Cultura e Arte

Filmes investigam o atentado do Riocentro e o sumiço do Che

Os documentários 'Missão 115' e 'Che, Memórias de um Ano Secreto', em cartaz no Festival É Tudo Verdade, trazem à tona informações preciosas sobre dois eventos que marcaram a história latino-americana recente.

16/04/2018 09:03

Reprodução

 
A bomba que implodiu a ditadura

Missão 115
era o codinome da operação que pretendia detonar uma bomba durante o show do Primeiro de Maio de 1981 no Riocentro. Como se sabe, os dois oficiais do Exército encarregados da tarefa foram atingidos pela explosão do artefato ainda no estacionamento, causando a morte instantânea de um deles. O atentado descerrou de vez a cortina sobre o sistemático terrorismo praticado naquela época pela linha dura do regime militar com o intuito de barrar o processo de abertura. A bomba no Riocentro pretendia incriminar a esquerda e instaurar um clima propício ao endurecimento do regime.

Missão 115

Pela primeira vez no cinema brasileiro, aquele episódio protagoniza um filme de longa metragem. Silvio Da-Rin levanta detalhes e denúncias importantes sobre a preparação, as tentativas de acobertamento e as consequências políticas do crime. Um de seus perpetradores diretos, o ex-delegado e hoje pastor evangélico Claudio Guerra, descreve sua participação com a costumeira pachorra, assim como já fizera em relação a seus incontáveis assassinatos, ocultação de cadáveres e queima de arquivos no curta Uma Família Ilustre e no longa Pastor Claudio, ambos de Beth Formaggini. Esse homem, em seu permanente estado de confissão, já se tornou uma celebridade macabra no documentário brasileiro.

Mas Missão 115 não se limita a relembrar o Riocentro. Antes o emprega como núcleo de uma constelação de ocorrências no capítulo do terrorismo de estado. Historiadores, sociólogos, pesquisadores e jornalistas somam-se para compor um painel amplo de análise que vem dos muitos atentados cometidos pelo chamado "grupo secreto" de agentes públicos na virada dos anos 1970-1980 até as démarches da distensão com Figueiredo e Golbery, a discussão dos benefícios e insuficiências da Lei de Anistia, o papel da Comissão Nacional da Verdade e a impunidade que se perpetua em relação a torturadores e matadores como Claudio Guerra.

Silvio Da-Rin tem envolvimento direto com o assunto. Foi preso político e militante de organizações de resistência à ditadura. Seu documentário Hércules 56 visitou as memórias de quem participou ou se beneficiou do sequestro do embaixador americano em 1969. Depois de abordar questões indígenas e do sertanismo em Paralelo 10, ele retoma o tema da ditadura com Missão 115. Aqui participa muito discretamente na frente da câmera, mas, por trás dela, deixa patente sua habilidade em dissecar a História pela boca de quem a conhece tanto ou mais que ele. 

Missão 115

Independente de suas próprias convicções, nos seus filmes Silvio não traz a História como coisa dada. Ao invés disso, busca uma dialética de opiniões com nuances distintas, às vezes até divergentes, como a mostrar que o passado é sempre uma projeção de memórias, interpretações e acomodações mentais. Com grande eloquência e clareza expositiva, Missão 115 aponta o atentado do Riocentro como um escândalo ainda não totalmente esclarecido. E um alerta para a escalada de aventureiros fascistas que hoje nos assombra quase tanto como naquela época.

Missão 115 ainda tem as seguintes sessões no festival:

16/04/2018 às 20h30 no Estação Botafogo (RJ)

18/04/2018 às 14h00 no IMS Rio

19/04/2018 às 13h00 no Sesc 24 de Maio (SP)

A grande aventura clandestina do Che

Donde está el Che? – era a pergunta que os cubanos e o resto do mundo se faziam entre dezembro de 1965 e julho de 1966. Che – Memórias de um Ano Secreto a responde com riqueza de detalhes a partir dos depoimentos de três agentes secretos e um protético que participaram da aventura clandestina de Che Guevara no Congo Belga, na Tanzânia e na ex-Tchecoslováquia. Sem dúvida, o filme da cubano-brasileira Margarita Hernández é um dos grandes documentários históricos da temporada.

Uma extraordinária pesquisa de personagens, locais e arquivos sustenta um roteiro impecável de thriller, com tintas de análise política e toques de comédia. Em nenhum momento, Margarita e seus montadores (Leyda Napoles e Mair Tavares) descuidam da forma cinematográfica em troca da mera informação. Prova de que um documentário pode ser tão sedutor quanto revelador.

Che

O Che era Ministro da Indústria de Fidel quando se sentiu insatisfeito com o papel de funcionário público e partiu com uma pequena tropa cubana para o Congo Belga (hoje Zaire), a fim de auxiliar os rebeldes congoleses a dar continuidade à luta de libertação empreendida por Patrice Lumumba. Levava um passaporte uruguaio com a identidade de Ramón Benítez Hernández. Após o golpe de Mobutu Sese Seko e alguns meses decepcionantes junto a guerrilheiros desmotivados, divididos em tribos e submissos a mitos de feitiçaria, ele partiu sozinho para a Tanzânia.

Segundo os que estiveram com ele nessa fase, Che não voltou a Cuba porque Fidel havia lido publicamente sua carta de despedida definitiva. Não queria desmenti-la. Em Havana, foram 20 anos sem que ninguém mencionasse a missão no Congo. Para sair da África, caçado por serviços de inteligência de vários países, Che recebe um disfarce com dentes postiços e próteses. Vai para Praga, onde passa vários meses, escreve muito, protagoniza boatos amorosos e inspira escritores como Abel Posse, autor do semificcional Os Cadernos de Praga. Em 1966, com disfarce ainda mais radical, volta clandestinamente a Cuba para preparar a luta na Bolívia.

Che

O filme refaz esse trajeto com clareza cristalina e ritmo de aventura. Os depoimentos dos ex-agentes e do protético encarregado dos "mascaramentos" do Che exalam carisma, humor e noção de narratividade. Margarita engaja, ainda, outros personagens que vão somando ao mapeamento, às vezes com um pequeno dado, uma curta reflexão, mas que resultam numa rede de grande alcance a respeito do cotidiano underground do Che. Ganham destaque também os reflexos da cultura pop dos anos 1960 (Beatles, James Bond, etc) sobre aqueles homens metidos até os cabelos com o projeto da revolução socialista.

Vinhetas de reconstituição dramatizada, que normalmente representam um perigo para esse tipo de documentário, aqui se acomodam com sutileza e propriedade na narrativa. Chama atenção a qualidade dos materiais de arquivo, tanto em termos de ilustração, quanto de conservação e raridade, e cuja maioria provém do ICAIC cubano. As imagens de Ernesto menino numa praia encerram gloriosamente um filme que, mesmo sem tecer loas a seu personagem, o torna ainda mais fascinante. Como se, no caso do Che, isso ainda fosse possível.



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