Vitória política e derrota ideológica da esquerda?

Na América Latina foram significativas as vitórias sobre o neoliberalismo, sem que se tenha conseguido modificar o consenso geral na sociedade

17/10/2021 17:01

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Créditos da foto: (Reprodução/pt.org.br)

 
Eu coloquei como citação de abertura do meu livro ''Lula e a esquerda do século XXI'', entre outras, a paradigmática e desafiadora citação de Perry Anderson: "E quando, finalmente, a esquerda chegou ao poder, tinha perdido a batalha das ideias."

Trato de encarar o desafio, mas é certo que ele continua atual. Manolo Monereo também enfrenta o desafio para a Espanha no seu artigo "Tomar a serio a Vox", abrindo o artigo com a afirmação: "O melhor é começar pelo importante: o imaginário politico-constitucional e a simbologia do sistema esta’ fortemente hegemonizado pela direita."

Antes de tudo Monereo retoma uma afirmação característica dos novos traços da direita: uma direita sem complexos, que não admitia a superioridade moral da esquerda. Na América Latina se deu algo similar: a direita tratou de tirar de suas costas o peso das ditaduras militares, ainda que encontrando as formas de defender teses fundamentais daquele regime: a crítica da política, do Estado, a desqualificação da esquerda, entre outras.

Mas os desafios maiores para a esquerda são: é possível uma vitória politica sem hegemonia ideológica? Entre as citações do meu livro, coloquei outra, igualmente paradigmática, esta de Álvaro García Linera: "Toda vitória política é precedida por uma vitória no campo das ideias."

Como combinar as duas? A esquerda teve, na América Latina, as únicas grandes vitorias sobre o neoliberalismo no mundo, com os governos na Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador e México. Mas foi onde teve, também, derrotas graves: Brasil, Bolívia, Argentina, Equador – algumas revertidas – como nos casos da Argentina e da Bolívia -, mas não menos significativas, até porque deixaram suas marcas, ainda quando a direita voltou a ser derrotada.

Como destaca Monereo, recordando a Gramsci: "Toda sociedade necessita se autorrepresentar, construir imaginários que validem as instituições a uma simbologia que os identifique." Não se trata da história dos historiadores, recorda ele, mas da "que se possa converter em sentido comum das massas, em fundamento de uma identidade". Isto é, dos consensos realmente existentes na sociedade.

Na América Latina foram significativas as vitórias sobre o neoliberalismo, sem que se tenha conseguido modificar o consenso geral na sociedade. Mas qual foi a vitória no plano da luta das ideias, para que essas vitórias tivessem sido possíveis?

A ideia-força fundamental para que essas vitórias fossem possíveis foi a de que a desigualdade – e suas consequências: miséria, fome, desemprego – passasse a ser considerada a questão fundamental das nossas sociedades. Foi a partir dessa vitória que esses governos privilegiaram as políticas sociais para diminuir as desigualdades – objetivo logrado em grande medida. Esses países foram os únicos no mundo que conseguiram diminuir as desigualdades de maneira significativa.

Foi suficiente para as vitórias eleitorais e que os governos antineoliberais tivessem sucesso. Mas não para mudar substancialmente os consensos neoliberais. Estes se haviam consolidado ao longo das décadas de 1980 e 1990 em todo o mundo.

Em que consistiam estes? Em primeiro lugar, na desqualificação do Estado e das empresas públicas. Em segundo, na desqualificação da política. Em terceiro, na prioridade do equilíbrio das contas públicas. Em quarto, na centralidade do mercado e na apologia da empresa e dos empresários privados. Da mesma forma que a centralidade do consumo e do consumidor em detrimento do cidadão e dos direitos sociais.

Os governos antineoliberais triunfaram várias vezes na América Latina, com a prioridade das políticas sociais e as análises que levam a isso. Essas vitórias políticas se basearam nessa proposta política, mas ao longo desses governos não se deu uma reversão dos consensos ideológicos da direita.

Não se reverteu a imagem negativa do Estado, mesmo se, na prática, o Estado tenha revertido seu papel, passando a uma função ativa de indução do crescimento econômico, de implementador de políticas sociais, fonte de geração de empregos. Mas não se desenvolveu paralelamente um discurso de reinvindicação do Estado, de resposta às desqualificações da direita. Ou, na medida em que houve, não teve os efeitos a ponto de mudar a imagem do Estado no conjunto da opinião pública.

O mesmo aconteceu com as empresas públicas. Como exemplo, durante os governos do PT a Petrobras se tornou a maior empresa brasileira e uma das maiores empresas petrolíferas do mundo. Mas o que predominou foi a desqualificação da Petrobras, por acusações de corrupção.

As vitórias políticas da esquerda se assentaram em propostas políticas que conquistaram a maioria da população desses países, mas sem reverter os consensos ideológicos conservadores. Essas vitorias foram assim possíveis, mas não conseguiram se consolidar nas mentes e espíritos da grande maioria, por não lograr impor novos consensos ideológicos no plano determinante da luta de ideias.



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