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26/03/2012 - Copyleft

O golpe e a ditadura militar

por Emir Sader em 26/03/2012 às 10:16



Emir Sader

O Brasil não era um país feliz antes do golpe de 1964. Mas era um país que dava sequência a um ciclo longo de crescimento econômico, impulsionado por Getúlio, como reação à crise de 1929. Nos anos prévios ao golpe era um país que começava a acreditar em si mesmo. Quem toma com naturalidade agora a Copa do Mundo de 1958 não sabe o quanto ela foi importante para elevar a auto estima dos brasileiros, que carregavam, desde o fatídico 16 de julho de 1950, o trauma do complexo de inferioridade.

Mas isso veio junto com a bossa nova, o cinema novo, o novo teatro brasileiro, um clima de expansão intelectual por grandes debates nacionais, pela articulação com grandes temas teóricos e culturais que começavam a preparar o clima da década de 1960.

O país nao foi surpreendido pelo golpe. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial militares que tinham ido à Italia tinham se articulado estreitamente com os EUA. Na sua volta, liderados por Golbery do Couto e Silva e por Humberto Castelo Branco, fundaram a Escola Superior de Guerra e passaram, a partir dali, a pregar os fundamentos da Doutrina de Segurança Nacional – concepção norteamericano para a guerra fria -, que cruzou a história brasileira ao longo de toda a década de 1950 até, depois de várias tentativas, desembocar no golpe de 1964 que, não por acaso, teve naqueles oficiais da FFAA seus principais líderes.

Durante a década de 1950 o Clube Militar foi o antro a partir do qual articulavam golpes contra o Getúlio – seu inimigo fundamental, pelo nacionalismo e por suas políticas populares e articulação com o movimento sindical. O suicídio do Getulio brecou um golpe pronto e permitiu as eleições de 1955, em que novamente os golpistas foram derrotados.

Fizeram duas intentonas militares fracassadas contra JK e elegeram Jânio, com a velha e surrada – mas sempre sobrevivente, até hoje – bandeira da corrupção. Se frustraram com a renúncia deste e naquele momento tentaram novo golpe, valendo-se do vazio da presidência e da ausência do Jango, em viagem para a China. A mobilização popular e a atitude do Brizola de levantar em armas o Rio Grande do Sul na defesa da legalidade, impediram e adiaram o golpe.

Mas os planos golpistas não se detiveram e acabaram desembocando em primeiro de abril de 1964 no golpe, que contou com amplo processo de mobilizações da classe média contra o governo, com participação ativa da Igreja católica, da mídia, das entidades empresariais, que desembocou na ação da alta oficialidade das FFAA, que liquidou a democracia que o Brasil vinha construindo e instaurou o regime do terror que passou a vigorar no Brasil.

Foi o momento mais grave de virada regressiva da história brasileira. Interrompeu-se o processo de democratização social, de afirmação econômica e política do pais, para impor a opressão econômica e politica, a subordinação externa, mediante uma ditadura brutal. O país, sob o comando dos militares, da Doutrina de Segurança Nacional, do grande empresariado nacional e internacional, do governo dos EUA, optou por um caminho que aprofundou suas desigualdades sociais, colocando o acento no mercado externo e na esfera de alto consumo do mercado, no arrocho salarial, na desnacionalização da economia e na opressão militar.

Completam-se 48 anos do golpe militar. Continua sendo hora de perguntarmos a todos: Onde você estava no momento mais grave de enfrentamento entre democracia e ditadura? Cada um, cada força politica, cada empresário, cada órgão da imprensa, cada igreja, cada militar. Os temas continuam atuais: denuncismo moralista a serviço do enfraquecimento do Estado, abertura escancarada da economia, resistência às políticas sociais e aos direitos do povo, uso da religião contra a democracia republicana e o caráter laico do Estado, uso da mídia como força politica da direita, etc. etc.

