Cartas do Mundo

Carta de Bogotá: Atentado contra Petro: o fantasma da violência contra a esquerda colombiana

 

06/03/2018 10:27

 

 
A tensão se instalou no ambiente eleitoral colombiano após o atentado contra o candidato Gustavo Petro, da coalizão esquerdista Colômbia Humana, durante um ato de campanha na cidade de Cúcuta. Também significa que o fantasma da violência começa a rondar o país, às vésperas da eleição legislativa, que acontecerá neste 11 de março.

Já era previsto que a presença de Petro seria caótica, desde que ele denunciou que o prefeito da cidade, César Rojas, mandou desarmar o palanque onde iria discursar, e o que foi mais preocupante, desmantelou o aparato municipal de segurança para sua visita. Se repetia, assim, o que aconteceu durante a visita de Petro a Medellín, onde o prefeito Federico Gutiérrez tomou as mesmas medidas, embora aquele episódio tenha tido algumas nuances diferentes.

Por sua parte, o prefeito de Cúcuta assegurou que havia decretado antecipadamente que não permitiria nenhuma manifestação política a menos de 200 metros do palácio municipal nos dias próximos à votação do próximo domingo. O ato da campanha de Petro estava previsto para acontecer no Parque Santander, em frente ao edifício da prefeitura.

O candidato defendeu sua campanha: “o direito à reunião política é fundamental, está escrito na Constituição e não necessita de permissão de nenhuma autoridade, basta notificação com um mínimo de 48 horas de antecipação, segundo a lei”, o que foi confirmado por Guillermo Rivera, ministro do Interior colombiano.

Logo ao chegar na cidade, o candidato recebeu uma chuva de pedras enquanto se deslocava cidade dentro de sua caminhonete blindada. Antes, já havia sido informado sobre a utilização de gases lacrimogêneos por parte da polícia, que atuaria para dispersar a multidão que o esperava. Um elemento, possivelmente uma bala, golpeou a janela do lado em que ele estava, e quebrou a blindagem (o que demonstra a falta de segurança nos veículos fornecidos pelo governo).

Quem estaria por trás desses ataques? Petro não duvidou em acusar o próprio prefeito César Rojas, além do ex-prefeito Ramiro Suárez – o candidato lembrou, durante seu discurso: “eu mesmo o denunciei como assassino e paramilitar”. Aliás, Suárez está preso, foi condenado a 27 anos de prisão por ser o autor intelectual de um homicídio, em 2003.

César Rojas chegou à Prefeitura de Cúcuta com o apoio do questionado partido Opção Cidadã, através de um acordo entre o dono do partido, Luis Alberto Gil (ligado ao paramilitarismo de direita) e o já mencionado Ramiro Suárez Corzo, que nesse então já se encontrava preso.

Para o candidato Petro, o episódio deste fim de semana se tratou de um plano pensado para atentar contra ele e sua campanha. Considera que a polícia o levou ao ponto onde seu carro era um alvo fácil. Mais tarde, ele também denunciou que Rojas tentou contratar a torcida organizada do clube da cidade, o Cúcuta Deportivo, para que realizasse a sabotagem, mas que a mesma se negou a fazê-lo, e que por isso utilizaram cidadãos venezuelanos que vivem na cidade (próxima à fronteira entre os dois países).

A campanha de Petro publicou vídeos onde se pode ver de onde vieram os disparos, locais próximos aos que o veículo passou durante seu trajeto. “Isso demonstra que a polícia do prefeito de Cúcuta me levou ao local exato onde houve o atentado. Simples assim. E o Presidente da República se cala diante disso”, comentou o candidato.

Após o atentado, Petro passou a reforçar a imagem de principal candidato contra o continuísmo e perseguido pelo establishment e pelo paramilitarismo.

Também aproveitou para abrir uma brecha com o ex-vice-presidente e também candidato presidencial Germán Vargas Lleras, com quem já se havia enfrentado em debates sobre o modelo econômico e sobre o incidente entre os soldados do exército colombiano e as comunidades indígenas do Vale do Cauca, armados com machadinhas.

Enquanto isso, o candidato presidencial da FARC, Rodrigo Londoño (conhecido desde os tempos de guerrilheiro como “Timochenko”), será operado na próxima semana, após ser internado por uma súbita dor torácica, numa intervenção que aparentemente de baixa gravidade. Mesmo assim, a operação deverá obrigá-lo a ficar fora de ação durante dois meses. Apesar dessa situação, Londoño descartou renunciar à candidatura.


Camilo Rengifo Marín é economista e acadêmico colombiano, investigador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

www.estrategia.la






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