Editorial

À greve, para evitar a "Guernica"

Há 80 anos o fascismo destruía Guernica para revogar avanços sociais e O Globo endossava a fúria mentindo, como hoje

25/04/2017 00:00

Marcos Diniz

Um registro curto mas claro incluído no especial do Valor Econômico sobre os 80 anos do bombardeio de Guernica, em 26 de abril de 1937, revela que o jornal O Globo manipulou o noticiário da crise espanhola à época, naquela que foi a primeira operação aérea massiva da história contra uma população civil.
 
A barbárie fascista dissimulada pelo jornalismo da família Marinho – da qual não há registro de pedido desculpa até hoje—imortalizou-se na arte de Picasso em um monumental grito de horror  de sete metros de comprimento por três de altura. 
 
Em óleo sobre tela o pintor deu universalidade a uma das mais torturantes sensações do martírio humano.
 
Aquela que despenca sobre a existência de homens e mulheres indefesos abalroados pelas grandes massas de forças que dominam a história de uma época.
 
Expressas em artefatos bélicos ou artefatos econômicos essas colisões implodem as referências do cotidiano num vácuo de destruição, perda, perplexidade, prostração e descrença.
 
Durante dias sucessivos ao massacre de Guernica o Globo flanou nesse vácuo e o alimentou.
 
Com a sua especialidade.
 
As manchetes do jornal sobre a responsabilidade pela tragédia, que passaria à história como um preâmbulo do que ocorreria depois em Auschwitz, primeiro levantariam dúvidas sobre a autoria.
 
Depois tornar-se-iam categóricas.
 
Todo o esforço do martelete conservador destinava-se a convencer a opinião pública brasileira de que a responsabilidade pelas 50 toneladas de explosivos despejados contra a comunidade basca pela Legião Condor, da força aérea nazista  --aliada do golpismo espanhol, seria dos ‘vermelhos’.
 
Sim, os ‘vermelhos’, dizia o Globo em manchete.
 
Os ‘lulopetistas’ da época.
 
Assim denominados os socialistas, os anarquistas, os comunistas, os trotsquistas, os democratas, os cristãos progressistas... 
 
‘Vermelhos’.
 
Culpados, segundo o jornal, pelo experimento nazista que testou em Guernica todo o arsenal destrutivo desenvolvido pela máquina de guerra aérea de Hitler, já de olho em alvos mais abrangentes.
 
‘Os vermelhos’, insistiria a ardilosa máquina de camuflagem de guerra.
 
Não a sublevação da extrema direita contra a República dos Trabalhadores, que vencera o pleito legislativo de 1936 --a exemplo do que já ocorrera em 1931, mas cuja repto não seria reconhecido pela elite do dinheiro e do poder.
 
Essa que partiu para o cerco e o golpe contra o mandato das urnas até desembocar no divisor de águas de Guernica.
 
Lembra algo?
 
Sim.
 
E o escárnio jornalístico, ainda que não apenas ele, também.
 
O conjunto enlaça a fúria da cavalgada fascistas do mundo de 1937 às horas decisivas de 2017 vividas no Brasil. 
 
Infelizmente neste caso a seta do tempo não se quebrou.
 
O martelete da propaganda agigantou-se.
 
Hoje opera uma máquina de jornalismo de guerra de dimensões inimagináveis há 80 anos.
 
O alvo agora são 200 milhões de ‘bascos’ submetidos a uma lavagem diuturna para convence-los de que a sede não deve ser saciada com água.
 
Prescreve-se ao contrário vinte anos de privação.
 
O austericídio e o politicídio --destinado este a desintegrar o Partido dos Trabalhadores, são ogivas siamesas domesmo bombardeio.
 
Compõem uma fogueira destinada a inocular prostração, desmoralização e descrédito na democracia e na sua capacidade de comandar o desenvolvimento, de modo a reduzir a sociedade a uma ‘guernica’ de joelhos diante do diktat dos mercados.
 
Sobretudo, porém, trata-se de camuflar a responsabilidade conservadora pela enorme bola de fogo de desmonte e destruição que envolve toda a estrutura produtiva brasileira nesse momento.
 
O rescaldo de um ano sob o maçarico golpista compõe uma fornalha de recursos e esperança só mitigada por quantidades industriais de cinismo midiático.
 
O Brasil é hoje um vasto cemitério de obras paradas (R$ 55 bilhões), fábricas fechadas, ferrugem encastoada em projetos estratégicos e um estuário de desemprego fluvial feito de 13 milhões de sobras humanas.
 
