1968: Entrevista com Jacques Sauvageot

Em entrevista dada em 1968, o então vice-presidente da UNEF (União nacional dos estudantes de França), declarava que 'a revolta estudante era inevitável e previsível' e que 'O poder estudante manifesta-se pelo veto'

12/05/2018 12:32

Alain Geismar, Jacques Sauvageot e Daniel Cohn-Bendit, líderes da revolta estudantil de 1968

Créditos da foto: Alain Geismar, Jacques Sauvageot e Daniel Cohn-Bendit, líderes da revolta estudantil de 1968

 
 
Entrevista de Jacques Sauvageot (falecido em 28 de outubro de 2017) a Hervé Burges, Mai 1968, Ulisseia.

A revolta estudante era inevitável e previsível: bastava analisar a situação da universidade francesa, a das universidades estrangeiras e as lutas que rebentaram em Itália e na Alemanha por exemplo. A universidade representa na sociedade e, em particular na economia, um papel cada vez mais importante. Ela detém o monopólio da formação intelectual e da investigação que condicionam estreitamente todo o desenvolvimento económico. Isto significa que todo o sistema económico deve cada vez mais ter em conta a universidade e exercer uma influência sempre mais direta sobre ela. Isto significa, portanto, que a universidade no sistema capitalista está cada vez mais submetida aos critérios dessa sociedade. Pede-se aos estudantes que tenham um certo espírito crítico mas os estudos são de tal forma que não lhes permitem exercer esse espírito. Por outro lado, os estudantes sabem que mais tarde não terão possibilidade de desempenhar na sociedade um papel correspondente à sua formação.

Esse duplo fenómeno, creio eu, é a causa profunda da sua revolução. (...)

Os acontecimentos externos aqui em França encontraram eco**. De resto os movimentos estudantis são fatalmente internacionais e o movimento francês é sensível a tudo o que se passa nas universidades de todo o mundo. (...)

Sabemos há muito tempo que não serve de nada discutir com o Governo. Há apenas uma coisa que conta: são as relações de força - o que acaba de se passar demonstrou-o. Sobre os nossos objetivos no início dos acontecimentos, a libertação e amnistia dos manifestantes, a evacuação da polícia, a reabertura das faculdades, poderíamos ter discutido. Mas o que decidiu o resultado foi a ação, não que o tenhamos adquirido pela força porque ganhámos politicamente: a população estava connosco. Foi o que obrigou o Governo a afrouxar. As discussões não teriam servido para nada. (...)

Há muito que sentíamos a necessidade dessa unidade [com os trabalhadores]. Os contactos com os trabalhadores foram muito difíceis enquanto os estudantes estiveram sozinhos na luta. A partir do momento em que a batalha se propagou junto dos operários, o desejo de junção nasceu naturalmente, tanto na UNEF como na massa estudantil. (...)

O movimento estudantil desempenhou o papel de detonador, pondo desde logo o problema do poder porque tinha de o defrontar; isso permitiu a um certo número de estudantes não politizados tomarem uma atitude política. Numa segunda fase o movimento alargou-se ao conjunto dos trabalhadores e o problema universitário passou para segundo plano, ou melhor, integrou-se numa luta comum. Agora o movimento estudantil está estreitamente dependente do movimento operário. Se este pára, o nosso está condenado porque se encontra isolado face a uma repressão brutal, porque os estudantes não podem assumir sozinhos uma luta política. (...)

A população e os trabalhadores têm necessidade de serem tranquilizados. É preciso propor-lhes, não outro Governo, mas um poder eficaz dos trabalhadores nas empresas. É necessário que sejam eles a decidir. Eles não estão ainda completamente organizados mas quando estiverem o problema estará resolvido. Repare nos comités de ação de bairros, onde se discute, onde se organiza. Isso poderá muito bem conduzir a um novo tipo de gestão.

Já não se fala dos sovietes porque a palavra está fora de moda. Mas realmente trata-se disso com a autogestão dos comités. (...)

A fórmula do “poder estudante” é ambígua. É preciso defini-la em relação ao “poder operário”: a fábrica para os trabalhadores, a universidade para os estudantes. Para nós, o poder estudante não é de maneira nenhuma, a cogestão na qual não acreditamos, mas, mais do que isso, a gestão paritária. O poder estudante manifesta-se pelo direito de veto. Só ele, seja qual for a relação de forças pode concretizar o poder estudante. O que nos parece essencial não é gerir a universidade num sistema capitalista mas, através do poder estudante, introduzir a contestação permanente. (...)

A luta empreendida tem um caráter internacional: os países capitalistas estão ligados entre si, e todos os movimentos contra eles se correspondem. (...) Entre os estudantes é-se muito sensível ao caráter imperialista do capitalismo e muitos apoiam os movimentos da América Latina e do Terceiro Mundo. Participam nas lutas contra o imperialismo, o americano em especial, por vezes esquecendo-se até de lutar contra o capitalismo no seu próprio país. Mas esta luta contra o imperialismo desperta-lhes as consciências. De forma que se pode considerar o movimento atual como uma consequência da luta anti-imperialista..

Entrevista de Jacques Sauvageot*, publicado no dossier "Maio de 68" da revista A Comuna nº 14 15 de março de 2008

Notas:

** Manifestações: 21 de fevereiro de apoio ao povo vietnamita; 14 de março dia nacional da ação; segunda quinzena de abril, solidariedade por duas vezes para com os estudantes alemães, solidariedade para com o povo grego.

* Jacques Sauvageot (1943-2017) era, em 1968, estudante e vice-presidente da UNEF (União nacional dos estudantes de França) e militante do PSU (Partido Socialista Unificado).
 
Originalmente publicado na Esquerda.Net