Ser de esquerda, hoje. Faz sentido? Qual?

 

10/02/2019 11:06

 

 
Ao longo deste ano, quando completa 18 anos de atividades, Carta Maior presenteará seus leitores fomentando uma série de debates, junto a seus colaboradores, sobre  questões básicas do exercício político. Frente a tamanha ignorância e ao permanente ataque das fake news, criamos a editoria Debate Maior que abordará conceitos como esquerda, direita, progressismo, liberalismo, entre outros, esclarecendo temas muito ditos, mas pouco debatidos.

E, como não poderia deixar de ser, nossa primeira questão em debate é: o que é ser de esquerda? Acompanhe a análise de Reginaldo Moraes (Unicamp):

Não, não vou, não pretendo nem sei cozinhar uma formula para produzir a boa esquerda. Na verdade, já ajudei a produzir alguma coisa boa e muita coisa ruim nesse terreno, mas não é hora de fazer tal balanço do passado, embora ele esteja nos alicerces destas impressões sobre o futuro imediato.

Começo com uma curiosidade. Uma editora inglesa bastante conhecida publicou recentemente uma Enciclopédia de Politica, com um volume dedicado especialmente ao binômio Esquerda e Direita.

O livro oferece, logo no começo, duas listas de nomes, para cada um desses rótulos. A lista da direita é bem menor – e acho que haveria pouca duvida a respeito da pertinência. Todo mundo ali, creio, preferiria mesmo ser enquadrado naquele hemisfério e não no outro.

A lista da esquerda é duas vezes maior – o que já seria estranho, porque aparentemente a esquerda é minoria desde o começo dos tempos em que essa divisão se criou. Meu amigo mineiro Bruno Reis tem uma perola a esse respeito: a esquerda é sempre time visitante, joga no campo adversário. E como tal, a esquerda está em minoria nos que entram no estádio.

Mas a lista da esquerda não é apenas maior – ela certamente suscita espantos para muitos. Entre os “esquerdistas” estão nomes como Harry Truman, por exemplo. Entre muitos outros estranhos no ninho. Gente que, aposto, gostaria de ser excluído desse time.

Ser de esquerda é algo assim tão indefinido ou abrangente? Parece que é.

Já houve época em que esquerda era identificada com socialismo, comunismo, uma forma de organizar o sistema produtivo e a sociedade sem a propriedade privada dos meios de produção. A esquerda era “focada na classe operária” e sonhava ser, também, “enraizada na classe operária”. São coisas diferentes - e essa diferença nos assombrou e ainda assombra. A classe operária não se constituiu como referência porque fosse maioria no conjunto da população recenseada – não era. Era referência da esquerda por conta do potencial de futuro que se lhe atribuía. O soviet (poder legislativo e executivo da sociedade revolucionada) opunha-se ao parlamento a partir de uma espécie de ampliação adaptativa: uma transposição, para a escala do país, do modelo de controle operário imaginado para a grande fábrica.

Acontece, porém, que a esquerda, na história, sempre foi mais do que socialismo, estrito senso. Esteve, por exemplo, nas revoltas cartistas que reivindicavam direitos políticos para os trabalhadores, nas lutas que pretendiam reformar a jornada de trabalho ou a educação pública, que pretendiam ampliar os direitos civis dos negros e das mulheres, dos povos colonizados – para citar apenas algumas dos muitos embates políticos em que a humanidade se viu envolvida nestes dois séculos e pouco de capitalismo industrial. O grande abraço dos fracos e oprimidos.

Em grande medida, a esquerda capitaneou o movimento que civilizou o capital e lhe impôs os bons modos que o moinho satânico do mercado recusava com unhas e dentes. E para isso a esquerda precisou abrigar diferentes vozes e vontades. Foi esse o segredo dos momentos em que ela esteve próxima do que se chama de hegemonia, da capacidade de modelar um novo sistema de senso comum.

Por isso, a lista da enciclopédia precisava mesmo ser grande e aparentemente disforme. Incorporava um economista liberal como Stuart Mill, simpatizante das cooperativas e sindicatos, defensor dos direitos da mulher. A esquerda pode incorporar nessa lista um aristocrata como Keynes – que, por outro lado, explicitamente afirmava que jamais estaria no partido do proletariado, porque pertencia ao mundo elegante da Inglaterra.

Nos tempos em que estamos – e não são nada claros – ser de esquerda é uma sinuca: requer muita “dureza” mas, também, muita cintura. O diabo é descobrir como ter princípios sem ser principista, como ser pragmático sem ser oportunista. Não tem receita, não tem algoritmo para solucionar.

Se tudo isso faz sentido, em primeiro lugar, ser de esquerda é ter uma atitude. Parece pouco, mas não é. Volto à frase do Bruno Reis. A esquerda é time visitante, joga no campo do adversário, tem que saber disso. Sua torcida é minoritária dentro do estádio, ainda que ela tenha muito mais gente “lá do lado de fora” da bilheteria.

Jogar como time visitante é catimbar o adversário e irritar sua torcida. Se percebemos que não é isso que está acontecendo, melhor desconfiar. Essa esquerda pode estar fazendo o jogo conveniente para os homi. Nesse caso, ela é o visitante ideal para os donos do campo. Pode usar o escracho que quiser: a esquerda bibelô, a esquerda pet, a esquerda mascote, a esquerda que a direita gosta. Mas, de fato, deixou de ser esquerda, mesmo que não se dê conta.