Eder

O Eder foi um militante político, um professor, um intelectual revolucionário. Eu serei sempre o seu irmão menor, o irmão do Eder

16/08/2021 15:43

Éder Sader (Arquivo pessoal)

Créditos da foto: Éder Sader (Arquivo pessoal)

 




O Eder era uma pessoa única. Impossível descrevê-lo ou defini-lo. Só quem conviveu com ele sabe que tipo de pessoa ele foi.

Circulando por todo o Brasil e inclusive fora do Brasil, sempre encontro pessoas que vêm me dizer que conheceram o Eder. Sei que tenho, como eles, esse sentimento de tê-lo conhecido, de saber quem ele foi.

Eu tive o privilegio de ser o irmão dele e de ter nele o meu melhor amigo. Fomos o Negão – ele – e o Neguinho – eu –, os filhos da Nega – nossa mãe. Vivemos no mesmo quarto da mesma casa os primeiros 20 anos da minha vida. Deitados cada um na sua cama, com os pés na parede, passando a limpo o dia, o Brasil e todo o mundo.

Até hoje, mais de 30 anos da morte dele, tem gente que me chama de ''Eder''. E quando se dão conta, pedem desculpa, quando na verdade eu me sinto bem por ser chamado pelo seu nome.

Uma diferença – que terminaria a definir destinos distintos – para nós, é que, sendo filhos dos mesmos pai e mãe, de forma inexplicável, o Eder era hemofílico e eu não. Tínhamos a sensação de que ele viveria menos. Mas que não seria tão cedo. Ele foi vítima – como o Betinho e todos os seus irmãos – da AIDS, tendo feito transfusão de sangue antes ainda, o que lhe foi fatal.

O Eder sempre foi a referência fundamental pra mim. Ele, quase dois anos mais velho, ia à frente e eu o seguia. Íamos sempre juntos.

Começamos a militância política juntos numa esquina da Brigadeiro Luís Antônio. O Michael Lowy nos deu um jornalzinho da Liga Socialista, com a foto de uns barbudos que tinham derrubado uma ditadura na America Central – naquela época ainda não havia o Caribe por aqui. Começamos a militância com a solidariedade com Cuba.

O Eder se encaminhou para as ciências sociais, orientado pelo nosso tio – Azis Simão, o primeiro professor cego da USP, sociólogo. Que mais tarde orientou o livro clássico – ''Quando novos personagens entraram em cena''. Eu escolhi fazer filosofia – orientado pelo José Arthur Giannotti.

Militamos juntos, fomos juntos para a clandestinidade. Antes havíamos casado, tido nossos primeiros filhos. Saímos ambos para o exílio. Nos reencontramos no Brasil e convivemos, com o mesmo gosto de sempre.

Até hoje sonho constantemente com o Eder, com a naturalidade como se continuássemos a conversar. Foi e continua sendo o meu melhor interlocutor, para conversar sobre tudo.

O Eder foi um militante político, um professor, um intelectual revolucionário. Sobretudo, foi um ser humano extraordinário. Extremamente sensível, adorava a musica, a literatura e o cinema. Era um marxista de mão cheia. Criativo, antidogmático, formador de gerações de militantes – que até hoje me buscam para manifestar o peso que o Eder teve na vida deles. Eles pertencem a varias gerações, a um grupo enorme que teve o privilegio de ser formado teórica e politicamente pelo Eder.

Eu serei sempre o seu irmão menor, o irmão do Eder. Ele, o meu irmão mais velho, o meu maior exemplo, o meu maior amigo.

*Eder Sader faria 80 anos no próximo sábado, 7 de agosto (saiba mais clicando aqui)


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