Na versão espanhola, em 1937, foram quatro horas de ataques aéreos sucessivos, com intervalos aleatórios para a troca do repertório que o engenho nazista queria testar contra alvos vivos e adensados.
 
Os seis mil habitantes da cidadela basca que na versão do Globo teriam se autoimolado.
 
Guernica estava no meio do caminho da sublevação do general de Exército Francisco Franco.
 
Devasta-la para atingir Bilbao tornara-se crucial para compensar o fracasso da tentativa anterior de tomar o poder central republicano em Madri.
 
A operação genocida irmanou duas conveniências.
 
Ambas impulsionadas pelo ódio à democracia social das frente amplas,  vitoriosas em duas das três eleições legislativas realizadas na Espanha depois que a crise obrigou a monarquia a ceder espaço à república e ao voto popular.
 
O republicanismo progressista espanhol assustava os donos de um mundo dividido entre a depressão de 29 e o desconhecido.
 
A elite, o alto clero e o Exército espanhol não aceitaram a continuidade da experiência republicana autorizada pelas urnas de 1936 por diferença mínima de votos contra a Falange direitista.
 
Pronunciamentos golpistas sucederam-se em diferentes pontos do país na forma de um jogral conhecido.
 
Conflitos irromperiam em seguida em escalada de violência, com anarquistas e socialistas já enfrentando o levante fascista no campo das armas.
 
Não, não é Caracas. É da experiência republicana espanhola que se fala aqui.
 
Guernica abrigara ‘vermelhos’ foragidos de um desses embates com tropas sublevadas.
 
A tocha de fogo na qual se transformou 80% do seu perímetro urbano pavimentaria o caminho da guerra civil que iria sangrar a Espanha durante três anos.
 
Era um preâmbulo do que viria depois em todo o mundo.
 
As vísceras do século XX estavam explicitadas ali opondo dois projetos de futuro.
 
O jornal O Globo se pôs a serviço de um deles, exercitando aquilo que sabe fazer melhor: manipular o discernimento da sociedade diante das escolhas decisivas da história.
 
A demonização dos ‘vermelhos’ é o esperanto dessa operação.
 
De jornalismo de guerra.
 
Em 1937, a mensagem escrita com ferro, fogo e sangue alertava para o embate cruento entre o anseio popular por democracia social e a resposta da interdição emitida pelos detentores da riqueza e da alma de um mundo que não cabia mais nos limites ditados por seus donos.
 
O primeiro ensaio de um governo progressista espanhol para ampliar esses limites havia durado pouco (1931 a 1933).
 
Mas o suficiente para assustar as elites pelo que falava ao corpo e ao imaginário das grandes massas populares.
 
Seu apelo reformista e anticlerical – a igreja espanhola era uma extensão do poder do dinheiro— descortinara possibilidades de uma outra sociedade mesmo sem efetivá-la.
 
Havia forte demanda por ela no ar.
 
Os acenos republicanos na Espanha traziam um pedaço da oferta.
 
Instituiu-se –insista-se, na Espanha em 1931--  o casamento civil, o divórcio e o voto feminino.
 
Os aluguéis foram congelados. Os salários reajustados.
 
A educação pública tornou-se o espaço laico destinado a propiciar às crianças um mesmo ponto de partida igual para todos.
 
 Os latifúndios tiveram sua extensão limitada.
 
As terras da igreja foram circunscritas.
 
Iniciou-se uma reforma agrária --cuja timidez, porém, desencadearia conflitos internos que enfraqueceriam a frente progressista e contribuiriam para sua derrota nas eleições seguintes, em 1933.
 
Mas não só.
 
A lufada de ar fresco atingiu em cheio o nó górdio que rege o poder na sociedade: as relações de trabalho. 
 
Aquilo que Vargas faria no Brasil 12 anos depois, em 1943 –e que o golpe agora se dedica a desmontar em 2017--   a República espanhola anunciaria pioneiramente em 1931.
 
A República dos Trabalhadores, assim autodenominada, decretou uma espécie de CLT que estendia às famílias assalariadas a jornada de oito horas de trabalho, férias remuneradas, direito à aposentadoria, sindicalização, licença maternidade etc.
 
A profusão das mudanças congestionadas na sabotagem conservadora, ademais das divergências no governo, desgastariam o poder republicano.
 
A derrota eleitoral para um diretório de forças conservadoras (CEDA) em 1933 jogaria a população espanhola em um liquidificador de regressão política e social de virulência equivalente à vivida hoje no Brasil.
 
