Pablo Iglesias: um novo dirigente, para uma nova esquerda

'O desafio do Podemos será conquistar pela via eleitoral o poder político para fazer uma política de transformações. E isso implica em enormes dificuldades'

22/02/2015 08:06

Vicente José Nadal Asensio / Flickr

Créditos da foto: Vicente José Nadal Asensio / Flickr

Os novos tempos a que se lança a Europa têm novas caras e novas formas de ação. Felizmente, porque as antigas tinham se esgotado. Syriza e Alex Tsipras, Podemos e Pablo Iglesias, são suas expressões mais conhecidas.
 

Pablo Iglesias é um professor de ciência politica da Universidade Complutense de Madri, apresentador de um programa de entrevistas por internet – que está na pagina do jornal espanhol Publico – e animador de uma série de projetos muito criativos, que revelam a amplidão dos seus interesses.
 

Além de dirigir o Podemos, de dar centenas de entrevistas, de escrever outros tantos artigos, Iglesias encontrou tempo para organizar e publicar dois livros surpreendentes. Um, Lições de ciências sociais através do cinema, com o titulo de “Quando os filmes votam”, com textos de vários autores sobre filmes e correspondentes categorias politicas. Como, por exemplo, a violência, abordado por ele mesmo, a partir do filme A batalha de Argel. O liberalismo, através de Dogville. A revolução, através de Espartaco. A democracia, através de Star Wars. A liderança, por meio de Lawrence da Arabia. O movimento operário, através de Germinal. O posfordismo, por medio de American Beauty. O feminismo, através de Mad Men.  A alienação, através de Blade Runner, entre outros.
 

O outro livro organizado por Pablo Iglesias está concentrado em torno da série A guerra dos Tronos, sob o titulo Ganhar ou Morrer, com artigos sobre distintos temas em torno da série, também na perspectiva de análise de categorias políticas. Como, por exemplo, caos, legitimidade e poder, política e guerra, guerra pelo poder, a subversão feminista, poder e subjetividade, corpo e politica, entre outros.
 

Mas as atividades de Pablo Iglesias se concentram cada vez mais em torno dos desafios do Podemos, ainda mais em um ano decisivo na Espanha como este. Em um livro recém publicado – Momentum, entrevistas feitas por Orencio Osuna, Editora Icaria – ele concede uma entrevista onde expõe as formas como o Podemos está encarando esses desafios. Define a si mesmo como “alguém que se considera marxista e que tem a esquerda tatuada nas entranhas”.
 

Com a palavra, Pablo Iglesias:
 

“O desafio do Podemos será conquistar pela via eleitoral o poder político para fazer uma política de transformações. Tudo isso coloca enormes dificuldades e cenários muito complexos... Assim, pois necessitamos prudência, humildade e seguir trabalhando, como diz o Cholo Simeone, jogo a jogo, evitando cometer erros, como os do próprio Simeone, que as vezes podem te deixar no banco por alguns jogos.
 

“Estamos no momento da política. A política implica brindar inteligência a circunstâncias e contextos que não escolhemos. Nós não escolhemos as etapas que tem o curso da política. Elas são o que são e, a partir daí, é fundamental que joguemos com o máximo de inteligência para não deixarmos de ser úteis, para sermos um instrumento político para a transformação. Cometeríamos um erro se antepuséssemos o interesse de Podemos como marca política de sucesso às necessidades de transformação do nosso país. E nós sabemos muito bem que fazer política é buscar os melhores cenários para o enfrentamento. Que fazer política é provocar as contradições do adversário, e isso também  nós temos que aplicar a nós mesmos em um contexto que pode ser difícil e desfavorável para nós. É aí onde teremos que demonstrar que estamos à altura politica das circunstâncias, se acumulamos suficiente inteligência coletiva, se vamos sair do nosso processo constituinte com uma equipe com capacidade para tomar decisões políticas para as pesoas que sejam as acertadas e as adequadas para a transformação política ou se, ao contrario, nossos adversários são capazes de levar-nos a terrenos que não nos favorecem e que, portanto, detenham essa experiência de transformação.”
 

“Mas devo dizer que também existem setores na esquerda que têm que fazer uma enorme autocrítica de suas posições de sua prática política. De fato, é inegável que o próprio fenômeno Podemos é o resultado do fracasso da esquerda tradicional, que foi incapaz  de fazer um diagnóstico do que acontecia realmente no pais.”
 

“As propostas políticas do Podemos, seguramente, poderiam ter sido assinadas por qualquer partido social democrata há 30 ou 40 anos atrás. Propomos uma reforma fiscal justa que faça com que as rendas mais altas paguem mais, propomos uma auditoria e pagamento da dívida pública, propomos proteger os serviços públicos, propomos combater a corrupção, propomos uma politica externa que respeite os direitos humanos, em suma, o que estamos propondo teria sido aceito pela social democracia reformista."

 

 







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