Bando de loucos?

21/07/2012 00:00

Com um pouco de atraso, motivado pela loucura do trabalho, escrevo este texto, para tratar da final da Copa Libertadores da América, em uma América que ainda não alcançou sua liberdade...

O Corinthians foi campeão, em jogo memorável. A forte difusão midiática de que se tratava do “jogo da vida” do Corinthians (e dos corinthianos) foi, de fato, incorporada, transformando aquela partida em um instante de enorme intensidade. Foi maravilhoso ver o envolvimento emocional e a dedicação dos jogadores, dos dois times. E foi mais sensacional ainda ver o espetáculo apaixonado da torcida corinthiana, ecoando o hino: “Aqui tem um bando de louco, louco por ti Corinthians!” (que é primoroso exatamente por ser assim, sem concordância).

O que se viu foi um evento que de tão intenso transformou-se em raro. Claro que o fato do Corinthians ter vencido gerou um efeito, digamos assim, apoteótico (ao menos para os seus torcedores), mas me atrevo a dizer que aquele instante não seria menos espetacular se o Boca tivesse se consagrado campeão (pela 7ª. vez). Ah, eu amo esse jogo!

O que quero dizer é que aquele momento da partida valeu por si como uma expressão relevante da experiência da condição humana, ainda que, por certo, muitos proveitos econômicos, do “negócio futebol clube”, como diria o jornalista, Juca Kfouri, tenham sido dele extraídos. Sem desconsiderar esses interesses, que atingem inegavelmente os profissionais ligados ao futebol, a começar pelos próprios jogadores, o que se verificou no Pacaembu naquele dia foi um evento de autêntica emoção, como se a própria vida fosse posta à prova a cada jogada.

E, embora a torcida continuasse se autodenominando, “bando de louco”, ficava clara a formação de um ente coletivo com propósito definido. Uma identificação de pessoas (sem rótulos) ligadas por um ideal, dispostas a se ajudar, a se emocionar e a sofrer juntas, fosse o caso.

Enquanto isso, fora dali, um mundo frio, sem emoção, de pessoas voltadas a si mesmas, quando muito integradas a lógicas corporativas, reproduzindo de forma pragmática tarefas burocráticas, como se cada instante da vida fosse uma partida amistosa ou um jogo para cumprir tabela.

O que se tem visto na realidade social, com freqüência, são momentos vazios de emoção, com exacerbação do individualismo, que, por certo, são protagonizados também por aqueles que se integraram ao raro momento do Pacaembu. Com o império da lógica capitalista, da qual o futebol, por óbvio, não escapa, podendo até ser visto como um de seus principais propulsores, a emoção é conduzida a situações ocasionais, episódicas, que se institucionalizam em espécies de atos de “purificação”, de catarse, para que o cidadão possa ser reconduzido, “limpo”, à racionalidade do pragmatismo do mercado, o qual, paradoxalmente, diante das insistentes crises, cada vez mais reduz o espaço da razão, impingindo a inexorabilidade.

Produzem-se, assim, como regra, momentos que não valem por si e que se encaram como meras passagens de um contexto que, além disso, peca pela ausência de roteiro. Os momentos em que a emoção se expressa, como a partida mencionada, de tão excepcionais, são encarados como uma espécie de vida paralela, onde experimentar a condição humana é permitido, mas que restam aprisionados a um local específico, com hora marcada.

Nos espaços burocráticos da vida, determinados pelas modernas estratégias de gestão e de pessoal, a normalidade é medida, exatamente, pela ausência de emoção, sendo valorizada a capacidade de assimilar a necessária padronização para a produção de números fixados em metas pensadas na perspectiva estritamente econômica. E, dentro desse contexto, ver o outro, preocupar-se com o outro, sentir e vivenciar os problemas alheios é um exercício de difícil concretização, ainda mais quando se está voltado às lutas do dia a dia.

É bem correto dizer que a vivência humana requer o uso da razão, mas, como também se sabe, só a ciência não basta. Exatamente neste instante em que se discute o efeito da descoberta da “partícula de Deus”, que pode conduzir as potencialidades científicas a um patamar quase ilimitado, é oportuno lembrar que a condição humana é algo além da razão, ainda mais quando a validade desta se vê condicionada à reprodução de um sistema que reduz tudo a um único valor, o dinheiro, que anda de mãos dadas com o poder e o “status” social, que favorecem a difusão do espírito do “se dar bem”, gerando uma grave cumplicidade com relação à corrupção e à ilegalidade, sobretudo no que diz respeito às obrigações decorrentes do pacto de solidariedade.

Parece-me, portanto, que a torcida do Corinthians, em ação, não é um bando de loucos. Loucos somos nós, torcedores do Corinthians, ou não, que somos obrigados a trabalhar para sobreviver, cumprindo padrões de conduta pré-fixados e delimitados, e que reproduzimos uma racionalidade que não nos pertence e que é alheia à condição humana!

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