Editorial

Serra atinge seu ponto de depuração: é só terrorismo

27/10/2012 08:31

O ar está carregado de ressentimento tucano. A 24 horas do que se prenuncia como uma derrota histórica do PSDB em São Paulo, setas encharcadas de calúnia, sabotagem, sites falsos, panfletos apócrifos etc cortam os céus em busca de frestas no discernimento dos eleitores.

Serra destila desespero e atira a esmo, como um serial killer demencial que sai de casa para esgotar o arsenal de fúria, truques e fraudes: contra o PT, contra Haddad, contra Lula, Dilma, Zé Dirceu etc.

Quanto vale a sua palavra nessa hora?

Um exemplo-síntese destrincha essa contabilidade de forma pedagógica: sábado, 26 de outubro de 2002; faltam menos de 24 horas para o 2º turno das eleições presidenciais brasileiras. Lula está virtualmente eleito: segundo as pesquisas, o líder operário tem 67% dos votos válidos.

Serra, seu oponente, então com 60 anos, personifica uma derrota de envergadura histórica do conservadorismo: contra ele o PT está prestes a se tornar governo do país.

O tucano já balança o pé na cova da derrota. Mas ainda exercita o que sabe fazer melhor: o terrorismo político.

Na edição da Folha daquele domingo, 27 de dezembro, ele não economia esse 'talento': " Lula está tirando o corpo", acusa e dardeja: "O PT está dando a entender que não vai reajustar o salário mínimo".

Isso: o PT estava mentindo, dizia Serra ontem, como hoje. E, como hoje, buscava atingir a essência do partido, jogando-o contra a população mais humilde.

O partido nascido da luta operária contra a injustiça social, se eleito, privaria os mais humildes do pouco chão firme a que tem direito: a correção do salário mínimo. Só isso.

Foi seu último ganido antes da derrota, assim como hoje corneteia: Haddad vai fechar creches; o PT vai liquidar o sistema de saúde; Zé Dirceu e Genoíno, as lideranças petistas, de um modo geral, são crápulas, e não um patrimônio da luta social brasileira --o que não os imuniza de erros e equívocos porque são filhos desta sociedade e não da pureza sociológica que a direita exige da esquerda, mas da qual se exime.

Como hoje, em 2002 a mensagem do tucano na boca de urna atingia seu ponto de depuração para atingir a essência daquilo a que Serra se propôs na política brasileira: ser o líder e instrumento do conservadorismo para destruir o PT nos seus próprios termos. Único modo de anular -pela desmoralização-- a mais importante ferramenta de organização do campo popular já surgida no país, com todas as lacunas e contradições sabidas.

Em vez do 'mensalão', o alvo era o salário mínimo. Mas o método e a meta, idênticos aos atuais.

O exemplo de 2002 é oportuno porque extrapola a discussão ideológica e permite aferir matematicamente o peso e a medida das palavras do tucano na ante-sala do voto.

Às contas, portanto, sobre o salário que o PT não iria reajustar.

De 2002 a 2012, uma década de governo do PT, a política de valorização do salário mínimo registrou um aumento real (acima da inflação) de 65,96% . Esse ganho de renda alteraria os contornos da produção e do mercado interno brasileiro. Ao beneficiar diretamente cerca de 48 milhões de pessoas da base da pirâmide --cujos rendimentos estão associados ao mínimo-- inaugurou uma nova avenida para ancorar o desenvolvimento em bases menos excludentes; tarefa que está começando apenas, mas já reúne evidências do impressionante alcance se for explorada em todo o seu potencial.

Se a avaliação do que aconteceu com o salário mínimo no governo do PT ficar circunscrita à comparação entre os mandatos de FHC e Lula, o saldo é distinto. Ainda assim, o desmentido às palavras de véspera de José Serra é igualmente eloquente.

O aumento real do salário mínimo durante o Governo Lula foi o dobro daquele verificado no governo FHC: respectivamente, 58,7% e 29,8%.

Esse é o tamanho do despautério embutido no terrorismo feito por Serra na véspera de sua derrota para Lula, em 2002.

Contra todas as evidências históricas ele anunciava, na sempre disponível 'Folha de SP', que o PT, o Partido dos Trabalhadores, iria proceder de forma radicalmente oposta ao que de fato aconteceu.

Esse não foi o seu teto, porque Serra não tem teto quando se trata de calúnia e fraude.

Resta saber qual será a sua marca superlativa desta vez. Do que mais será capaz esse astuto rapaz, nas horas que antecedem o desfecho eleitoral em que o favoritismo original do PSDB caminha, novamente, para um desmentido contundente nas urnas. A ver.