A restauração agiu commeilfaut.
 
Como agem os batalhões com prazo de validade para operar o serviço sujo.
 
A mesma sofreguidão desavergonhada, a mesma sensação de um exército de ocupação a saquear direitos e patrimônio --como as escórias parlamentares em assembleia permanente contra o povo.
 
O efeito pedagógico do desmonte acendeu o discernimento popular.
 
 Em 1936, o conservadorismo seria derrotado nas urnas por uma frente progressista maior que a de 1931.
 
Deu-se então a escalada golpista.
 
O que a elite imaginava ser uma blitzkrieg, dada a supremacia de meios e recursos  --do judiciário ao exército, passando pelo dinheiro, a igreja e a imprensa—bateu de frente com a consciência popular agigantada pela curta mas intensa experiência republicana.
 
Franco não venceria, como venceu em 1939, não fosse o apoio decidido de Hitler e Mussolini ao golpe na forma de aviões, bombas e tropas.
 
Além do ‘experimento’ em Guernica, Berlim enviou 19 mil soldados para apoiar a sublevação, enquanto governos democratas da Inglaterra e França se abstiveram de uma solidariedade efetiva à legalidade.
 
A inferioridade republicana só não foi maior graças à mobilização das brigadas internacionais.
 
Elas trariam dezenas de milhares de voluntários de todo o mundo para a trincheira libertária e socialista, a maioria porém inexperiente a compor uma resistência  militarmente dispersa e politicamente fragmentada.
 
O conflito civil especialmente doloroso abriria os olhos do mundo para a encruzilhada da história em meio à desordem capitalista para a qual os mercados  só tinham –como hoje- um remédio a oferecer.
 
Esse que o golpe despeja agora no Brasil na forma de um bombardeio de artefatos de arrocho, desemprego, desmonte e alienação econômica, que ameaça desintegrar o futuro nacional em uma imensa ‘guernica’ de fogo.
 
A destruição do povoado basco explicitou o teor explosivo desse acerto de contas entre as possibilidades da democracia social e do planejamento público, de um lado, e o fascismo de outro.
 
 Muitos dos que ainda teimavam em não enxergar a gravidade da escalada viram nas  labaredas de Guernica o potencial destrutivo que a desordem simbolizada na quebra de 1929, nos EUA, encerrava.
 
 A incapacidade dos mercados para superar impasses geopolíticos e financeiros que se arrastavam desde a Primeira Guerra tornara-se uma ameaça à humanidade.
 
A desordem clamava por uma nova ordem.
 
As demandas por pão, terra, teto, trabalho, dignidade e poder popular ecoavam sua pertinência em um outro projeto de futuro acenado pela arrebatadora vitória socialista na revolução de 1917 na União Soviética.
 
As escolhas e suas consequências ganhavam transparência nas esquinas do mundo.
 
O poder de esclarecimento dos fatos se infiltrava no imaginário das nações.
 
À revelia do dinheiro e dos seus veículos de propaganda jornalística.
 
A democracia se tornava perigosa para as classes proprietárias.
 
Foi nesse divisor que a fábrica de manipulação do Globo reagiu à altura no Brasil.
 
Como Franco fez na Espanha.
 
Ambos atribuíram o crime à vítima: Guernica fora uma perversidade do sionismo comunista, acusava o generalíssimo.
 
A resposta definitiva de Picasso não se limitou à pintura.
 
Indagado por um oficial nazista em Paris se fora o autor de ‘Guernica’, fuzilou: ‘Não, foram vocês’.
 
A roda-gigante da manipulação, das interdições e sacrifícios atingira um ponto de saturação em que o efeito adicional de cada linha a mais de cinismo é o descrédito.
 
Estamos falando de 1937 na Espanha...
 
O que avultava era o mesmo anseio hoje órfão de respostas no Brasil.
 
 Por novos espaços de futuro;pelo direito de escolher e experimentar novas formas de se viver –indissociáveis da renovação em modos sustentáveis de se produzir; por uma repactuação generosa capaz de resgatar a sociedade da areia movediça da polarização imobilizante, da qual não se escapa facilmente depois da imersão...
 
A guerra civil espanhola durou três anos; o poder franquista estendeu-se por quase quarenta anos.
 
Pegou carona na escalada nazista e sobreviveu a ela, como um tampão imprescindível à tarefa de asfixiar a respiração libertária que só agora com o Podemos volta a injetar ar fresco ao pulmão político espanhol.
 
