Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Coronavírus: Alemanha e Brasil, empate técnico.

 

24/11/2021 15:44

Fila para vacinação contra Covid em Dusseldorf, na Alemanha (EPA/Ansa-Brasil)

Créditos da foto: Fila para vacinação contra Covid em Dusseldorf, na Alemanha (EPA/Ansa-Brasil)

 
Vão dizer que enlouqueci. Não importa. O fato é que a situação do Brasil e da Alemanha, quanto à pandemia, é de empate técnico. E com uma leve vantagem para o Brasil: enquanto neste a curva da pandemia, pelo menos de momento, é em geral descendente, naquela a curva é de todo ascendente; enquanto no Brasil a curva de vacinação é de todo ascendente, na Alemanha, de momento, não há curva. Ou seja, a vacinação patina, como em outros países da Europa: não todos, pois quanto à vacina, a situação é muito boa em Portugal, Espanha, Itália, e boa na França; mas é relativamente ruim aqui na Alemanha, na Áustria, Holanda, Bélgica e é péssima em países do Leste, como a Romênia. A Áustria decretou um toque de recolher generalizado; as pessoas só podem sair à rua para fazer compras alimentares, ir à farmácia, ao médico ou ao hospital. A Holanda e a Bélgica estão indo pelo mesmo caminho, de renovar restrições rigorosas, sob protestos generalizados.

As razões desta semelhança de situações são muito diferentes, entre o Brasil e a Alemanha. No Brasil, houve uma sabotagem da vacinação e do tratamento da pandemia por parte do governo federal. Não houve tal na Alemanha. Mas houve e há uma grande inércia e confusão. Para agravar este quadro existe hoje uma anomia governamental: o governo que está saindo (Angela Merkel) ainda não saiu, e o governo que está entrando (Olaf Scholz) ainda não entrou. Resultado: paralisia.

No Brasil a descentralização das medidas sanitárias, favorecendo a iniciativa de estados e municípios, garantida pelas decisões do STF, ajudou, com o SUS, a minorar o desastre. Na Alemanha, a descentralização das medidas ajudou a aprofundar o caos e o desastre ora vivido no outono, arriscando tornar-se uma catástrofe no inverno. A falta de diretivas gerais claras para combater a propagação do vírus, notadamente em sua variante Delta, ajudou a propagar a confusão e favoreceu os negacionistas, ajudados também por uma noção equivocada e não livre de arrogância de que “epidemias são coisas de terceiro mundo”. É bom lembrar: desastres naturais, como inundações, também eram “coisas de terceiro mundo”, até que uma inundação devastou vastas regiões do oeste alemão, deixando mais de uma centena de mortos e milhares de desabrigados e de lares destruídos.

O verão trouxe uma dose de euforia para todo o continente europeu. A pandemia tinha ares de personagem deixando a cena. Houve exceções. Na França, adotou-se uma política rígida quanto à vacinação e seu comprovante, o passaporte sanitário. Você não conseguia sentar numa mesa de bar na calçada, se não o apresentasse. Resultado: a situação por lá não está tão ruim.

Na Alemanha houve mais corpo mole. Raramente havia um controle. Resultado: a chanceler Angela Merkel classificou a atual situação de “dramática”. Não é para menos: em muitas regiões a capacidade hospital está esgotada ou se esgotando. As estatísticas são muito graves, sobretudo na Baviera, ao sul, e nas províncias do leste do país; e são graves em todo o país. Em termos de Europa, a situação alemã é de classificada como “de alto risco”; o governo norte-americano aconselhou seus cidadãos a não viajarem para cá.

A atual onda de Corona, que na Alemanha é chamada de “quarta” e na França de “quinta”, é caracterizada em vários comentários como a “onda dos não-vacinados”, pois a resistência à vacinação é grande. Na Alemanha ela conta com 20% da população de vacináveis., o que dá quase 20 milhões de pessoas. Há uma politização do problema. Estudos acadêmicos e estatísticos vêm vinculando os maiores focos de resistência ao eleitorado da extrema-direita, particularmente os que votam no partido Alternative fúr Deutschland (AfD) e num outro partido do mesmo espectro, com expressão regional, Die Basis.

Mas isto não explica tudo. Há bolsões de resistência contra a vacinação e contra medidas sanitárias por parte também de grupos considerados como “alternativos”, como os que aderem à Antroposofia. Há um estudo acadêmico na província ocidental de Baden-Würtenberg, que mostra, entre outras coisas, que eleitores antroposóficos que votavam tradicionalmente com os Verdes passaram a votar com o AfD depois da pandemia. E estão entre os que mais resistem à vacina.

A resistência é muito tenaz. É difícil que uma pessoa que enverede por este rumo volte atrás: a tendência é que ela se aferre mais e mais à sua crença. Algumas vezes isto se mistura a questões religiosas, o que só piora o quadro. Na Romênia, por exemplo, muitos bispos e diáconos ortodoxos vêm pregando contra a vacinação. Trabalhadores romenos que vêm trabalhar na Alemanha recebem ofertas de vacina; muitos recusam, alegando motivos religiosos.

De todo modo, a situação europeia - a alemã em particular - é muito grave, e motivou uma frase patética por parte do ministro da Saúde do governo de Berlim, Jens Spahn: “até o fim do inverno, os alemães estarão vacinados, curados, ou mortos”. Esperemos que somente os dois primeiros terços do vaticínio se cumpram.






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