Cartas do Mundo

Carta de Berlim: Entre Gaza, Berlim e Tirana

Os números são impressionantes: nos últimos dois dias, 58 palestinos mortos à bala junto à cerca. mais de 2 mil feridos, também por armas de fogo. Nas últimas sete semanas, 107 palestinos mortos, mais de 12 mil feridos. Nenhum soldado israelense morto ou ferido, que se saiba

15/05/2018 16:35

 

Flavio Aguiar

Retorno a Berlim, depois de uma curta estadia na Albânia, para festejar meu 71* aniversário na companhia de amigos. Encontro o noticiário devastador sobre o massacre de jovens (não apenas, mas na maioria) palestinos, promovido pelo Exército Israelense, a junto à cerca que divide a Faixa de Gaza e Israel. Eu cito:

“As pessoas de ambos os lados da cerca têm a mesma idade. De um lado estão soldados israelenses, cujas vidas não correm risco na maior parte do tempo (…). Diante deles estão jovens de Gaza, em geral desarmados, desprotegidos, na maior parte desempregados, sem esperança (…) A maioria vai para os protestos a fim de gritar e expressar seu desespero”.

Palavras da Autoridade Palestina? Não: de um editorial do jornal israelense Haaretz, prova de que ainda há vida inteligente e humanista em Israel. Em outro artigo, a aliança entre Trump e Netanyahu foi qualificada de messiânica. Detalhe que não sei como adjetivar: “grotesco”? “tragicômico”? “ato falho”? - fazia parte da delegação norte-americana que compareceu à hollywoodiana inauguração da nova Embaixada dos EUA em Jerusalém, no dia 14.05, apontada como uma das causas dos protestos em Gaza, um pastor protestante conhecido por suas declarações antissemitas, como a de que “todos os judeus irão para o Inferno”.

Os números são impressionantes: nos últimos dois dias, 58 palestinos mortos à bala junto à cerca. mais de 2 mil feridos, também por armas de fogo. Nas últimas sete semanas, 107 palestinos mortos, mais de 12 mil feridos. Nenhum soldado israelense morto ou ferido, que se saiba.

Israel alega que os manifestantes portam bombas molotov e outros explosivos para romper a cerca e “matar israelenses”. A Al Jazeera e outras fontes afirmam que as manifestações eram pacíficas.

Só há uma palavra para dar nome ao que está acontecendo: massacre.

No regabofe inaugural da nova Embaixada, apenas 31 países enviaram representantes. Destes, 7 eram latino-americanos, dos piores satélites dos EUA. Netanyahu exultava: “Que dia glorioso”!, cevando o antissemitismo em escala mundial.

Enfim… retornando ao primeira parágrafo: Albânia? É, Albânia.

Um país cuja população oscila entre 3 e 2,5 milhões, devido a uma diáspora de jovens cuja dimensão é inexata em termos de mensuração. Um enclave montanhoso (belíssimo) entre a ex-Iugoslávia, a Grécia, e o Mediterrâneo. País pobre, população amistosa, receptiva, com sua língua no mais das vezes incompreensível para os estrangeiros. Dizem que ele (povo) e ela (língua) são descendentes dos antigos Ilírios, que povoavam os Balcãs e adjacências em priscas eras, um dos povos de cultura das mais antigas da Europa, e também um dos primeiros povos na região a aderirem ao cristianismo emergente. Não sei, não tenho autoridade para confirmar ou desconfirmar esta versão, que é a mais encontradiça.

Sessão nostalgia: quem de nós, veteranos da Ditadura Civil-Militar de 1964, não ouviu a Rádio Tirana, ao lado, pelo menos, das de Moscou e Havana? E não ouviu o as frases do “Farol de Tirana”, Enver Hoxha? Ah, bons péssimos tempos! Como Tirana, por um tempo, foi próxima de Pequim, a gente ouvia as notícias do lado do PC do B. Moscou, o PCB; Havana, as demais organizações. “O Partido e o país inteiro deveriam jogar ao fogo e quebrar o pescoço de quem ousasse violar o sagrado decreto em favor dos direitos das mulheres”. Betty Friedan? Rosa Luxemburgo? Não, Enver Hoxha… (a gente deve dizer Ênver Hôdja”).

