O jornalismo de esquerda precisa de você. Venha ser parceiro Carta Maior. Doe agora!
Seja Parceiro Carta Maior
29/04/2013 - Copyleft

A direita latino-americana

por Emir Sader em 29/04/2013 às 03:59



A direita latino-americana atual é o agregado de vários segmentos. Um primeiro, é a direita tradicional, que contém os jornais e revistas ligados à oligarquia, que estiveram ligados ao velho modelo primário exportador, apoiaram as ditaduras militares.

Se valeram da reinterpretação do liberalismo por aqui, favoráveis ao livre comércio e contra qualquer protecionismo. São saudosistas, escrevem editorias rançosos, expressam ódio de classe aberto aos sindicatos, aos partidos de esquerda, a Cuba, Venezuela, Bolívia.

Exaltam a mídia conservadora como bastiões da liberdade, ameaçados pelos “populismos” reinantes. Hoje manifestam melancolia e pessimismo sobre o estado atual do mundo e, em particular, da América Latina e de seus países em particular. Adoram os EUA de quem exigem sempre a dureza da época da “guerra fria”. Sua cantilena preferida é a do risco que a liberdade e a democracia correm.

O bloco neoliberal nos vários países no continente foi conduzido por outras forças, que incorporaram esse ramos oligárquico da direita. Foram forças originárias da social democracia e do nacionalismo – Ação Democrática na Venezuela, PRI no México, o peronismo dos anos 1990 na Argentina, o PSDB no Brasil, entre outros – os agentes do modelo neoliberal no continente.

Seguindo pelo caminho dos socialistas franceses e espanhóis, e dos trabalhistas ingleses, essas forças organizaram um novo bloco de direita ou simplesmente avançaram sós na condução de governos neoliberais.

Essas duas vertentes contaram com o monopólio oligárquico dos meios de comunicação, numa fase em que estes ocuparam o lugar central na construção dos consensos políticos e ideológicos.

Diante dos governos pós-neoliberais, a direita se viu fora do governo, com muitas dificuldades para retornar. Esses governos ocuparam um amplo espaço do campo politico, não deixando espaço para outro projeto com potencial hegemônico. O que fazer diante do inegável sucesso das politicas sociais desses governos?

Manter a concepção da direita de que os recursos utilizados nessas politicas são gastos, via de regra considerados “excessivos”, responsáveis pelos desequilíbrios das contas publicas, além de mal administrados – para o que se centra na denuncia de supostas irregularidades e/ou ineficiência na sua aplicação.

Diante das alianças que priorizam os processos de integração regional, a direita centra suas criticas na situação política e econômica dos países latino-americanos, tentando provar que a aliança com eles está permanentemente ameaçada.

Não podem manter – pelo menos desde o começo da crise econômica no centro do sistema – sua preferência pela aliança subordinada com os EUA, a Europa e o Japão. Tentam então desqualificar projetos como o Mercosul, Unasul, o Banco do Sul, a Celac, o Conselho Sul-americano de Defesa, sem grande efetividade.

Da mesma forma a direita ficou neutralizada na sua ojeriza ao Estado, especialmente desde o começo da atual crise econômica internacional, quando todos pediram ações estatais para minorar seus efeitos. Desviam então suas críticas ao Estado, concentrando em supostos casos de corrupção, que teriam o Estado como cenário, assim como supostas ineficiências dos programas governamentais, que seriam melhor administrados se estivessem centrados em empresas privadas e no mercado.

Com essas debilidades, a direita não consegue se recompor das derrotas que tiveram em países como a Venezuela, o Brasil, a Argentina, o Uruguai, a Bolívia e o Equador. Estes governos se elegeram e se reelegeram, encontrando-se em condições favoráveis para cumprir sua primeira década e avançar para a segunda.

Incapacitada de obter maiorias eleitorais, a direita centra sua ação nos grandes meios de comunicação, frente à debilidade confessa dos seus partidos, e busca articular novas modalidades golpistas, contando com a velha mídia e com o Judiciário – quando ainda o controla.

Os governos progressistas latino-americanos têm tudo para fortalecer-se diante de uma direita como essa. Basta que zelem, antes de tudo, pela eficácia na aplicação das suas políticas sociais, pelo seu fortalecimento, expansão e criatividade. Essa é sua base fundamental de apoio e legitimidade, que lhes dá as maiorias e a legitimidade que lhes permitem seguir triunfando.

E, ao mesmo tempo, avançar nas políticas de integração regional – em particular o novo Mercosul e o Banco do Sul –, que é o permite a esses países resistir em melhores condições aos influxos recessivos do centro do capitalismo e superar obstáculos internos para construir um modelo alternativo de política econômica.

Em terceiro lugar, fazer as reformas do Estado e do sistema político, para democratizar as instâncias de poder, incluindo o sistema eleitoral, o Judiciário e os meios de comunicação.

