Cartas do Mundo

Carta de Berlim (10): Lula e a hora das verdades e das mentiras

 

19/04/2018 08:58

 

 
A carta desta semana vai ser uma colcha de retalhos.

Começo derramando uma lágrima pelo amigo Paul Singer. Entrevistei-o várias vezes, inclusive nos tempos em que eu era o âncora do programa “Olhar da USP”, na TV USP, função de que fui afastado por estas “invejosidades” que marcam o aparentemente plácido mundo universitário. Numa das memoráveis ocasiões, entrevistei-o junto com este outro economista solidário, Ladislau Dowbor. Perguntei-lhe: “quer dizer que ensinar economia hoje é, na maior parte das vezes, tornar aceitável o inaceitável?”. Ele concordou. Mas não era destes, era dos que tentavam aproximar a economia e o ensino de suas disciplinas do horizonte do possível, não da submissão.

Continuo derramando outra lágrima, pelo jornalismo atual. Já não me refiro às mentiras deslavadas que povoam a mídia mainstream brasileira e também a mundial. Li em prestigioso site alternativo sobre a reação irada de colunista da Folha de S. Paulo diante de editorial do NY Times que favoreceria Lula. É verdade que o editorial comentava o perigo por que passava a democracia no Brasil. Mas dava duas no cravo, duas na Lava Jato, ambiguamente. O que me chamou a atenção foi que no relato alternativo o destaque ia pra reação irada do colunista da Folha, não para o editorial do NYTimes. Tenho visto muito seguido esta reação em comentários à esquerda: a reprodução, em destaque, das mentiras, falácias e diatribes da direita, como dizendo: “olhem o que temos de sofrer”. Ao contrário de apontar as críticas e reações que subsistem.

Tomo como exemplo a Alemanha nazista: foram milhões os que apoiaram o regime. Mas houve centenas de milhares, talvez mais, que, arriscando e muitas vezes perdendo as próprias vidas, resistiram, salvando outras. Estes valem mais do que aqueles, e devem ser destacados, sem que se perca de vista a cumplicidade destes últimos.

Como se diz da foto, um gesto de resistência vale por mil palavras dos néscios, pandorgas, idiotas e canalhas que apoiam as atrocidades jurídicas, políticas, econômicas e jornalísticas que hoje se cometem no Brasil.

No último fim de semana o mundo provou o aperitivo do que pode ser a Terceira Guerra Mundial. Aparentemente, ela poderia ter sido provocadas por um néscio intempestivo, Donald Trump e o ataque por ele ordenado contra bases sírias em território povoado também por forças iranianas e, sobretudo, russas. Hoje ele canta vitória, dizendo que o coração das armas químicas de Bashar al-Assad foi destruído. Mas quem saiu ganhando mesmo foi Vladimir Putin, o monarca de Moscou, que pousou de equilibrado e racional diante do desmiolado presidente em Washington. 

Mas cabe a pergunta: quem manda de fato em Washington?

Vou trazer à baila uma confissão. Quem me falou pela primeira vez, e há muito tempo, que por trás das investigações sobre a Petrobras estava o dedo norte-americano foi o editor-chefe desta página, Joaquim Palhares. Naquela época (uns três anos atrás, talvez quatro) fiquei com uma pulga na camiseta: quem seria este “Washington”? Obama? Duvido. Hoje me lembro do livro de Fred Cook, “O Estado Militarista”, dos anos 60, em que ele retoma a denúncia do conservador Dwight Eisenhower, de que os Estados Unidos eram governados por um “complexo industrial-militar”. O complexo continua de pé, mas à dupla é necessário acrescentar um terceiro pé, o do “complexo de informação e contra-informação”, densamente privatizado, como atesta o caso Snowden, que produz continuamente news, fake news, diretrizes, balões de ensaio, cortinas de fumaça, etc., intensamente apropriadas pela mídia internacional e nacional, como ocorreu nos casos do Iraque, da Líbia e agora da Síria e que deve ter traçado a estratégia do Departamento de Estado, da Lava Jato, da obstrução da soberania popular no Brasil, ora em curso.

Aqui em Berlim vamos bem (e mal), obrigado. O líder catalão Carles Puidgemont resolveu aqui se aboletar como se berlinense fosse, para desespero de Rajoy e companhia.

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