Uma história complicadíssima. O território da Albânia foi invadido e dominado por todo mundo: Otomanos (400 anos!), Italianos, Nazistas Alemães… Ao fim da Segunda Guerra, a população albanesa era de 1 milhão de almas. Destas, 28 mil tinham morrido na guerra, mais de 12 mil eram incapacitados por ferimentos, 10 mil tinham se perdido nos cárceres fascistas e nazistas e 35 mil tinham sido confinados em campos de concentração e trabalhos forçados.

Enver Hoxha, o líder que emergiu desta hecatombe, herdava de uma monarquia (do Rei Zog) fajuta e exilada, um país destroçado, destruído, atrasado, enfim, um desastre cercado de inimigos por todos os lados, alguns históricos, outros construídos ao longo do tempo. Os guerrilheiros albaneses que combateram os nazistas tiveram ajuda dos seus colegas iugoslavos. Mas isto durou pouco. Hoxha era um fervoroso admirador de Stalin.

Quando Tito rompeu com os soviéticos, o Farol rompeu com Tito. Havia também discordâncias territoriais:  Hoxha era herdeiro do sonho de Zog por uma “Grande Albânia”, que compreendia o Kosovo (então território iugoslavo-sérvio) e terras adjacentes. Tito não topou esta ambição.  

Mas quando Khrushchev rompeu com o passado estalinista, Hoxha rompeu com os soviéticos, em nome de Stalin. Aproximou-se da China comunista. O namoro durou até o começo da década de 70, quando começou a ruptura, consumada ao mesmo tempo em que soçobrava a “Revolução Cultural” da linha dura de Pequim.

Durante o tempo em que “reinou” na Albânia, Hoxha promoveu uma série  de avanços, em termos econômicos, sociais e culturais. Em 1939, a população rural analfabeta beirava 95%. Em 1985 (ano da sua morte), o analfabetismo fora praticamente erradicado no país. Em 1957 fundou-se a primeira universidade, a hoje chamada de Tirana, antes de “Enver Hoxha”. A malária e a sífilis foram erradicadas, e os direitos das mulheres promovidos. Quando morreu, Enver Hoxha teve um funeral grandioso, não somente em termos de pompa, mas também em termos do que se vê, ainda hoje, nas fotos: milhares e milhares de pessoas chorando desesperadamente, muitas mulheres, muitos jovens (que hoje devem estar na faixa dos 50, 60, 70 anos).

Hoxha foi vítima de uma tentativa de atentado, e o regime, de uma tentativa de invasão, no estilo Baía dos Porcos, de Cuba, preparado pelos serviços de inteligência norte-americano e britânico. Esta última, ainda na década de 50, foi neutralizada com ajuda do famoso espião inglês Kim Philby, dos “Cinco de Cambridge”. Fracassou.

Adepto de Stalin, ao mesmo tempo em que promovia avanços no país, Hoxha montou um serviço de repressão amplo, geral e irrestrito, através da Sigurimi, a equivalente da KGB soviética e da Stasi da Alemanha Oriental. O começo deste sistema se baseou no sentimento de justiça, misturado ao de vingança, em relação aos colaboradores dos fascistas e nazistas. Mas ele acabou se dirigindo a todo mundo que pudesse representar algum tipo de ameaça ao regime.

