Gilad, você se lembrará de nós?

13/07/2006 14:30

Nesta cara, um jornalista palestino se dirige a Gilad Shait, o soldado israelense seqüestrado em Gaza:

¿Sorria, Gilad Shait, você está em Gaza. Olhe, nós temos um mar azul e pão quente. Restam-nos também algumas crianças que as balas de vocês não abateram, mas que sofrem a fome que vocês lhes impõem. Mas não se preocupe. Nós cuidaremos das tuas feridas e não deixaremos de te abastecer com nossos pequenos estoques os remédios que você precise. Esteja seguro, Gilad Shait, nós não te faremos nenhum mal. Você se recuperará. E amanhã, quando você voltar para sua casa, você falará de nós. Você escreverá suas memórias calmamente, você verá viver sua cidade próspera, com ruas animadas e cheirosas com as flores de laranja. E se te retornam imagens de árvores abatidas, de casas destruídas, de cemitérios de adolescentes, de ruelas entulhadas de ruínas e perfuradas por crateras, você se recordará que tudo isso foi feito por vocês.

¿Aqui, você é nosso convidado, Gilad Shait, Apesar de teu uniforme militar. Apesar das ordens que você executa e que te comandam de nos bombardear de chumbo e de fogo. Tua única preocupação como bom soldado é obedecer as ordens e receber teu salário no fim de cada mês. Saiba, Gilad Shalit, que eu, há quatro meses que não recebo meu salário? Com tua permissão, Gilad Shalit, nós iremos te manter um tempo conosco. Para que você venha à minha casa e encontre os meus filhos. Você mesmo lhes perguntará o que eles querem nesse momento; e explicar por que eles não podem passar férias com os familiares que estão longe, que não têm direito de vir nos visitar. Você perguntará a meu caçula porque seu pai é tão duro com ele e com seus irmãos, nestes dias. Você lhes falará num canto, porque ele não ousará talvez lhe dizer na minha frente, que ele não recebe nenhum trocadinho para gastar. Você entrará na cozinha e abrirá a geladeira. Não se espante: ela está vazia!

¿Você conhecerá nossa vizinha. Ela passa sempre por casa. Ela nunca se recuperou de ter perdido seu marido, morte tontamente quando ele trazia para casa o casaco que tinha comprado naquele dia e que ele estava feliz de dar de presente à sua mulher para comemorar seu primeiro aniversário de casamento. Ele teve a infelicidade de passar pela rua El-Cheikh-Radwane (em Gaza) exatamente no momento em que explodia um carro atacado pela aviação de vocês! A vizinha ficará com a perda de seu homem amado, enquanto você, Gilad Shait, você tomará logo tua noiva nos teus braços, você a levará dançar. E você se esquecerá completamente que tuas mãos derramaram aqui o sangue de um inocente, abateram uma árvore ou fizeram desabar o teto de uma casa sobre seus habitantes.

¿ Não tenha medo, Gilad Shait, nós te alimentaremos com o que nós temos de melhor... Certamente, estamos muito conscientes que o pouco que nós temos não é digno de um soldado como você, acostumado a três refeições equilibradas por dia, acompanhadas desse agradável bebida estadunidense e seguidas por uma boa sobremesa. Mas seja indulgente. Porque nós não sabemos fazer como vocês. Vocês que nos oprimiram tanto, que usurparam tanto nossos direitos e que insistem em semear a morte entre nós.

¿Gilad Shait, eu sei que o poderio do exército de vocês lhe dá um sentimento de invulnerabilidade, que a Assembléia de vocês está mobilizada da forma mais grave pelo teu caso e que os agentes e amigos de vocês se mobilizam para conseguir te entregar à tua mãe, que chorará de alegria quando te abraçar de novo e a teu irmão, que te oferecerá um belo presente para aliviar teus sofrimentos e te fazer esquecer o que você viveu. Talvez até te ofereçam uma longa viagem para te ajudar a esquecer tua estada conosco. Salvo que nós não desejamos que você nos esqueça, como teus dirigentes esquecem a dor que vocês infligem a nossas mães e a nossas crianças. Nós não queremos que você esqueça as casas destruídas, as ruas bombardeadas, as arvores arrancadas nem os presos amontoados nas prisões de vocês e enchem de dor o coração dos seus familiares. Nós não queremos que vocês esqueça dos cemitérios sempre maiores onde são enterrados nossos adolescentes. Nós não queremos que você se esqueça das conseqüências de bloqueio que vocês fazem nos nossos estoques de remédios ou de farinha.

¿E lembre-se, Gilad Shalit, que nós não te trouxemos aqui para te matar, nem para te inquietar, mas que teus dirigentes saibam que eles não conseguirão nada contra nós que eles já não tenham feito e que a injustiça multiplica entre nós a força de deslocar as montanhas.¿


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