Que seja uma semana de reflexão e de ação politica. Que o governo finalmente nomeie os membros da Comissao da Verdade e que não passemos mais um primeiro de abril sem apurar tudo o que o regime de terror impôs pela força das botas e das baionetas ao país e que a democracia faça triunfar a verdade.

Tags: Política




4 Comentários Insira o seu Coméntario !

Zilda - 30/03/2012
Espero que não seja verdade que a Comissão da Verdade ainda não saiu porque Dilma quer impor a presença de FHC. Inclusive a visita que esse ente fez a Lula esta semana foi para tentar o apoio dele a esse pleito. Custo acreditar que essa criatura que merece o repúdio do povo brasileiro - pela dilapidação do patrimônio público -será trazida de volta ao cenário nacional pelas mãos do PT. Custo acreditar. também, que as forças políticas e intelectuais que apoiam o governo permitam tal afronta.


Pedro Castro - 27/03/2012
Caro Emir,

Alguns comentarios ao seu valioso artigo:

1) Salvo engano para o então dirigente Luis Carlos Prestes os comunistas estavam no governo Jango e não acreditavam que o golpe seria dado. Não obstante

ouvi de outro dirigente daquele Partido, 4 meses antes do golpe, a avaliação de que os generais estavam preparando um golpe de estado e o pior, dizia, era que a probalidade de conseguirem dá-lo era grande;

2) O General Golbery começou primeiro com o ILPES, salvo engano financiado com grana de fora e depois simultaneamente o Serviço Nacional de Informações e com a ESG;

3) Tenho duvidas se os oficiais das FFArmadas foram

os principais lideres do golpe. E os Magalhões Pinto,

ACM, Carlos Lacerda, Armando Falcão, Adhemar de Barros, Herbert Levi, Jaime de Barros Câmara, Alfredo Buzaid, Ranieri Mazzili, Antonio Delfim Neto, e tantos

outros, inclusive proprietarios dos maiores meios

de comunicação de massa ou outros empresarios dos setores agropecuario, industrial e de serviços e comercio?

4) A desnacionalilzação sem duvida foi efetiva, mas

em certa medida relativa, enquanto fortaleceu algumas

empresas estatais (Petrobras.Eltrobras, CSN, Vale do Rio Doce, BB, CEF e varias ouotras);

5) Você pergunta: Onde estava? No meu caso numa

coporação militar estadual e simultaneamente no

movimento estudantil universitário e no desdobramento em 3 prisões (1964/1970/1972, esta ultima nas masmorras do DOI/COI, da Rua Barão de Mesquita);

6) A abertura escancarada da economia, salvo melhor juizo, deu-se mais no governo FHC e infelizmente a privatização tem continuado, a exemplo de atividades do Instituto de Resseguros, da Petrobras e ANP e já agora dos principoais aeroportos do pais;

7) Sem duvida é preciso tanto nomear os membros

da Comissão da Verdade quanto prestigia-la para que possa efetivamente funcionar. Mas isso é o minimo

necessário no caso dela, é preciso rever as restrições

que já lhe foram criadas desde o nascedouro!


Maquinho Santa Fé - 09/04/2012
E a mídia ainda vem querer posar como defensora da democracia, fala sério!


Marcia Eloy - 03/04/2012
Acho que naquela época, o povo, isto é a classe pobre, não participava da política. Quem governava era a elite economica e a classe média era a classe politizada e que comandava as eleições. Mas,esta classe era dividida entre pessoas de esquerda, nacionalistas e outra parte que era influenciada pela mídia e achava que estávamos na véspera de ser instalado no Brasil um governo comunista. Prevaleceu esta parte,porque ao se comparar a multidão que tomou as ruas no enterro do Getúlio,e as ruas quase vazias no dia do golpe, me pergunto: onde estava o povo? E o povo que estava presente no Comício da Central? Os sindicalistas, os operários? Não consigo entender esta omissão...