Cercado de inimigos imaginários ou reais por todos os lados, criou um sistema de auto-defesa baseado na construção de “bunkers”, individuais ou coletivos, cujo número é assustador: as estimativas falam em 750 mil, num país um pouco maior do que o estado de Sergipe. Em Tirana há alguns bunkers de grande porte, o maior deles sendo imenso, com centenas de salas e corredores que formam um enorme labirinto. O chamado Blloku (área onde ficavam os prédios e residências da “Nemenklatura” albanesa, guarda ainda os remanescentes de labirintos subterrâneos ligando estes bunker defensivos, numa rede que hoje é chamada de “paranóica”, mas que tem algum sentido (mesmo que paranóico) se o medirmos ao encontro do passado sentimento de cerco por inimigos, internos e externos, de todos os lados e tipos.

Inundado pela onda de “descomunização” do antigo Leste Europeu, o regime da Albânia não sobreviveu muito tempo à morte de Hoxha. Dentro de cinco anos ele começou a cair, e acabou sendo substituído por um capitalismo predatório que destruiu, logo de início, as poupanças familiares que tivessem sobrevivido à queda do comunismo. A base desta catástrofe foi um sistema financeiro conhecido como “pirâmide”, em que uma rede de investimentos vai sendo formada, com cada investidor conseguindo outros e obtendo um percentual do que estes investiram. Tal sistema - fraudulento por princípio - atraiu uma maré de gente cuja ambição de enriquecimento fácil e rápido fora contida pelas décadas de comunismo. Como era de se esperar, as pirâmides ruíram, quebrando tudo e todos. No desastre subsequente, houve motins, alguns milhares de mortos, desespero e novas ondas de fuga da Albânia.

O resultado desta série de hecatombes é hoje um país muito agradável de se visitar, com uma culinária excelente, rica em pescados, frutos do mar, massas e carneiro, influenciada pelas vizinhas Itália (do outro lado do mar) e Grécia (vinhos, azeites, azeitonas, pão), muito barato em termos de Europa, com um dos piores trânsitos que já enfrentei, com montanhas inacessíveis e algumas ainda cobertas de neve em pleno começo de maio (equivalente a outubro no Hemisfério Sul) e como já disse um povo muito generoso. Detalhes: mesquitas, igrejas católicas e ortodoxas convivem pacificamente, sem confrontos. A maioria da população é professadamente muçulmana.

Hoje o governo do país, liderado por um antigo socialista, luta por se tornar palatável para ingressar na União Europeia, talvez na Zona do Euro. O preço é alto e ambíguo. Há muito desemprego e pobreza. A Albânia tornou-se um entreposto de drogas para outros países próximos. Produz e exporta energia para a Itália do outro lado do mar e mão de obra dês- ou médio-qualificada para outros países da U. E., como a Alemanha.

As cidades e estradas são ocupadas por cafés, hotéis de pequeno ou médio porte, táxis, toda a sorte de biroscas onde se compram todas as quinquilharias imagináveis e inimagináveis, e postos de gasolina aos milhares, acusados de serem as principais lavanderias de dinheiro ilegal no país. Não tenho como confirmar nem desconfirmar isto, ainda mais diante da magnitude das lavanderias suíças e luxamburguesas, e das rotas de acesso às do Caribe, via Holanda, Reino Unido e Irlanda.

De quebra, praias, montanhas altíssimas e escarpadas, cidades históricas, circos romanos, lojas com objetos locais e outros tipo dos made in China.

Oficialmente, não há nostalgia em relação aos tempos de Hoxha. Mas em algumas lojas de turismo, sobretudo no interior, surpreendi algumas carequinhas de chá com sua efígie, ao lado da cultuada Madre Teresa, que dá nome ao aeroporto da Capital.  Também bunkerzinhos que servem de cinzeiro ou de peso de papel. Onde há cinza, há sempre a possibilidade de brasa sob ela, como se sabe.

De volta a Berlim, os problemas de sempre: o que farão Merkel e Macron com Trump? O que fará o SPD diante de sua decomposição?

Nada como um capitalismo avançado em sua necrose para a gente tomar um banho purificador diante dos desafios daqueles que estão tentando sobreviver arduamente ao seu naufrágio mundial, como na Albânia.



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