Colunista

Flávio Aguiar

20 anos do holocausto de Ruanda


O chamado “massacre de Ruanda” – na verdade um holocausto genocida cometido com a complacência criminosa das potências ocidentais – completa seu vigésimo aniversário.

Ele começou no dia 7 de abril de 1994 e estendeu-se por aproximadamente 100 dias, até meados de julho. Neste prazo um número estimado entre 800 mil e 1 milhão de Tutsis foram exterminados pelos rivais Hutus que estavam no governo – ou no que chamavam de governo. Em termos de comparação, o holocausto dos judeus na Alemanha nazista matou 6 milhões na Europa ocupada durante os anos do regime – de 1933 a 1945 (é verdade que a grande maioria concentrada nos anos da “solução final”, depois da Conferência de Wansee, de 1942 a 1945).

O pretexto para o massacre foi o assassinato do presidente (Hutu) do país, Juvénal  Habyarimana, cujo avião foi derrubado por um míssil ao aterrissar na capital, Kalinga, no dia 6 de abril. Juntos, morreram toda a comitiva presidencial e o presidente do vizinho Burundi, Cyrien Ntaryamira, aparentemente uma vítima “co-lateral”.

Até hoje não há uma solução definitiva para o crime. Tribunais francesas acusaram, na época, o atual presidente de Ruanda, Paul Kagame (Tutsi), pelo atentado. Kagame era o líder da Frente Patriótica de Ruanda, formada há alguns anos na vizinha Uganda. Depois de alguns insucessos iniciais, a FPR conquistou posições dentro de Ruanda, e negociou um acordo de paz com Habyarimana, que se comprovou inócuo.

Assim mesmo, Habyarimana vinha promovendo uma relativa abertura de seu regime ditatorial, e parecia disposto a admitir rivais Tutsis no seu governo, sendo apoiado por Hutus moderados. Por esta razão até hoje existe a suspeita de que o assassinato de Habyarimana tenha sido tramado e perpetrado por Hutus sectários.
Os acontecimentos subsequentes são indícios eloquentes neste sentido.

A rivalidade entre Tutsis e Hutus é secular. Mas foi estimulada pelos colonialistas belgas, que no começo do século XX emitiram carteiras de identidade diferenciadas para cada uma das etnias, manifestando uma preferência acentuada pelos primeiros em matéria de postos de governo. Quando Ruanda se tornou independente em 1962, o ressentimento dos Hutus em relação aos Tutsis já provocara revoltas de tal monta que cerca de 2 milhões dos últimos já haviam se refugiado nos países vizinhos. Num destes países – Uganda – foi formada a FPR, para lutar contra o governo de Habyarimana, que chega ao poder nos anos 70, através de um golpe de estado.

No dia seguinte à morte do presidente, a guarda presidencial em Kalinga começou a matança, que não se restringiu aos Tutsis, atingindo também os líderes Hutus que não concordavam com o massacre. Em matéria de dias uma horda de tropas governamentais e de milícias para-militares, estimada em 30 mil pessoas, se espalhou pelo país. Havia um contingente figurativo de tropas da ONU no local que, depois da morte de 10 soldados belgas assassinados pelos Hutus, se retirou olimpicamente, ao invés de ser reforçada.

Um dos piores massacres foi cometido entre os dias 15 e 16 de abril. Milhares de Tutsis, chamados pelo prefeito de Nyarubuye, a 100 quilômetros a leste da capital, se refugiaram na Igreja Católica local. O prefeito era Hutu, e depois de ter reunido os “inimigos”, chamou a horda assassina que, em dois dias, se entregou a uma matança orgiástica indescritível.

Segundo os relatos existentes, o massacre começou com bombas e balas de fuzis, metralhadoras e pistolas. Depois continuou com machetes e tacos de beisebol, além das próprias mãos. Matar com as próprias mãos, em tal escala, é cansativo. Havia, portanto, “equipes “ que se reservavam no “métier”.

Um sem número de mulheres passou pelo “ritual” do estupro, o que multiplicou ad infinitum o número de aidéticas e de bebês desde sempre aidéticos no país.

Os assassinos e estupradores eram estimulados a tomar os bens – inclusive os imóveis – das vítimas, como aconteceu na Argentina, durante a ditadura de Videla, Massera  et alii.

A todas estas, o Ocidente olhava para o lado, para o alto, para baixo. Digo o Ocidente porque a França – com seus aliados, EUA e Reino Unido – estava enfiada até os joelhos, mais os dentes e as garras, na sustentação do governo ditatorial de Habyarimana. Ela simplesmente estendeu esta “proteção” a seus sucessores, vistos, como o presidente morto, como saudavelmente “conservadores e anti-comunistas”. E havia ainda o temor em relação a FPR.

Gradualmente a FPR avançou, e derrubou o “governo” em Kagali em meados de julho de 1994. Milhares de Hutus fugiram, temendo represálias, inclusive a maioria dos envolvidos no holocausto, para os países vizinhos, inclusive para o Congo, onde estes últimos formaram uma milícia que existe até hoje. Tal fato levou o governo de Kagame a intervir no vizinho Congo, onde formou-se a República Democrática do Congo.

De início o novo governo compôs-se de um presidente Hutu, Pasteur Bizimungu, com Kagame na vice-presidência.  Bizimungu, casado com uma Tutsi, tivera um irmão – coronel do Exército – assassinado, provavelmente a mando do governo de Habyarimana. Desde então ele se juntara à FPR, no exílio. Depois de alguns anos, em 2000, ele e Kagame romperam relações, passando o primeiro à oposição. Ao fim e ao cabo, Bizimungu foi acusado de fraudes, corrupção e de por em perigo o Estado, sendo condenado em 2004 a quinze anos de prisão. NO entanto, em 2007 Kagame assinou um perdão ao ex-aliado, que foi posto em liberdade.

Kagame hoje lidera um governo que tem amplo apoio internacional – apesar das acusações que ainda lhe fazem, que vão desde o assassinato de Habyarimana até a de manter um governo de estilo ditatorial. Foi eleito e re-eleito presidente por esmagadoras maiorias em 2003 e 2010. Seu governo tem apoio explícito – em termos econômicos – dos Estados Unidos, do Reino Unido e mais recentemente da China.

Bill Clinton e Tony Blair, respectivamente presidente dos EUA e primeiro-ministro do Reino Unido na época do genocídio, reconheceram sua omissão, pediram desculpas ao povo de Ruanda e hoje mantém programas de apoio através das fundações que dirigem. A Bélgica também se desculpou. Em 2004 o então presidente Nicolás Sarkozy, da França, admitiu que a França coco"comrecometera “uma série de equívocos” em relação a Ruanda.

Mas não houve pedido de desculpas.

Aliás, até hoje.

P. S. - Para quem não viu - e para quem já viu - recomenda-se o filme "Hotel Ruanda", de 2004, com direção de Terry George.