Furnas, a arriscada aposta de Lula

15/08/2007 00:00

Em assembléia marcada para esta quarta-feira (15), o Conselho de Administração de Furnas irá acatar o nome de Luiz Paulo Conde para a presidência da empresa. A nomeação do ex-prefeito do Rio de Janeiro põe fim a uma novela que se estende desde que o PMDB, no início do segundo mandato de Lula, foi ungido como aliado preferencial do PT no governo, mas também representa uma jogada de alto risco político para o presidente da República.

Nomear Conde presidente de Furnas significa trazer para uma empresa do governo, importantíssima em termos de investimentos públicos, o que há de pior, hoje, no PMDB. Significa deixar sentar sobre um robusto cofre estatal o grupo político comandado pelo ex-governador Anthony Garotinho, cujas práticas vêm sendo seguidamente questionadas na Justiça. Pode até ser que os fatos desmintam os piores temores, mas, a princípio, deixar Furnas com esse grupo é mandar a raposa tomar conta do galinheiro.

Pois não parece ser outra coisa senão a robustez financeira de Furnas o que motiva as festinhas promovidas por setores do PMDB em todo o país - e particularmente no Rio - para comemorar a nomeação de Conde. O lucro líquido da empresa no primeiro semestre, anunciado recentemente, foi de R$ 254 milhões. Em 2006, foi superior a meio bilhão de reais. Isso, sem falar nos projetos para os próximos anos. O mais badalado deles, a construção das usinas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, está orçado em quase R$ 30 bilhões, cifra que, não tenham dúvida, ainda vai crescer bastante.

A jóia da coroa para o grupo de Garotinho e Conde, no entanto, atende pelo nome de Real Grandeza, que é o fundo de pensão dos funcionários de Furnas. Em 2006, o fundo fechou o ano tendo sob sua gestão cerca de R$ 4 bilhões em ativos, soma capaz de adubar os sonhos de qualquer grupo político. Boa parte da nova diretoria do Real Grandeza será indicada por Conde, fato que talvez explique os fartos sorrisos estampados pelos parlamentares ligados a esse setor do PMDB durante os últimos dias em Brasília.

O fator Cunha
Entre estes, destaque absoluto para o deputado federal Eduardo Cunha (RJ) que, como relator da proposta de prorrogação da CPMF, pressionou Lula e a base governista na Câmara com a possibilidade de dividir a arrecadação do imposto com estados e municípios até garantir a nomeação de Conde em Furnas. Cunha, que andava nas sombras nos últimos anos, voltou a ter lugar de destaque em seu grupo político depois das últimas derrotas amargadas por Garotinho. Vencedor da queda-de-braço com o Planalto, deve tornar-se ainda mais relevante.

Muito atuante também na CPI do Apagão Aéreo, o deputado parece disposto a retomar o viço de uma carreira política que começou como golden boy do PRN, partido fundado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello. Em 1991, Collor chegou a nomear Cunha como presidente da Telerj, atendendo à sugestão de Paulo César Farias, amigo de ambos. Cunha ficou no cargo por dois anos e teve suas contas reprovadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) que, entre outras irregularidades, apontou contratação de servidores sem concurso, tratamento privilegiado a determinados fornecedores e falhas na licitação para a edição de catálogos telefônicos.

Alguns anos mais tarde, após deixar Collor e abraçar Garotinho quando este foi eleito governador, Cunha se notabilizou pelas irregularidades à frente da Companhia Estadual de Habitação (Cehab). Lá, onde exerceu a presidência por dois anos, ele respondeu a inúmeras denúncias de improbidade administrativa e gestão temerária. A mais famosa diz respeito às irregularidades cometidas nos processos de licitação para a construção, na Zona Oeste do Rio, dos mega-condomínios populares Nova Sepetiba 1 e 2, idealizados por Garotinho. A vencedora de todas as licitações comandadas por Cunha foi a empresa paranaense Grande Piso, que teve a anulação de sua contratação pedida pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).

É grande, portanto, o perigo que corre o presidente Lula ao escolher para a presidência de Furnas um político que teve como principal artífice de sua nomeação uma figura como Eduardo Cunha. O novo presidente terá o poder de nomear nada menos que 170 pessoas em Furnas, em postos com graus diversos de importância. Cunha garante que ¿não indicou ninguém e não pretende indicar¿, mas nem os sem-teto que até hoje esperam as moradias prometidas pelo ex-presidente da Cehab acreditariam nisso.

Medo do ¿efeito Prece¿
Lula talvez saiba que o perigo maior é a administração do Real Grandeza. Espera-se que Conde, Garotinho e Cunha não repitam o que fizeram na Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio (Cedae), quando entregaram a aliados a administração do fundo de pensão dos funcionários da empresa, o Prece. Durante os oito anos de governo de Garotinho e sua mulher, Rosinha Matheus, o Prece, segundo o TCE, acumulou um déficit de R$ 340 milhões. Entre 2000 e 2005, o TCE identificou no fundo um rombo de R$ 309 milhões.

Segundo uma matéria publicada no jornal O Globo, uma auditoria interna apontou que em 2006, último ano do governo Rosinha, o Prece realizou uma aplicação temerária ao injetar R$ 74 milhões numa corretora com um ativo de R$ 80 milhões e um passivo de R$ 326 milhões. Indicado por Conde, que foi vice-governador e secretário de Meio Ambiente de Rosinha, o presidente da Cedae no ano passado era Aluízio Meyer que - infeliz coincidência para almas mais preocupadas - é funcionário de carreira de Furnas e já foi diretor financeiro do Real Grandeza.

Conde ainda não adiantou publicamente os nomes de sua futura equipe, mas já afirmou a interlocutores que pretende ver Meyer no comando do Real Grandeza. Com isso, se repetirá em Furnas a mesma estrutura que minou a Cedae e o Prece na Era Garotinho. Tudo indica que, apesar dos postos que serão preenchidos por outros setores do PMDB e até pelo próprio PT, o controle da empresa ficará mesmo sob a batuta do grupo de Garotinho. O tempo dirá o que vai acontecer, mas se Lula tiver más-notícias vindas de Furnas, não poderá dizer que não foi avisado.



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