Israel, Faixa de Gaza e o fanatismo

15/12/2012 00:00

O conflito Israel-Palestina, no que diz respeito à sua essência não é uma guerra religiosa, de cultura e tradições. É essencialmente uma disputa política por territórios. A crise no Oriente Médio e, mais atualmente à questão da Faixa de Gaza de modo algum diz respeito aos valores do islã, ao contrário, diz respeito tão somente à uma luta antiga entre fanatismo e pluralismo e entre fanatismo e tolerância, de acordo com as palavras do ativista Amós Oz.

O fanatismo, de acordo com o ensaio Contra o fanatismo, é mais antigo que o islã, cristianismo e judaísmo, mais do que qualquer Estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo (p.14). Colonos que queimam mesquitas, conforme foi registrado muito recentemente na região da Cisjordânia, ou desenham o símbolo da suástica nazista nas sinagogas, diferem da Al Qaeda apenas em escala.

O sentimento de fanatismo é frequentemente relacionado à um ambiente de desespero, humilhação e medo. E, diante do crescimento do fanatismo dentro da situação do conflito Israel-Palestina, somente os moderados poderão promover condições para a resolução de todos os atos de violência assistida na Faixa de Gaza e, em Israel. Ao contrário, será a desesperança que irá comandar as ações fanáticas. O conflito Israel-Palestina é um conflito internacional, o que em tese, poderia ser mais facilmente resolvido, porém, a presença de fanáticos em ambos os lados vem transformando o conflito territorial e político em uma guerra também religiosa.

Essa situação pode ser notada quando nos atentamos aos nomes das operações (nos dois lados), ambas possuem conotações religiosas. O nome dado por Israel à operação militar em atividade é Coluna de Nuvem, referente à um trecho da Bíblia. Por outro lado, a operação utilizada pelo grupo Hamas, consta de um trecho do Corão, Pedras do Céu. O que implica que as duas partes acreditam numa proteção divina.

Os confrontos, por sua vez, estão muito longe de serem simétricos. A região da Faixa de Gaza é conhecida como uma das regiões mais densamente povoadas do planeta, sem recursos naturais. A região sofre uma escassez crônica por falta de água e indústria. Sem recursos tecnológicos, a região não possui bunkers ou os chamados “espaços protegidos”, muito comum nas residências em Israel, sobretudo após a guerra do Golfo em 1991, quando uma lei em Israel determinou que todas as construções novas teriam um espaço em cada residência, com paredes reforçadas e janelas de ferro. Sem esses tipos de recursos, o saldo de morte de civis do lado palestino é muito maior, principalmente entre as crianças.

Isso porque a situação na Faixa de Gaza é particularmente trágica há muitos anos. Trata-se de um território sem autonomia política, o controle do espaço aéreo, do fornecimento de água e de suas fronteiras (como exceção da fronteira com o Egito) é exercida pelo governo israelense. Muito recentemente, em dezembro de 2008, como resultados da chamada Operação Chumbo Fundido, foi obtido um saldo de 762 civis palestinos mortos, desse montante cerca de 300 crianças palestinas perderam suas vidas. Essa realidade, quando comparada com as perdas do lado israelense (3 mortos durante essa mesma operação), é possível perceber o quanto esse conflito é cruel e desigual.

A longa imposição de um bloqueio econômico à região, foi considerado oficialmente ilegal, de acordo com as leis humanitárias e pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Foi por intermédio desse bloqueio que o governo israelense impôs o controle da dieta da comunidade de Gaza, calculado pelo número de calorias diárias, o que acarretou, por sua vez numa estimativa de 10% de crianças acometidas por desnutrição nos últimos anos. A situação, no entanto torna-se mais degradante na medida em que é constatado por meio de estatísticas, que o índice de desemprego atinge 28% da população adulta, o que intensifica o estado de miséria e abandono da população de Gaza. Isso tudo, sem olvidar que, do total dos habitantes da Faixa de Gaza, é estimado que mais de 1 milhão de pessoas sejam consideradas refugiadas desde o ano de 1948.

O atual massacre na Faixa de Gaza foi promovido, de acordo com o governo israelense, com o objetivo de “restaurar a tranqüilidade ao sul de Israel”, por outro lado, uma parcela da imprensa internacional têm destacado sobre as reais motivações políticas para os ataques à Faixa de Gaza, já que Israel encontra-se às vésperas das eleições legislativas.

Estima-se que o premiê israelense Benjamim Netanyahu esteja muito fragilizado após a vitória de Barack Obama nos Estados Unidos e, justamente como prova de força, o atual governo de Israel usa a ofensiva contra o território representado pelo Hamas.

Muito surpreendentemente, a resposta palestina embora tenha sido fisicamente muito menos letal, segundo as próprias fontes israelenses, o impacto psicológico foi absolutamente considerável, pois os foguetes palestinos além de atacarem as cidades israelenses próximas à Gaza, se mostraram capazes de alcançar a capital Tel Aviv, Jerusalém e o reator nuclear de Dimona.

De acordo com os integrantes do partido Likud, as ações na Faixa de Gaza são necessárias, muito devidamente à região ser uma ameaça à realidade israelense. Alegou-se que, nos últimos dias, houve um considerável aumento do tráfico de armas nos túneis clandestinos, localizados na fronteira com o Egito.

A gravidade dessas ações levaram centenas de israelenses, no sábado, dia 17 de novembro, à saírem as ruas de Tel Aviv a fim de exigir um cessar fogo urgente na Faixa de Gaza. O clima de medo e insegurança devem-se à rumores de que os próximos passos, contariam com uma ação terrestre em Gaza, semelhante à ocorrida entre os anos de 2008 e 2009. Na manifestação era possível depara-se com cartazes e gritos de ordem como “Somos contra a guerra eleitoreira”.

Muitos israelense indignados, afirmaram serem a favor de conversar com o Hamas e cessar imediatamente com as políticas de ocupação dos territórios palestinos. Numa tendência clara de negociação e coexistência que, de acordo com as palavras da chefe da diplomacia da União Européia, Catherine Ashton, a situação de provocação e violência somente poderá ser amenizada quando finalmente houver a implantação da solução de 2 Estados, que deverão serem divididos de acordos com as linhas divisórias anteriores à guerra de 1967. E, ao mesmo tempo que, os judeus israelenses passarem a considerar a Palestina como a terra natal do povo palestino e pararem de lançar certos eufemismos como “os locais”, “os árabes” e o “problema palestino”. E, sobretudo no momento em que os moderados se lançarem nessa disputa, impedindo que os fanáticos ganhem a guerra.

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