem mais às angústias e demandas da sociedade. A rapidez e a abrangência dos acontecimentos autorizam dar a isso o seu nome: crise histórica. A ordem neoliberal tornou-se uma usina de desordem global. Seus líderes não lideram. Seus instrumentos não respondem aos estímuos. Suas soluções complicam. Os fundamentos do sistema perderam a aderência do conjunto.

Como um trem fora dos trilhos, o que seria o fim da História forma hoje um comboio desgovernado que marcha no impulso da inércia. Mas não cai. E não cairá por si.

Vem da Espanha reluzente de protestos na praça do Sol um alerta desconcertante. Madrid e Barcelona consagraram-se como o epicentro da indignação global. Desde 15 de maio, quando o grupo espanhol do 'Democracia Já', convocou uma manifestação na Praça do Sol, até os protestos em 92 países neste 15 de outubro passaram-se apenas cinco meses.

A história apertou o passo nesse curto periodo do calendário.

A passeta original de maio deu lugar a um acampamento de algumas dezenas de pessoas, expulsas pela polícia na manhã seguinte. Nos dias 17 e 18 de maio, então, um mar de indignados ocupou o lugar e montou ali um novo acampamento com milhares de pessoas que resistiriam por 79 dias.

O termo 'indignado' globalizou-se. Surgiu o 'Ocupe Wall Street que mirou com argúcia o alvo da indignação. Até que no último sábado esse sentimento tornou-se o novo idioma político global, compartilhado por um milhar de cidades em todos os continentes.

A Espanha honrou o simbolismo do Sol. Mas nem por isso imune às sombras. No momento em que suas praças rugiam a insatisfação de milhares de vozes, pesquisas de intenção de voto apontavam uma liderança folgada do Partido Popular, de Aznar, sobre o PSOE de Zapatero, nas eleições de 20 de novembro próximo. Vantagem suficiente não apenas para vencer, mas para ter maioria folgada no Parlamento.

A crise ameaça trazer de volta ao poder os profetas mais radicais da doutrina que a gerou. O PP tem em seu metabolismo o DNA do generalíssimo Franco. 'Don' José Maria Aznar, que foi o premiê pelo PP, de 1996 até a vitória de Zapatero, em 2004, não deixa dúvidas sobre o sentido dessa restauração.

Em entrevista neste domingo ao jornal El Universo, do Equador, Aznar, que ao lado de Blair notabilizou-se como um dos poudles de Washington, endossando as guerras e o extremismo conservador da era Bush, classificou as mobilizações do dia anterior na Espanha como "um movimento marginal anti-sistema, vinculado a grupos de extrema esquerda; sua representatividade não é importante na vida espanhola", tripudiou.

Ademais do alinhamento bélico e ideológico ao governo Bush, o PP de Aznar aproveitou o ciclo de alta liquidez e crédito fácil gerado pela desregulação neoliberal para promover um crescimento feito de baixa carga fiscal para as corporações, empregos precários e privatização irrestrita do patrimônio público.

A venda da Telefónica, da Repsol e da Ibérica, entre outras estatais gigantes do país, renderia 40 bi de euros ao governo do PP,beneficiado, ademais, por tranferências anuais da UE de 8 bi de euros, na transição para o ingresso ao bloco.

Zapatero herdou a fatura no fim da festa. Assumiu uma economia submetida a um duplo torniquete. De um lado, a incapacidade fiscal do Estado; de outro, um endividamento explosivo do setor privado, agravado pelo posterior estouro da bolha imobiliária que sustentava artificialmente a atividade e o emprego (precário). A Espanha tem hoje cerca de 700 mil imóveis encalhados. O que significa que seus bancos tem o equivalente em financiamentos sem demanda.

A taxa de desemprego no país ascende a mais de 20%.

Os socialistas espanhóis não souberam se diferenciar antes e durante a crise da ordem neoliberal.

Zapatero aprofundaria em vez de reverter a política fiscal submissa aos mercados. A taxação tardia sobre a riqueza, anunciada em setembro, é uma gota num oceano de ortodoxia que incluiu uma reforma constitucional inscrevendo na Carta o arrocho fiscal. A suspensão de direitos implementada nas duas reformas trabalhistas não abriu novas vagas e amesquinhou as existentes. Mergulhada em taxas de desocupação de 40%, a juventude distanciou-se dos socialistas. E eles das ruas.

A derrocada conduziu ao paradoxo espanhol deste fim de semana: ruas coalhadas de indignação progressista e a iminente retomada do poder pelo extremismo conservador do PP.

Falta pouco mais que um mês para o pleito na Espanha. A vitória do PP só é ameaçada nesse momento pela existência, ainda, de uma importante fatia de indecisos equivalente a 24% do eleitorado. A exemplo do que ocorrerá em algum momento também nos EUA, os indignados da praça do Sol estão sendo chamados a refletir - talvez precocemente - sobre as escolhas do poder. O poder de Estado. Os compromissos que a luta pelo poder impõe; a impossibilidade de ignorá-la; e, sobretudo, a escolha da melhor estratégia para pautar e influenciar o seu exercício em cada momento histórico. A ver.