Tags: Internacional




17 Comentários Insira o seu Coméntario !

Jacques - 30/04/2013
Muito pertinente professor.


José Ricardo Romero - 30/04/2013
A DILMA É MESMO A MELHOR OPÇÃO PARA A ESQUERDA EM 2014?

Não é preciso ser gênio estrategista para saber que o setor de comunicações é o segmento mais importante que existe para manter o poder. Se o governo não pode se comunicar com o povo (não o faz, efetivamente) e é capturado sem esboçar reação, até mesmo facilitando as coisas para o poder de fato no Brasil, o midiático, terá ele possiblidade de reverter o golpe jurídico/midiático que está em andamento acelerado para derrotar sua reeleição? Uma presidenta não poderia ignorar isso. Dilma mostra com seu comportamento vagal e irresponsável em relação à mídia um colossal e inexplicável despreparo político. Será que ela é mesmo a melhor opção para 2014? Não estamos a tempo ainda de destravar esse debate e reinterpretar a opção eleitoral do PT que parece congelada e inamovível? Porque não começar já a questionar a reeleição da Dilma, o apoio deste partido balcão de negócios que é o PMDB e a composição traidora e entreguista da maioria do atual ministério? Na minha opinião (e não estou sozinho; cada dia vejo mais gente expressando estes sentimentos) percebe-se que o PT/governo não tem mais nada a ver com o Brasil progressista que a esquerda aspira. E àqueles que acham que críticas assim não ajudam em nada e podem até fortalecer a oposição, peço que aterrissem no planeta terra e tenham um mínimo de senso crítico da realidade para saber que a oposição chegará, via golpe, ao poder em 2014 se nenhuma reviravolta com modificações profundas na política de esquerda forem tomadas. Vamos colocar uma opção à esquerda deste governo, do PT, desta cambada de tremelicantes gelatinosos que são os políticos atuais. Façamos nós a opção à esquerda ao PT e a este governo. Não vamos deixar que a direita faça isso. Tomemos da direita a iniciativa de fazer uma alternância de poder; agora que seja realmente à esquerda e não esse simulacro que se chama PT.


Coutinho - 29/04/2013
Sim, os governos progressistas latino-americanos devem primar pela qualidade e extensão dos serviços sociais gratuitos à população e, também, para esta década, começar a busca e experiências com modelos econômicos alternativos que diminuam a dependência em relação ao mercado, avançando para um novo patamar, não só pós-neoliberal (de fato e não apenas discursivo), mas também, que já comece a ser pós-capitalista.


Amauri - 29/04/2013
Aumentar o percentual de etanol na gasolina, voce acha que é zelar pelas políticas sociais?

Na minha opinião zela pelo interesse dos usineiros em detrimento da economia popular!


orlando f filho - 29/04/2013
O caminho está aberto. Os povos da América precisam sentir confiança nesta esquerda que determina os rumos de vários países. As pessoas precisam sentir que Lula, Dilma, Maduro, enfim, são os verdadeiros parceiros do povo da America para concluir e consolidar esta maneira de governar.


Thais Rocha - 06/05/2013
Fernando Zanforlin: suas palavras se configuram o melhor artigo que já li nos últimos 20 anos, e com um poder de síntese incrível, aliado à objetividade. É disso que realmene estamos precisando,em contraposição aos teóricos do blá blá blá. Acho que não se precisa dizer mais nada.


Fernando zanforlin - 06/05/2013
Vim conferir, li muita prosopopeia. Ficar ainda pensando em esquerda/direita nos tempos atuais, penso ser de uma visão tacanha. Qual é o governo que não está preocupado com o social. Nós temos um serviço social (segurança, Saúde e educação) que é uma vergonha diante do tamanho da nossa economia. Esse partido que diz ser de esquerda fez o que? Paternalidade com os pobres. A corrupção corre solta, a locupletação da classe política por meio escusos é comum. Votei nessa pessoa desqualificada para ser presidente, por acreditar nele. Mostrou-se um incapaz para elevar o país a um nivel de respeito nobre. Me arrependo profundamente, fico pasmo vendo pessoas que ainda acreditam nesse sujeito.


Thais Rocha - 03/05/2013
Esqueci de mencionar, professor Emir, democrático pelo espaço sempre aberto ao debate dos leitores, que o Global Research do prof canadense, o economista Michel Chossudovski citado por mim mesma abaixo, é progressista, apoia fortemente regimes socialdemocratas latinos de hoje - Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador... Se o leitor Aristides se referiu à minha observação alegando propaganda contrária, portanto, evidenciou uma vez mais o caráter histericamente vazio, ufanista de determinadas "visões" de mundo. "Os povos estão felizes e isso é o que importa!". Nesse tipo de discurso, ao qual só falta acrescentar jingle, musiquinha, marchinha, apoiou-se Hitler e todos os regimes que se apoiam na alienação das sociedades. Hoje também é assim.



