Esquerda (ser de)

A expressão designava o conjunto dos deputados que se sentavam à esquerda no plenário da Assembléia constituída na Revolução Francesa

17/02/2019 15:38

 

 

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A expressão cujo significado se quer explicitar tem um uso eminentemente político, desde a sua origem, que designava o conjunto dos deputados que se sentavam à esquerda no plenário da Assembléia constituída na Revolução Francesa.

Aqueles representantes da esquerda buscavam sempre, nos seus votos e nas suas argumentações, alargar e aprofundar o sentido da igualdade, na Lei e na vida, entre os “cidadãos” da República. Numa definição bem esquemática, os deputados que se sentavam à direita enfatizavam a primeira reivindicação do trinômio revolucionário, a Liberdade, enquanto os da esquerda exigiam uma ênfase tão grande ou maior no segundo termo do trinômio, a Igualdade.

Talvez a radicalização destas posições tenha levado a um certo esquecimento da terceira expressão do grande lema revolucionário: a Fraternidade entre os cidadãos.

Liberté – Egalité – Fraternité

Ser de Esquerda, politicamente falando, significa, pois, desde há cerca de duzentos anos, defender a igualdade estrutural entre os seres humanos, a Igualdade entre todos perante a Lei e perante a Sociedade, respeitando suas individualidades de sentimentos e preferências.

A Direita, por oposição, sustenta que os homens são diferentes na sua essência, por sua natureza, uns valorizam mais o trabalho, a poupança, a previdência, outros o prazer da vida em cada momento; uns trazem da natureza algum talento especial, artístico ou executivo, outros se conformam às qualidades mais comuns da maioria; uns são mais ambiciosos e buscam com mais esforço o destaque e a liderança, outros preferem a alegria natural da vida comum. E assim, pela força da natureza, dizem eles, se formam as desigualdades econômicas naturais entre as pessoas dentro de uma sociedade, que tendem a se acentuar, também naturalmente, pela natural proteção dos pais aos filhos. Desigualdades que acabam sendo naturalmente reconhecidas e aceitas por todos.

Para nós, de esquerda, esta é uma visão ingênua e interessada da realidade da vida, uma visão que se recusa a perceber o fato óbvio de que as desigualdades das posições sociais não se manifestam no curso da vida mas estão presentes na própria estrutura da sociedade, desde o nascimento das pessoas.

A Esquerda não aceita estas desigualdades que mar cam as pessoas desde a origem, do nascimento, desigualdades da própria estruturação socioeconômica das sociedades, as chamadas classes sociais que caracterizam as sociedades estruturadas segundo o modelo de produção capitalista.

As pessoas, no mundo capitalista, já nascem pertencentes a uma dessas classes, que têm, cada uma, seus interesses, sua visão própria do mundo; interesses que forçosamente se conflitam com os da outra classe.

Por isto mesmo, na concepção clássica da sociologia política, a Esquerda está associada à defesa do socialismo como modelo mais evoluído de estruturação produtiva capaz de eliminar ou reduzir profundamente estas diferenças de classe, características da propriedade privada dos meios de produção.

Na conceituação mais atualizada e abrangente, entretanto, que engloba o debate político dentro do próprio modelo capitalista, a Esquerda aceita o modelo como um interregno mas combate o processo de acentuação das desigualdades que o próprio modelo produz através do mecanismo do Mercado. E exige uma ação política do Estado sobre o Mercado, no sentido de, permanentemente, corrigir esta deformação e reduzir as desigualdades.

A Esquerda compreende, assim, todos aqueles que não aceitam como natural esta grande divisão da sociedade entre pobres e ricos, consideram-na uma teratologia do próprio sistema capitalista, do sistema de propriedade privada, e exigem, enquanto durar este sistema, a intervenção explícita do Estado, através de políticas econômicas e sociais que sejam eficazes na correção desta injustiça, na redução das diferenças de classe.

Vejo aí a essência da Esquerda.

Consequência deste posicionamento estrutural que a caracteriza primordialmente, a Esquerda amplia sua visão e sua ação nas políticas específicas de defesa de segmentos da sociedade oprimidos ou rebaixados pelo sistema capitalista: camponeses sem terra, trabalhadores sem formação, mulheres em geral, negros em geral, homossexuais, e transexuais.

É possível, sim, transcender o âmbito mais estrito da política e caracterizar posições de esquerda e de direita nas concepções gerais de cada ser humano no que concerne à vida em geral. Direitistas seriam os mais conservadores, que valorizam a ordem, o respeito à ordem, sempre a ordem estabelecida; e esquerdistas os que anseiam pelo que consideram avanços na organização da sociedade; desejam e se empenham na superação da ordem estabelecida por avanços sociais cujo sentido seria dado pela evolução de longo prazo da História, da própria Humanidade.

A Humanidade já aceitou ditaduras cruéis, monarquias absolutas, privilégios de classe, de nobreza,, já aceitou a escravidão de seres humanos, penas cruéis, de crucificação, de empalamento, já aceitou a tortura como método corriqueiro de extrair a verdade, coisas que hoje nos horrorizam. A noção de Direitos Humanos tem só duzentos anos, tendo sido reafirmada com mais ênfase há cerca de 50 anos, depois da calamidade da segunda guerra.

Guerreiro Ramos, nosso grande sociólogo do ISEB, afirmava que direita e esquerda são atributos da sociedade humana que existem e existirão sempre, havendo certamente uma direita e uma esquerda na organização do Vaticano, como havia no Nazismo do Terceiro Reich, e também no Comitê Central do Partido Comunista da URSS.

Reiterando a definição pela clivagem que evoluiu desde a caracterização original, pode-se dizer que a Direita valoriza a realidade, o presente, o concreto, a Direita teme o aventureirismo dos idealistas; enquanto a Esquerda busca a evolução sempre no sentido humanitário, luta pela construção de um futuro mais justo, de realidades mais aperfeiçoadas pelo sentimento da igualdade e da justiça entre os seres humanos.

Neste sentido mais largo, pode-se abrir, esquematicamente, uma divisão muito ampla entre as pessoas, segundo uma clivagem do seu modo de ser, ou da essência do seu pensamento, ou sentimento, chamando-as de Direita ou de Esquerda, a partir do seu sentimento, e mesmo do seu comportamento no dia a dia, em relação à divisão das pessoas entre ricos e pobres.

Numa tal perspectiva, não se pode definir o “ser de Esquerda”, sem se referir, e definir, paralelamente, o “ser de Direita”, faces de uma mesma moeda.