Derrotar uma experiência social não esgotada por meio da repressão, da judicialização, da mentira, da guerra e das bombas não significa vence-la, mas interdita-la.
 
A diferença ajuda a entender a longeva manutenção da salmoura repressiva na sociedade espanhola, da qual só se libertaria quase quatro décadas depois da guerra civil, a partir da morte de Franco, em 1975.
 
A estreiteza da opção fascista esclarece boa parte do longo eclipse armado.
 
Mas não esclarece tudo.
 
As divisões passionais no campo republicano entre socialistas, democratas, anarquistas, comunistas e trotsquistas  –que espelhavam divergências internacionais naquela bifurcação entre duas guerras, uma revolução socialista e uma crise sistêmica do capitalismo-- dificultariam sobremaneira a construção das linhas de passagem imprescindíveis entre o presente de uma sociedade cindida e o futuro promissor acenado pelo projeto progressista.
 
Esse emparedamentodo conflito empurrou a solução para o campo das armas, onde a direita tinha maior capacidade de arregimentação bélica, como mostrou a tragédia de Guernica.
 
Erguer pontes para trazer um pedaço da classe média e do PIB para fora do golpe é o desafio correlato que as forças progressistas enfrentam hoje no Brasil.
 
Não é um desafio a ser enfrentado no veludo da retórica.
 
Trata-se de uma capacitação de força e consentimento a ser sedimentada nas ruas.
 
 Mas em torno de uma proposta de repactuação do país e do seu desenvolvimento.
 
A direita, o ódio elitista, o preconceito belicista contra as demandas populares jamais sentará à mesa de negociação se não for conduzida a isso pela mudança na correlação de forças e no imaginário da sociedade.
 
Seu projeto é a longa salmoura franquista expressa no Brasil na suspensão da Carta de 1988 por vinte anos.
 
Colocada diante desse esbulho, segundo o qual os desafios do desenvolvimento se tornam insolúveis na vigência da justiça social, a sociedade se reduz a um objeto inerte, um estorvo do mercado.
 
 O regime autoritário se impõe por dedução.
 
Para desarmar essa bola de fogo o campo progressista não pode ceder no essencial.
 
A pedra angular da travessia consiste em saltar o deserto conservador com o impulso da ousadia e da criatividade que fizeram a bandeira republicana espanhola, de fato, ser vista como a porta para um novo futuro.
 
Um futuro no qual caiba um modo de vida urbano renovado, com arquitetura singular para a solução dos problemas habitacionais e de mobilidade, mas também de integração e segurança.
 
Um futuro no qual o repto de soberania nopré-sal configure uma ‘opção norueguesa’ de uso sagrado dos recursos num  pacto de futuro sustentável e justo para a infância brasileira de hoje e de amanhã.
 
Um futuro no qual salvar os rios urbanos e preservar os demais, por exemplo, seja uma aposta coletiva na regeneração do convívio humano com a natureza, impulsionando os requisitos intrínsecos a essa interação.
 
Um futuro no qual a  educação de qualidade para todos seja a nova catedral da cidadania.
 
Um futuro no qual a prática da democracia na solução das divergências –inevitáveis—se intensifique em sintonia com as oportunidades de comunicação e escuta forte inscritas na tecnologia digital.
 
Um futuro no qual o eixo principal de consenso seja fazer do Brasil uma referência mundial de inovação em políticas públicas, na cooperação para o desenvolvimento convergente de todos os povos.
 
É essa ocupação desassombrada da rua pela ousadia, e do imaginário pela possibilidade de um outro futuro, que poderá abortar a longa noite conservadora determinada a encapsular a nação em uma guernica de recessão e desencanto --com o país, com a política e com a vida.
 
Há uma pedra no meio do caminho.
 
A repactuação de um futuro amplo entre visões distintas do presente requer a largueza generosa de princípios e horizontes.
 
Esse sempre foi um apanágio dos libertários, dos socialistas, dos comunistas, dos cristãos progressistas, dos democratas e liberais sinceros.
 
Da república de todos, enfim.
 
Acolhedora e desassombrada, assim deve ser a ocupação das ruas e da pauta política para, de fato, alcançar também os corações e mentes fatigados de toda a gente brasileira.
 
Parar hoje em greve geral é o repto da guernica brasileira para mover a engrenagem virtuosa de uma verdadeira república de iguais.
 
Arriba.







Créditos da foto: Marcos Diniz