"Toda propaganda deve ser popular, e adequar-se à compreensão dos menos inteligentes entre aqueles a quem se almeja alcançar", Adolf Hitler


Maria Helena Romão - 03/05/2013
Olha professor Emir Sader, vejo que o PT está levndo pra um caminho perigoso o Brasil. Não sei até que ponto há rompimento, o que é governo voltado o interesse social (esquerda)m o que é direita e o que é um bom governo? Bela análise do José Ricardo e devemos lembrar que a Dilma de diversas formas é vítima do Pt e do caminho para ser presidente, por exemplo recebeu e subiu ao palanque de maneira opurtunista com os evangélicos, agora o pastor Marco Feliciano lá, ela não tem as leis da imprensa e reclama, e eu concordo com o José Ricardo


marcos Plenaro - 03/05/2013
Acho que deve haver uns 391 posts com esse título somente nos últimos 3 meses.



De todo modo, me incomoda um pouco, professor Emir, que você se reivindique marxista e, no entanto, proceda à análises e bandeiras de luta nacionalistas. Sabe, a análise da conjuntura nacional deve estar relacionada sempre à perspectiva de classe, e não da "nação", do "povo", etc. O professor tem formação marxista e deveria saber, segundo penso, que esses conceitos são, em grande medida, mistificações, e que servem no limite para estabelecer pactos entre as classes. Quer dizer, se bem que, em vista de sua avaliação entusiasmada dos governos do PT, talvez o marxismo não seja mesmo a praia em que você prefira tomar banho de sol atualmente. Aliás, um pouco da história do fracasso da esquerda brasileira passa por seu nacionalismo de fundo, incapaz de pensar a realidade. Aí sim, professor Emir, a compreensão nacionalista de esquerda (a sua e a dos governos "pósneoliberais") se une à compreensão do capital na medida em que ambas mistificam a realidade. Nessa bruma espessa, trabalhadores e capital desaparecem sob o caos indiferenciado do "povo".



Um grande abraço. Desculpe o teor crítico.


edi - 03/05/2013
Professor Emir, o senhor sabe o imenso respeito e admiração que lhe tenho, mas por que, ao invés de discutir esquerda-direita, quem é esquerdista e quem é direitista, o senhor não discute eficiência em cima dos fatos? Fica a dica, já dada anteriormente


Thais Rocha - 03/05/2013
Discordo do Aristides: As leis trabalhistas continuam desfavorecendo o trabalhador, na mesma situação precária de sempre (aponto diversos fatores, envolvendo leis e a realidade), o saneamento básico, a saúde pública continua a mesma catástrofe de sempre, educação privada e pública seguem uma "maravilha", a reforma agrária política NUNCA saiu do papel, a corrupção, segundo todos os indicadores internacionais pioraram no Brasil, e Dilma é contra leis de imprensa, financiando ainda a grande mídia


Marcia Eloy - 02/05/2013
Quem ainda não viu não perca o documentário "O dia que durou 21 anos" Os EEUU liberaram após 50 anos seus arquivos secretos e o filme é baseado nestes arquivos que mostram todo o envolvimento dos americanos no golpe de 64


Thais Rocha - 01/05/2013
Sobre as direitas latinas, recomendo este brilhante artigo do economista canadense mundialmente famoso, consultor de governos latinos nacionais,: Brazil: Neoliberalism with a “Human Face” (Neoliberalismo Brasileiro com "Face Humana"): http://www.globalresearch.ca/brazil-neoliberalism-with-a-human-face/374



Obrigada, professor Emir


Amauri - 01/05/2013
Ponto positivo para o Emir até o momento, pelo fato dele continuar sendo imparccial na publicação dos comentários, fato este que não está ocorendo em outros artigos de carta maior, estão se comportando como o PIG.


Aristides Bartolomeu Novaes - 01/05/2013
Os países latinos e com governos progressistas tem tudo para dar certo no futuro. Temos grande reserva de todos os minerais necessários a que se faça uma agricultura forte; quantidade de água suficiente e com grande potencial; petróleo, reservas florestais abundantes e tudo o mais. Para concretizar, o mercado de trabalho vem se desenvolvendo e com baixo desemprego, a distribuição de rendas antes impossível e cujo povo vivia para dar lucros às grandes empresas é uma realidade, tirando milhões de pessoas da linha de pobreza. Talvez por isso, se desencadeiam propagandas contrárias ao desenvolvimento da regão o que, de certa forma, levarão os governos a tomarem decisão concreta em prol das conquistas até agora alcançadas. Os povos estão felizes e isso é o que importa!