Antifascismo

''O homem branco gosta de matar índio no Brasil''

Davi e Dario Kopenawa Yanomami denunciam na Sorbonne as invasões de terra e assassinatos de indígenas e dizem que o dinheiro destrói o pulmão da terra

05/11/2021 15:15

 

 
Enquanto o mundo debate em Glasgow o futuro da vida no planeta azul, nesta quarta-feira 3 de novembro, em Paris, Davi e Dario Kopenawa Yanomami brilharam pela sobriedade e força do depoimento sobre as recorrentes invasões das terras indígenas, assassinatos de líderes e até mesmo de crianças.

A ganância do branco quer o ouro, o diamante e o nióbio que a terra yanomami guarda em seu subsolo.

Diante de uma platéia de franceses e de brasileiros, que lotou o grande anfiteatro Descartes da Sorbonne, os dois Yanomami – convidados pela ONG Survival International, que luta pela defesa dos direitos dos povos autóctones – relataram com detalhes as agressões constantes a que estão expostos os povos indígenas do Brasil, sob o governo de Jair Bolsonaro.

“O homem branco gosta de matar índio no Brasil. A soja e o boi estão destruindo a floresta amazônica. O fogo está matando a floresta, o meio ambiente está sofrendo. Os animais, os peixes estão em extinção, as águas são contaminadas. A obra do governo não é boa para o povo indígena, ele só faz destruir o meio ambiente e a floresta nativa. Nosso criador foi quem criou a floresta que o governo não respeita e quer derrubar. Foi ele quem criou o índio mas foi ele também quem criou o branco ».

Antes de começar sua fala, Davi Kopenawa olhou para a madeira da grande mesa da Sorbonne na qual estava sentado com mais três pessoas e disse : « Esta madeira deve vir da Amazônia ».

Ele ressaltou a importância de falar para europeus e ouvir o que eles têm a dizer pois vivem « em dois mundos separados ».

Davi Kopenawa se apresentou como porta-voz do seu povo, xamã e presidente da Associação Yanomami na cidade de Roraima. Segundo ele, seu povo é constituído de 30 mil pessoas habitando uma área dos estados de Roraima e do Amazonas. Mas os garimpeiros ilegais, que invadem a terra Yanomami em busca de ouro, de diamante e de nióbio, já são mais de 50 mil. Em torno da região calcula-se que já são uns 100 mil invasores. Tudo se acelerou de 2019 até hoje.

O xamã apontou um celular dizendo que é para fabricá-los que os brancos invadem a floresta.

Sabe-se que o nióbio, assim como um metal chamado tântalo, encontrados no norte do Brasil, são usados para fabricar celulares.

« O mundo deve proteger a alma da floresta, os rios, os igarapés que estão sendo destruídos. É o dinheiro que destrói o pulmäo da terra. O Brasil destruiu o rio Xingu para fazer Belo Monte e não funciona, não serve para nada », desabafou David Kopenawa.

Seu filho, Dario Kopenawa, citou um dossiê de ONGs de direitos humanos que atestaram a morte violenta de 304 indígenas no ano passado. Além dessas mortes de adultos, houve 776 mortes de crianças de 0 a 5 anos por omissão do governo.



« Querem acabar com nossos territórios. Todos os 305 povos indígenas do Brasil estão ameaçados”, disse Dario que contou a morte trágica de quatro crianças yanomami : duas foram aspiradas por por uma máquina do garimpo ilegal e duas outras morreram afogadas ao caírem no rio, tentando fugir com os adultos de tiros de invasores que chegam armados até os dentes.

Dario Kopenawa terminou fazendo um apelo :

« Nosso mundo está acabando, vamos nos unir para proteger nossa mãe-terra, o mundo está pedindo socorro. Vamos salvá-lo ».

Um menino de 10 anos, que faz parte do conselho de vereadores-mirins de Paris perguntou como eles podem ajudar a salvar o planeta e as populações autóctones ameaçadas.

« Falem do que está se passando, ajudem-nos a denunciar os crimes », respondeu Dario.

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.



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