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1968 é um ano para não se esquecer. Quem viveu, viu. No Brasil, no Vietnã, em Paris ou em Berlim

14/02/2018 10:06

 

Por Flavio Aguiar

Até hoje se discute se o maio de 1968, que explodiu em Paris, nasceu no Vietnã ou em Berlim.

Em fevereiro daquele ano os Vietcongs começaram a Ofensiva do Tet. Além de sacudirem todo o Vietnã do Sul, os viets entraram no pátio da Embaixada dos Estados Unidos, um feito inédito até então. Ficou famosa a foto e o filme do general sul-vietnamita matando a sangue frio, com um tiro na cabeça, o guerrilheiro vietcong. Escreveram-se muitas justificativas: dizia-se que o guerrilheiro tinha matado o irmão do general; depois, que matara uma família inteira, crianças inclusive. Será? Gostaria de ver provas. O que é insofismável é que a imagem do assassinato a sangue frio na frente das câmeras ficou como um símbolo da guerra, assim como a foto da menina queimada por napalm correndo na estrada.

Em Berlim os espíritos também se agitavam. Havia perguntas no ar: papai, mamãe, vovô, vovó, titia, titio, onde evoqueis estavam e o eu fizeram durante a Segunda Guerra e o regime nazista? O motivo era óbvio: Konrad Adenauer, o chanceler conservador do após-guerra, declarara encerrada a toque de caixa, uma dezena de anos antes, a “desnazificação”. O resultado é que muitos ex-nazis estavam retomando, calmamente, suas funções, inclusive nas universidades. A revolta estudantil era iminente, e aconteceu. Entre outros motivos, ressaltava-se a oposição à guerra norte-americana no Vietnã. As pinças se fechavam. E depois se abriram em Nanterre e Paris, em maio. Alias, também nos Estados Unidos e no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Em abril o líder estudantil Rudi Dutschke sofreu um atentado a bala. Sobreviveu, mas ficou com sequelas que viriam a mata-lo onze anos mais tarde, num acidente numa banheira, em que morreu afogado. Já antes, em junho de 1967, o estudante Benno Ohnesorg fora fatalmente baleado numa manifestação contra a vista do Xá da Pérsia, Reza Pahlavi, num episódio que ate hoje é motivo de controvérsia: uma das versões diz que o policial que atirou era um agente duplo, das forças de segurança de Berlim Ocidental e da Stasi, de Berlim Oriental.

Em São Paulo a Faculdade de Filosofia da USP vivia o tempo das Comissões Paritárias. Uma batalha desigual, entre os estudantes mal-armados enfrentando os fascistas do Mackenzie que atiravam de fuzil dos telhados em frente ao prédio da rua Maria Antonia, apoiados pela polícia, encerrou aquele ciclo libertário e comovente.

Haveria mais e muito mais. Também em abril Martin Luther King foi assassinado em Memphis, Tennessee. Robert Kennedy seria assassinado em junho. Em março o estudante Edson Luis foi assassinado no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. E o Brasil seria mais uma vez assassinado em 13 de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional n•5.

Em suma, aquele é um ano para não se esquecer. Quem viveu, viu. No Brasil, no Vietnã, em Paris ou em Berlim.

PS 1 - Assisti na 5a. feira a pré-estreia para a imprensa do documentário “O processo”, de Maria Augusta Ramos, sobre o impeachment da presidenta Dilma. Por uma regra da Berlinale, não posso comentar o filme antes de sua estreia aberta ao público, no dia 21. Posso dizer que gostei.

PS 2 - Também em fevereiro se comemoram os 75 anos do fim da Batalha de Stalingrado, o turning-point da Segunda Guerra. Segundo estimativas imprecisas, as baixas nazistas foram de cerca de 630 mil homens, e as soviéticas, mais de 1 milhão e 200 mil, entre mortos, doentes e feridos. E os nazistas tiveram o apoio de divisões romenas, italianas, húngaras, croatas e espanholas.



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