Representantes superiores da administração Trump se esforçam para explicar dados de inteligência por trás da morte de Soleimani

 

21/01/2020 15:47

 

 
Representantes superiores da administração não confirmaram a afirmação do presidente Trump de que quatro embaixadas norte-americanas teriam sido alvo de ataque do Irã, e também disseram que a forma como Trump “interpretou” a ameaça era consistente com os dados de inteligência que justificavam o assassinato de um general iraniano.

“Eu não vi um que falasse das quatro embaixadas”, disse o secretário de Defesa Mark T. Esper, sobre os relatórios do caso. “O que estou dizendo é que partilho da visão do presidente de que provavelmente – minha expectativa era de que eles iriam atrás das nossas embaixadas”, Esper disse ao programa “Face the Nation” da CBS.

“O que o presidente disse é consistente com o que estivemos dizendo”, disse o conselheiro nacional de segurança Robert O’Brien na “Fox News Sunday”. “Tínhamos forte entendimento de que eles queriam matar e mutilar norte-americanos em instalações norte-americanas na região.”

Mesmo com “os dados de inteligência impressionantes” dos Estados Unidos, é difícil “saber exatamente quais são os alvos”, disse O’Brien. Ele adicionou que era justo antecipar que um futuro ataque iraniano “teria atingido embaixadas em, ao menos, quatro países”.

A administração ofereceu alguns detalhes e justificativas diferentes para o ataque aéreo do dia 3 que matou o General Major Qasem Soleimani, que vão desde retaliação por duas décadas de ataques às tropas norte-americanas e aliados pela Força Quds que ele liderava, passando pela possibilidade de ações futuras, até a alegação de Trump de que dados haviam confirmado planos eminentes de bombardeio às quatro embaixadas norte-americanas.

“Fizemos isso porque eles queriam explodir nossa embaixada…não somente a embaixada em Bagdá”, disse Trump. “Posso revelar que acredito que teriam sido quatro embaixadas.”

Essas observações, e as tentativas dos representantes superiores em explicá-las, alimentaram acusações de legisladores Democratas, e alguns Republicanos, de que a administração mascarou a justificação pela matança. O ataque levou os dois países à beira de uma guerra com um ataque iraniano retaliatório em bases militares que abrigavam forças norte-americanas no Iraque.

Quatro membros do exército do Iraque se feriram em um ataque com foguete que mirava uma base aérea ao norte de Bagdá onde estão instrutores norte-americanos, de acordo com oficiais de segurança iraquianos.

A indignação começou quando a administração falhou em informar líderes parlamentares superiores – ou aliados norte-americanos que também têm tropas no Iraque – sobre o assassinato antes que acontecesse. Aconteceu um briefing de alto nível de inteligência para os líderes parlamentares superiores conhecidos como a Gangue dos Oito, quatro dias depois do acontecido, seguido de uma sessão a portas fechadas para todo o Congresso, que fez muitos legisladores protestarem.

“Eu não ouvi nada sobre isso”, disse o senador Mike Lee (Republicanos – Utah), que tem criticado a tal explicação sobre as ameaças às embaixadas.

“Muitos dos meus colegas disseram o mesmo”, disse Lee na CNN. “Então, aquilo era novidade pra mim, e, certamente, não é algo que eu lembre de ter visto no briefing confidencial.”

Também na CNN, Esper disse que “havia um entendimento de que eles tinham – havia uma intenção de atingir a embaixada dos EUA em Bagdá”. Essa informação, ele disse, foi compartilhada com a Gangue dos Oito – os líderes dos dois partidos na Câmara e no Senado, e os presidentes e membros dos partidos minoritários dos dois comitês de inteligência.

O Deputado Adam B. Schiff (Democratas – Califórnia), presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, discordou.

“Eu acho que é errado mesmo”, disse Schiff na CNN sobre a afirmação das quatro embaixadas. “Eu não lembro, francamente, de discussões específicas sobre bombardeios à embaixada dos EUA em Bagdá.” Ele observou que o secretário de Estado Mike Pompeo disse que “não sabemos precisamente quando, e nem onde” os ataques estavam sendo planejados.

Pompeo disse, no entanto, que “tinham informações específicas sobre uma ameaça eminente e essas ameaças incluíam ataques às embaixadas dos EUA, ponto final”. Schiff disse que “na visão dos analistas, aquilo era conspiração. Havia um esforço para agravar a situação, mas eles não tinham os detalhes”. Trump e Pompeo, segundo ele, estavam “falsificando os dados de inteligência”.

Nancy Pelosi (Democratas – Califórnia), porta-voz da Câmara, que, levou a Casa a uma votação dividida para forçar Trump a buscar autorização parlamentar antes de continuar com ações militares contra o Irã, disse no programa “This Week” da ABC que “não acho que a administração tem sido direta com o Congresso dos Estados Unidos”.

Quando Esper e Mark Milley ligaram para ela para falar sobre Soleimani, segundo Pelosi, ela disse que eles deveriam ter informado a liderança antes. A administração “tinha que manter a proximidade”, e, segundo ela, eles disseram que “não queriam que a informação vazasse”.

“O que você esta dizendo é que não confia fontes e métodos nas mãos do Congresso dos Estados Unidos?” ela disse em resposta.

Enquanto candidatos Democratas à presidência concordaram sobre a malevolência de Soleimani e nenhum lamentou sua morte, todos questionaram o ataque e a justificação da administração. Em uma pesquisa da ABC/Ipsos , 56% dos entrevistados disseram que desaprovavam o jeito que Trump estava lidando com a situação atual no Iraque, enquanto 52% disseram que o ataque que matou Soleimani deixou os EUA menos seguros.

73% disseram que estavam muito ou mais ou menos preocupados com a possibilidade de um envolvimento dos EUA em uma guerra de larga escala com o Irã.

O’Brien, na ABC, disse que “adoraria divulgar os dados de inteligência em meio a isso tudo”. Chamando de “tipo uma estória de Washington”, ele disse que “ao invés de termos uma vitória política de curto prazo – divulgar os dados e dizer eu te disse – queremos manter os norte-americanos seguros”.

“Então seremos prudentes”, ele disse. “Mas tudo o que presidente disse ser consistente e sua interpretação são consistentes com os dados de inteligência, o que mostrou que Soleimani estava conspirando para matar norte-americanos – soldados, fuzileiros, diplomatas, pilotos e marinheiros. E então, você sabe, nos sentimos bem quanto a isso e gostamos da explicação dada ao Congresso.”

Perguntado sobre o motivo pelo qual a embaixada dos EUA em Bagdá não foi informada sobre a ameaça contra ela, O’Brien disse ao “Meet the Press” da NBC que “ foi uma situação muito rápida...na hora que pareceu que iria haver algum tipo de ação contra uma embaixada norte-americana, o presidente foi decisivo e corajoso em sua ação”, incluindo o envio de mais tropas para a região.

“Deixamos bem claro que isso não seria Teerã 1979, não seria Benghazi”, ele disse.

*Publicado originalmente no Washington Post | Tradução de Isabela Palhares