Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Bolsonaro: cidadão honorário do neofascismo italiano

 

26/10/2021 13:43

Anguillara Veneta e Jair Bolsonaro (Reprodução/Il Fatto Quotidiano)

Créditos da foto: Anguillara Veneta e Jair Bolsonaro (Reprodução/Il Fatto Quotidiano)

 

No dia 25 de outubro o Conselho Comunal de Aguillara Veneta, pequena cidade (4.300 habitantes, censo de 2019) da província de Pádua, na região do Veneto, concedeu o título de cidadão honorário a Jair Messias Bolsonaro, o atual ocupante do Palácio do Planalto brasileiro.

A proposta partiu da Sindaca (Prefeita) da cidade, Alessandra Buoso, justificando-a por terem ascendentes de Bolsonaro partido dali para o Brasil. Foi aprovada no Conselho por 9 votos a favor e 3 contrários, sendo que um outro conselheiro discordante se retirou do plenário, em sinal de protesto.

Protestos não faltaram. Partiram de personalidades italianas ligadas ao Partido Democrático e outros partidos, intelectuais, sindicalistas (inclusive com um protesto oficial por parte de dirigentes da central sindical CGIL), padres italianos radicados no Brasil, brasileiros enviaram cartas à Sindaca relatando os crimes de que Bolsonaro é acusado na CPI da Covid, inclusive sua última bravata fake dizendo que vacinados contra o vírus corriam o risco de contrair AIDS.

De nada adiantaram tais manifestações, o que não é uma surpresa. A Sindaca se elegeu por uma frente de direita, a Lista Cívica Cambiare si Può, com 1031 votos (39,7% do total). Tem ligações com a Lega italiana, de extrema-direita, cujo nome oficial continua sendo Lega Nord per l’Indipendenza della Padania, fundada em 1991 como uma federação de seis partidos regionais do norte e do centro-norte do país, Liga Veneta, Lega Lombarda, Piemont Autonomista, Uniun Ligure, Lega Emiliano-Romagnola e Alleanza Toscana. Seu primeiro líder foi Umberto Bossi e o atual é Matteo Salvini. No momento de sua criação, a Lega Nord, como era conhecida, defendia a independência da Padania, nome que se dá à região norte da Itália. O nome deriva do nome latino do Rio Pó, Padus, cuja bacia cobre boa parte da região, tendo a FEB ali atuado em abril de 1945. Bossi chegou a integrar um dos gabinetes de Silvio Berlusconi.

Em 2012 Bossi renunciou à liderança do partido, sob acusações de ter se apropriado de fundos partidários em benefício próprio, usando-os para reformar sua casa e em favor de familiares. Logo após a renúncia a Lega Nord homenageou-o, outorgando-lhe o posto de presidente honorário do partido. Um triunvirato provisório foi nomeado, até que em 2013 Matteo Salvini, natural de Milão como Berlusconi, assumiu a liderança.

Salvini introduziu mudanças significativas: o partido passou a ter por sigla simplesmente a palavra Lega, e estendeu seu alcance para outras regiões da Itália, com a criação de uma irmã siamesa, a Lega per Salvini Premier. Apesar desta ampliação, a base mais forte do partido permanece no norte da Itália, inclusive na região do Veneto, onde estão a província de Pádua e a comuna de Aguillara Veneta.

Salvini levou a Lega ao melhor resultado eleitoral de sua história. Foi o terceiro partido mais votado nas eleições de 2018, e hoje, entre os partidos de extrema-direita é o que detém a maior bancada no Parlamento Europeu. Porém nos últimos anos a situação se tornou mais adversa para a Lega. Seu líder enfrenta um processo judicial em Palermo, acusado de abandonar refugiados no mar quando era ministro do Interior (2018 - 2019), além de pesadas críticas por racismo, por exemplo. E nas últimas eleições regionais a balança vem pendendo mais para a centro-esquerda, isolando, relativamente, a extrema-direita.

A ligação de Bolsonaro com os partidos da extrema-direita e da direita europeia tem altos e baixos. Tem vínculos claros com o Partido da Lei e da Justiça da Polônia e com o Fidesz da Hungria. Já com o Vox espanhol e com a extrema-direita portuguesa esses vínculos são menos evidentes. Marine Le Pen, da França, até o momento tem manifestado querer distância em relação a ele. Não se sabe o que fará a respeito a nova estrela da extrema-direita francesa, Eric Zemour, conhecido por defender, entre outras causas, a de que o regime de Vichy teria “protegido” os judeus durante a Segunda Guerra, quando na verdade ele enviou milhares para campos de concentração.

No caso da Alemanha, o Alternative für Deutschland tem mantido um silêncio obsequioso sobre o tema, apesar da visita espalhafatosa que sua deputada no Bundestag, Beatrix von Storch e o marido fizeram ao clã dos Bolsonaro. Apesar de poderosa, von Storch tem uma aura folclórica (nem por isto menos perigosa) em seu currículo: para ela, por exemplo, Marine Le Pen está um pouco demais à esquerda por suas posições consideradas “estatizantes” em matéria de economia. De outros partidos do ramo, nos países nórdicos, na Holanda, nos Bálcãs, no Báltico, no Reino Unido, pouco se sabe a respeito. Quanto à direita mais tradicional a tendência predominante é a de manter distância em relação a Bolsonaro. Boris Johnson, o primeiro ministro do Reino Unido, teve um encontro com Bolsonaro em Nova Iorque, quando aconselhou-o a tomar a vacina inglesa contra o Corona-vírus.

Já na Itália, como se vê por esta iniciativa da Sindaca de Aguillara Veneta, a ligação com Bolsonaro é mais vigorosa. Cruzemos os dedos, pois em sua justificativa Alessandra Buoso acentuou que a homenagem a Bolsonaro se estendia a todos os brasileiros. Não duvido que as cartas de protesto enviadas a ela, enumerando as acusações que pesam sobre a cabeça de Bolsonaro e seu governo, tenham lhe servido, no fundo, de carta de recomendação.

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