Editorial

Ousadia ou mais valia: a fase 2 da crise

12/02/2012 23:51

Cerca de meio milhão de trabalhadores foram às ruas em Lisboa e Atenas neste final de semana para protestar contra a ofensiva conservadora contra direitos e salários. Portugal viveu uma das maiores manifestações de sua história (leia reportagem nesta pág).

Mais de 300 mil pessoas lotaram o Terreiro do Paço para expressar sua revolta "contra exploração, a desigualdade e o empobrecimento". Foram esses os termos da convocatória feita pela CGTP, a única central sindical não-pelega do país que lidera a resistência ao arrocho do governo Passos Coelho, aquele que cunhou poeticamente o suicídio da austeridade: 'para sair da crise temos que empobrecer', disse o menestrel da ortodoxia.

O plural, naturalmente, é majestático: enquanto empanturra os bancos com 47 bi de euros tomados do BCE, o premiê luso cortou o abono de Natal e de férias dos trabalhadores, suprimiu feriados, congelou salário mínimo e aposentadorias e pretendia elevar em mais meia hora a carga diária de trabalho, sem remuneração.

O mesmo amor pátrio levou o Parlamento grego a aprovar um corte de 22% no salário mínimo do setor público neste domingo. Não por acaso Atenas viveu um dia incandescente na mais violenta jornada de protestos da longa resistência de uma sociedade atacada pelo seu próprio Estado, pelo seu próprio governo e pelo seu próprio Parlamento (leia nesta pág.).

Essa também é a lógica da reforma laboral anunciada no último sábado pelo direitista Mariano Rajoy, na Espanha, que liberou o vale tudo do patronato contra os trabalhadores, cujos salários poderão ser cortados sem consulta, acordo ou negociação. A Europa mergulha assim de cabeça na fase 2 da restauração pós-crise.

Depois de recapitalizar a banca e tornar confortável a liquidez e a retomada dos lucros rentistas, seus mandatários decidiram apresentar a conta a quem de direito: os trabalhadores. Os sindicatos espanhóis marcaram uma greve geral unitária a partir deste domimgo, dia 19. As ruas rangem e rugem de Atenas a Madri. O problema é que o seu desespero encontra ouvidos moucos numa esquerda destituída do traço indispensável à liderança de uma época: a coragem para romper com as amarras que sufocam a sociedade no moedor do passado.

A hesitação - a mesma que leva o governo brasileiro, por exemplo, a se render ao velho roteiro privatizante, com medo de ousar e de ser engolido por prazos e demandas - assume no ambiente europeu a forma de uma guerra de classe aberta e frontal contra os trabalhadores, convocados a exudar mais-valia por todos os poros.